Esperando K.

fevereiro 26, 2019 0 Por Leandro Stoffels
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O Obelisco em construção (Autor desconhecido. Buenos Aires, 1936)

 

Matheus Araujo dos Santos – mestre e doutorando em Comunicação pela UFRJ e integrante do CUS

           

           Espero K. em um quarto branco de hotel no centro de Buenos Aires. Pela janela vejo os outros prédios e seus apartamentos infinitos. O sol do fim da tarde reflete nas superfícies espelhadas dos arranha-céus porteños. A cidade contemporânea narcisista tem sua perfeita metáfora nestes edifícios que miram e refletem a si mesmos. Penso nestas estruturas arquitetônicas e nos seus compartimentos e divisões; regulações do que pode ou não ser visto, do que deve permanecer entre as paredes do hotel e daquilo que é autorizado a sair e disputar o espaço público. Estruturas que acabam por produzir materialmente os nossos corpos, temporalizando e controlando nossas vidas através da segmentação do espaço e administração de fronteiras; prisões, escolas, banheiros públicos, academias, igrejas, complexos hoteleiros…

          O que estará acontecendo no quarto vizinho? Quem habitará a cela ao lado? Hotéis são uns destes espaços marcados por contraposicionamentos; lugares-fora-de-lugar nos quais posicionamentos diversos -e mesmo incompatíveis- se encontram justapostos. Estes outros espaços são pensados por Foucault (2009) como espécies de “utopias efetivamente realizadas”, isto é, que têm ancoramentos reais em espaços físicos determinados e não dizem respeito apenas a referentes fora da realidade. Aqui faço parte desta heterotopia urbana composta por camareiras, restaurantes, piscinas, elevadores, recepcionistas, cataratas artificiais, faxineiros, saunas, salas de ginástica, saídas de emergência… Divago imaginando os outros hóspedes que me cercam e que, como eu, fazem mover esta construção: traficantes negociando narcóticos e dólares, putas satisfazendo seus clientes, empresários celebrando os lucros de suas ações, acadêmicos que transitam de um país a outro participando de congressos internacionais, uma família heterossexual européia de férias pela América do Sul. Eu, como parte dessa rede de trocas de informações, fluídos e capital, espero K., ator do video pornô que filmaremos en la habitación. Estou pronto para dar a minha contribuição ao capitalismo farmacopornográfico.

***

            Confiro mais uma vez o material: câmera, baterias, camisinhas, viagra, fitas, lubrificante, contrato de concessão de imagens, dildos. Tudo ok; ciência e tecnologia trabalhando pela excitação mundial. Após a filmagem, as imagens de K. serão disponibilizadas na internet com o acesso restrito a consumidores que pagam até 20 dólares mensais por assinatura. Em alguns meses o vídeo estará circulando gratuitamente na rede devido à ação de assinantes que costumam compartilhá-los de forma “ilegal” entre si e em sites que não exigem cadastro, como o xvideos.com ou pornhub.com.Ele será assistido às escondidas por pré-adolescentes, pais de família, gays ou quem estiver disposto a um clique entre um intervalo e outro de suas atividades cotidianas. Além do espaço doméstico, a performance masturbatória de K. será acessada das cabines dos locutórios no centro da cidade, estabelecimentos que oferecem internet em ambiente privado e que, na práxis, funcionam como lugares de encontro sexual entre homens. Logo mais o video fará parte de uma compilação que será lançada em DVD. K. estará entre as prateleiras das locadoras pornô nas lojas do Castro, em São Francisco, ou do Soho, em Londres. O DVD será pirateado e vendido em ruas como a Avenida Sete de Setembro, em Salvador. K. será visto também nas telas dos cinemas pornôs e nas Tvs dos cruising bars que se escondem nos grandes centros urbanos, lugares frequentados por garotos de programa e outros trabalhadores em horário de almoço.

            Não há dúvidas de que os cinemas pornô, locutórios e cruising bars sejam espaços heterotópicos. No entanto, dentre tantas heterotopias, o consumo e produção de imagens de sexo explícito associado ao tensionamento entre o público/privado torna estes lugares atravessados por vetores particulares. Poderíamos chamá-los de espaços pornotópicos. A pornotopia, como pensada por Beatriz Preciado (2010, p.120), caracteriza-se exatamente por  “su capacidad de estabelecer relaciones singulares entre espacio, sexualidad, placer y tecnología (audiovisual, bioquímica, etc.), alterando las convenciones  sexuales o de género y produciendo la subjetividad sexual como un derivado de sus operaciones espaciales”. Que tipo de saber, poder, prazer e capital seriam produzidos nos espaços pornotópicos das cidades contemporâneas?

