Diversos motivos para protestar e se preocupar

fevereiro 26, 2019 0 Por Leandro Stoffels
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Leandro Colling – professor da UFBA e coordenador do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade

Em setembro de 2014, Dom Murilo Krieger, arcebispo primaz do Brasil, escreveu no jornal A Tarde um texto recheado de inverdades em relação ao campo das sexualidades e identidades de gênero (leia aqui). Imediatamente, escrevemos (eu, Silvia de Aquino e Felipe Fernandes) uma resposta que foi prontamente publicada pelo jornal (leia aqui) No último dia 23 de abril foi a vez do médium espírita Divaldo Franco nos apresentar seus desconhecimentos em matéria de sexualidade (leia aqui). Novamente enviei ao jornal um texto que rebate as ideias de Divaldo, mas até agora nada foi publicado.

Divaldo e Dom Murilo possuem diferenças entre si mas pelo menos uma coisa em comum: analisam a sexualidade através de uma perspectiva “biológica e/ou patologizante” que, no fundo, tem um objetivo político-religioso-moral, que é o de considerar válida apenas uma forma de viver a sexualidade, a heterossexualidade monogâmica. As demais formas de viver a sexualidade, quando não são pecaminosas, são “patologias”, inclusive quando não há nenhuma evidência para tal.

Divaldo chega ao cúmulo de considerar a prostituição uma “patologia grave”, que seria, segundo ele, criada pela “distorção” da prática sexual, “que somente objetiva o prazer ligeiro e variado”. Não existem estudos sobre o campo das sexualidades que tenham concluído que a prostituição e outras coisas elencadas por ele sejam patologias.

Na sua lista de doenças, causados porque teríamos deixado de praticar o que ele considera como “sexo saudável”, ainda consta a pederastia, modo como os antigos chamavam também as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo (lembrem-se que a palavra homossexual foi inventada no início do século 19 e a homossexualidade foi retirada da lista de doenças a partir de 1973).

Ao misturar coisas tão distintas como prostituição, incesto e pederastia, com pedofilia (esta sim consta na Classificação Internacional de Doenças – CID-10 – da Organização Mundial da Saúde), masoquismo, o sadismo, com a necrofilia (tida também como patologia e prevista juridicamente como “vilipêndio de cadáver”), o médium mais conhecido da atualidade revela seu total desconhecimento em relação ao campo das sexualidades e colabora, talvez sem se dar conta ou ter como objetivo, com o coro de fundamentalistas religiosos que nos últimos anos têm feito de tudo para impedir determinados diretos para pessoas como as profissionais do sexo (regulamentação da prostituição, por exemplo, em tramitação no Congresso Nacional) e homossexuais.

Antes que digam, não estou defendendo, por exemplo, os praticantes de pedofilia ou necrofilia, mas destacando como Divaldo misturou completamente “alhos com bugalhos” para no fim defender o que ele considera como “sexo saudável”. Um dado curioso de Divaldo estar recorrendo às patologias é que ele pode estar jogando contra si próprio, pois determinadas correntes do saber podem considerar a própria mediunidade como um delírio. Portanto, antes de simplesmente repetirmos mantras sobre o que é o não patológico, precisamos também questionar e verificar como essas categorias são construídas e quais interesses elas atendem. Isso não quer dizer, obviamente, negar por completo a existência de patologias.

Ainda que Divaldo tenha criticado que muitos teólogos, ao longo da história, tenham tratado o sexo como algo pecaminoso, sujo e reprovável, movidos por uma “ignorância medieval e tormentos”, o próprio médium não parece estar livre totalmente da mesma ambiência. E essa ambiência é o xis da questão: o texto de Divaldo não pode ser lido como um ato isolado, pois é mais um dado do crescimento do obscurantismo, conservadorismo e fundamentalismo em nosso país. Exemplos não faltam, vou citar apenas quatro que devem ser somados ao constante crescimento da violência contra as pessoas LGBT:

1)      professor de universidade de Pernambuco lança livro sobre heterofobia (ler aqui);

2)      universidade (PUC-SP) rejeita uma cátedra sobre Michel Foucault porque o pensamento do filósofo francês “não coadunaria com os valores defendidos por uma instituição católica de ensino” (ler aqui);

3)      famoso escritor brasileiro diz que atriz não pode “fazer apologia ao afeto homossexual” em novela (leia aqui)

4)      maior igreja evangélica do Brasil, opositora da diversidade sexual e de gênero e de outras chamadas “minorias”, cria um grupo claramente inspirado em uma estética militar, chamado de Gladiadores do Altar (ler aqui)

Esses e tantos outros exemplos nos apontam que está em pleno curso um processo de retomada e crescimento de uma perspectiva ultra conservadora no país, que pode ser detectada em várias outras esferas, para além do campo das sexualidades e gêneros. É claro que existem também as reações contrárias a essa tendência, mas elas parecem bem menos expressivas e organizadas.

E o que é pior: as pessoas progressistas parecem ter menos voz (inclusive na grande imprensa, que claramente deu uma guinada ainda mais à direita nos últimos anos, basta analisar o perfil de quem foi alçado ao posto de grande articulista de nossos maiores jornais) e menos vontade de enfrentar o debate com os conservadores.

Se esse quadro não for revertido, coisas muito piores poderão acontecer. Por isso, é muito necessária a sua participação em atividades como a 1ª Marcha Estadual Contra LGBTfobia da Bahia, uma das atividades que fazem parte da programação do III Maio da Diversidade com o tema “ZERO violência contra LGBT! Por uma Bahia que respeite a Diversidade Sexual e de Gênero”.

A Marcha ocorre neste domingo, dia 17 de maio (Dia Mundial de Combate à Homofobia), às 14h, no Morro do Cristo, na Barra.

Se jogue!

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