A Mãe Preta e a nossa nação

fevereiro 26, 2019 0 Por Leandro Stoffels
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 Samuel Macedo – mestrando em Cultura e Sociedade e integrante do CUS

Ao chegar no Museu de Arte da Bahia, você se depara com o passado gritando para ser brindado. Poder. Riqueza. A história da tão bem sucedida capitania da Bahia, a primeira capital do Brasil. Negras peles e ruas de ladeiras alicerçaram todo aquele suntuoso passado, presentes ali, no antigo casarão da Av. Sete de Setembro. Trecho mais conhecido como Corredor da Vitória, em homenagem à ela, que passou sessenta e três anos no poder do Império Britânico e sustenta o ocidente com seus fartos seios cobertos, até os dias de hoje, a rainha Vitória da Inglaterra.

Não seria diferente aqui, o palácio/mansão tem ares ingleses, no bom e no mal sentido. Ao subir o primeiro lance da distinta escadaria, nos deparamos com a porta da galeria que nos leva para a Coleção Permanente (1° andar); Ao lado direito da porta de entrada, encontramos um quadro chamado: Mãe Preta. Sim, ele está ali mesmo, na porta, aguardando todas as pessoas. Fiquei perplexo. “Senhor, não pode tirar fotos” – uma guia respondeu. “Existe esse quadro na rede virtual?”. “Não, mas o senhor pode pedir uma solicitação do museu, se deseja pesquisá-lo”.

Fiquei ali, parado, observando a negra escrava, mal vestida, amamentando o bebê branco, bem vestido, enquanto seu filho negro ficava ali no chão, em cima de uma manta simples, sozinho. Enquanto o bebê mama, a mãe, com o olhar triste, observa seu filho no chão, provavelmente faminto. Qual o gosto do leite que nos constituiu durante os anos idos da colonização? Leite de dor, muito provavelmente.

Lirismos à parte, quantos de nós não tivemos uma mãe preta? Meus antepassados oligárquicos maternos: coronéis, doutores, juízes da lei; quase todos tiveram uma mãe preta. Eu, mestiço, o último bebê da década de oitenta, literalmente, também tive uma, até quase treze anos de idade. Chama-se Neide. Neide foi a minha mãe preta, só não me deu de mamar porque na época já não era preciso. Do contrário também daria. Contribuiu na minha criação e foi tão importante como qualquer outra pessoa que constituiu minha família. Outras histórias…

O quadro barroco, de autoria de Lucélio de Albuquerque, piauiense, que morreu no Rio de Janeiro em 1939 e pintou Mãe Preta em 1912, em óleo sobre a tela. Ali, na primeira década do século XX, quase um década após a “libertação” das negras e negros escravos, todas as relações da casa-grande-senzala ainda estavam pulsantes e trariam consequências infinitas. Período vitoriano no qual, entre outras coisas, pungia a psicanálise freudiana. Freud, segundo Anne MacClintock, esquecera de colocar a figura da babá no esquema da família que reverbera nos estudos/pesquisas sobre o complexo de Édipo. Ele, o próprio Freud, teve uma babá quando criança.

Que coisa mais burguesa-classe-média falar sobre babás. Nossas mães pretas sustentaram com seus seios, ancas, cinturas e “bucetas” nossa nação durante muitos séculos e, no entanto, são relegadas, ou suas tragédias são naturalizadas para que se sele o mito da nação. Essas foram as grandes mães do povo da Bahia, por exemplo, e justamente no dia de Santa Bárbara, Iansã, para o povo de santo, deparo-me com esse quadro deslumbrante e denunciador, intitulado Mãe Preta. O olhar profundo da mãe diz muito sobre todos nós, pessoas brasileiras.

Precisaria de muitas páginas de análise e discussões dedicadas àquela obra. Ela fica lá, na porta do galeria, onde adentramos para o nosso presente-passado colonizador. Dentro dos salões da exposição deparamo-nos com as artes sacras, mobília colonial, utensílios domésticos, brasões de família, pinturas de senhor e senhora de engenho, relíquias aristocratas, quadros sobre a descrição dos continentes ou sobre as histórias da Igreja. Tudo ali. Todos os objetos carregados de signos, símbolos e discursos que vão deflagrar a nossa História. A mãe preta fica ali, desejando que o bebê branco se sacie, para que ela possa, enfim, amamentar a sua criança negra, talvez mestiça.  

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