            O nosso encontro de cerca de uma hora e meia é condensado em um vídeo de 20 minutos que será reproduzido por horas em lugares e espaços distintos e que funcionará como motor de interação entre os mais diversos agentes. A ação masturbatória de K. será replicada exaustivamente e, ainda que seu corpo físico não esteja sempre presente, podemos pensar com Judith Butler que ele continua operando algum tipo de performatividade, desta vez de caráter “cinemático” (BUTLER, ano, p.91)  e codificável em pixels.

            Pensar neste fluxo de imagens e afetos e na sua relação com a produção de excitação e pornotopias nos dá a dimensão do estado da arte do capitalismo. Segundo Preciado (2014), a economia posindustrial é caracterizada por circuitos de estímulo-frustração-estímulo que revelam alterações nos modos de produção e exploração no regime posfordista, no qual subjetividades passam a ser produzidas e gestionadas tanto midiática como bioquimicamente. Neste cenário, a noção de tecnobiopoder como pensada por Donna Haraway (1997) parece adequada, uma vez que leva em conta um poder que atua não somente sobre o puro bios, mas incidesobre um todo tecnovivo conectado.

***

            Meu celular toca e vejo seu nome no visor: K. Ele me conta que chegará um pouco atrasado, que acabou de sair da casa de um cliente, que está a caminho. K. é um jovem bonaerense de 24 anos, branco, gay, passivo e que ganha a vida como garoto de programa, ator pornô e técnico de informática. Penso a respeito do tipo de capital que é movido por ele nestas funções, sobre quais afetos põe em jogo, sobre o que seria explorado no trabalho sexual. Que tipo de capital é negociado por K. quando ele se masturba frente à câmera ou a mim, quando se prostitui na noite ou conserta um computador tomado por um destes vírus vindos de sites escusos?

        K. é o trabalhador exemplar do capitalismo narcóticopornográfico. Prostituindo-se e atuando na indústria pornô ele é marcado com a letra escarlate. O trabalhador sexual é frequentemente reduzido a uma essência natural que dificulta a sua participação em outros mercados de trabalho (Preciado, 2014, p. 219). Não obstante, K. segue sendo técnico de informática e visitando semanalmente cerca de dez lares porteños nos quais presta aqueles seus serviços que podem ser reconhecidos legalmente. O trabalhador sexual faria parte de uma “casta maldita” (junto ao imigrante ilegal, presidiários, pequenos traficantes e outros) que sintetizaria as condições de trabalho na contemporaneidade. Uma classe superpauperizada e marcada pela precariedade das relações de trabalho.

            O pós-operaísmo aponta para uma matéria prima imaterial sobre a qual atuaria o capitalismo contemporâneo. Informações, conhecimentos, afetos e prazeres fariam parte desta produção abstrata disputada pelo capitalismo agora chamado cognitivo. A força de trabalho não é reduzida à fábrica, mas sim ampliada às próprias relações sociais em seus modos de cooperação (HARDT; NEGRI, 2005). A sugestão de Preciado (2014, p.39) é a de que pensemos nestas cooperações como masturbatórias e não apenas cerebrais: “Osemos la hipótesis: las verdaderas materias primas del proceso productivo actual son la exitación, la erección, la eyaculación, el placer y el sentimiento de autocomplacencia y de control omnipotente. El verdadero motor del capitalismo actual es el control farmacopornográfico de la subjetividad, cuyos productos son la seratonina, la testosterona, los antiácidos, la cortisona, los antibióticos, el estradiol, el alcohol y el tabaco, la morfina, la insulina, la cocaína, el citrato de sidenofil (Viagra) y todo aquel complejo material-virtual que puede ayudar a la producción de estados mentales y psicosomáticos de excitacíon, relajación y descarga, de omnipotencia y de total control. Aquí, incluso el dinero se vuelve un significante abstrato psicotrópico. El cuerpo adicto y sexual, el sexo y todos sus derivados semiótico-técnicos son hoy el principal recurso del capitalismo posfordista.”

            Temos então a indústria farmacêutica e a pornográfica como modelos paradigmáticos destes novos modos de exploração. O fato de serem arquétipos destas novas estratégias não implica em uma superioridade quantitativa (embora estas sejam, de fato, umas das indústrias mais lucrativas da atualidade), mas antes indica um fator qualitativo ao qual todo outro modo de produção aspiraria; o controle biomolecular e o eficiência do circuito de excitação-frustração.

            A força de trabalho negociada por K. é a força motriz do capitalismo farmacopornográfico. Ela não é exclusiva de trabalhadores sexuais e nem passível de ser possuída ou conservada por quem quer que seja. A força que move o capitalismo tóxico-pornô deve ser tomada como um “evento, relación, prática ou devenir”. A ela Preciado (2014, p.42) dá o nome de potentia gaudendi; força orgasmática, potência de excitação de qualquer ser. É esta força que é negociada por K. e que ativa o circuito estimulo-frustração que embala as pornotopias urbanas contemporâneas.

***

            Olho mais uma vez os objetos de trabalho sobre o criado mudo, desta vez me detenho sobre o Viagra e penso na promessa de enrijecimento do falo. Promessa que acaba por revelar o próprio aspecto ideal desta forma e a ameaça de falha que ronda a masculinidade. Meus olhos seguem outra vez até a janela e através dela vejo o Obelisco, grande falo erguido sobre o centro da cidade de Buenos Aires na década de 1930; um dos principais pontos turísticos da capital e também local de constantes manifestações populares. Alberto Prebisch, arquiteto responsável pelo projeto, certa vez foi indagado sobre a sua forma, ao que respondeu: “Se adoptó esta simple y honesta forma geométrica porque es la forma de los obeliscos tradicionales… Se le llamó Obelisco porque había que llamarlo de alguna manera. Yo reivindico para mi el derecho de llamarle de un modo más general y genérico ‘Monumento’”. Prebisch tenta nos convencer de que tudo não passa de mera casualidade. Eu devo estar louco por imaginar um pau gigante ao ver o Obelisco.

            Lembro-me de Georges Bataille e sua crítica às formas homogêneas e estáveis. No verbete “Arquitetura”, publicado na revista surrealista francesa Documents entre 1929 e 1930 (poucos anos antes da Construção de Prebisch) Bataille (2003, p.9) escreve: “La arquitectura es la expresión del ser de las sociedad […] sólo el ser ideal de la sociedad, aquel que ordena y prohibe con autoridad, se expresa en las composiciones arquitectónicas  propriamente dichas. Así, los grandes monumentos se alzan como diques que oponen la lógica de la majestad y de la autoridad a todos los elementos confusos: bajo la forma de las catedrales y de los palacios, la Iglesia o el Estado se dirige e impone silencio a las multitudes”.

            As palavras de Bataille encontram sentido nas manifestações da CTA (Central de Trabajadores de Argentina) que acampam por dias ao redor do Obelisco realizando assembléias e denunciando as relações precárias de trabalho às quais são submetidos, somam-se a elas inúmeras outras manifestações populares que disputam cotidianamente este espaço. Contra o Estado e seu imponente monumento calcado em solidez e verticalidade, temos a “massa amorfa” (BATAILLE, 1970) da população formada pelo conjunto de miseráveis que habitam como podem a grande província.

            O motivo da Construção foi a celebração dos quatrocentos anos de fundação da cidade de Buenos Aires; Uma  construção celebra a outra.  Em apenas 31 dias a empresa alemã G.E.O.P.E. – Siemens Bauunion – Grün & Bilfinger levantou o monumento de 67,5 m de altura, utilizando a força de trabalho de 157 operários. Um deles, o italiano José Cosentino, morreu ao cair em uma vala. Para a Construção foram trazidos 1360 m² de pedras brancas cordobesas e necessários cerca de 680 m³ de cimento. A velocidade com a qual se fez real um plano arquitetônico de tamanha proporção pode ser entendida como uma demonstração da força do Estado, mas também do capitalismo e do tecnobiopoder. Para garantir a rigidez da Construção, a G.E.O.P.E. anunciava também a utilização do cimento Incor®, material que prometia endurecimento acelerado. O Obelisco também toma Viagra.

***

            O telefone toca outra vez: K. Ele me diz que teve problemas, que não pôde evitá-los, que não chegará a tempo para a filmagem de hoje, que sente muito, que amanhã será um dia melhor. Isso é o pornô: frustração-estímulo-frustração.

                      

Textos citados:

 BATAILLE, Georges. Arquitectura. In: La Conjuración Sagrada. Buenos Aires: Adriana Hidalgo, 2003.b

_________, Georges. L’Abjection et les Formes Misérables. In: Essais de Sociologie: Oeuvres Complètes, Vol.2. Paris: Gallimard, 1970.

BUTLER, Judith. Bodies That Matters: On the Discursive Limits of Sex. New York: Routledge, 2011.

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império. São Paulo: Record, 2005.

PRECIADO, Beatriz. Pornotopía: Arquitectura y sexualidad an “Playboy” durante la guerra fría. Barcelona: Anagrama, 2010.

__________, Beatriz. Testo Yonqui: Sexo, drogas y biopolítica. Buenos Aires: Paidós, 2014.

FOUCAULT, Michel. Outros Espaços. In: Ditos & Escritos III: Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

HARAWAY, Donna (1997). Modest_Witness@Second_Millennium.FemaleMan©_Meets_ OncoMouse™. London: Routledge, 1997.

 

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