O CUS e a produção do conhecimento

fevereiro 26, 2019 0 Por Leandro Stoffels
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Leandro Colling – coordenador do CUS

 

Em 2007, eu e uma turma de estudantes de graduação em Jornalismo, Produção Cultural, Letras e Ciências Sociais criamos o CUS, grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS), no Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT) da Universidade Federal da Bahia. O objetivo era, e ainda é, produzir pesquisas e atividades de extensão a partir de e com os estudos queer. Pouco tempo depois, passaram a integrar o grupo estudantes do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade (Poscultura). Hoje somos cerca de 25 pessoas, a maioria delas mestrandas ou doutorandas do Poscultura.

 

O Poscultura e o CULT, em 2007, estavam vinculados à Faculdade de Comunicação, mas desde 2009 ambos passaram a pertencer ao Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC), criado para congregar os bacharelados interdisciplinares em Humanidades, Artes, Saúde e Ciência e Tecnologia. Estudantes do IHAC, por isso, também passaram a compor o CUS, assim como o professor Djalma Thürler, que desde o seu ingresso coordena o grupo comigo.

 

Nestes sete anos, o CUS desenvolveu pesquisas importantes, tanto pelos seus coordenadores como pelas demais pessoas que o integram, o que acabou gerando ações para além das esferas estritamente acadêmicas. Esse foi o caso da vaga que eu e Djalma Thürler ocupamos, de 2011 a 2012, no Conselho Nacional LGBT, representando a da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, que na época presidíamos. Hoje, nós dois também integramos o recém-criado Conselho Estadual LGBT. De 2012 a 2013, ocupei uma vaga no Conselho Estadual de Cultura do Estado da Bahia. Além disso, Djalma também integra o Conselho Nacional de Políticas Culturais desde 2012.

 

Em sua curta história, é possível verificar que o CUS tem trabalhado em várias frentes: publicação de dois livros pela editora da Universidade Federal da Bahia (Estudos e políticas do CUS e Stonewall 40+ o que no Brasil?, que estão sendo vendidos aqui pela metade do preço), o lançamento de uma revista acadêmica (a Periódicus, que em breve estará em sua segunda edição), a produção de 11 dissertações de mestrado defendidas na UFBA e fora dela, além de trabalhos de conclusão de curso e dezenas de artigos apresentados em congressos nacionais e internacionais (quase todos podem ser lidos no site www.politicasdocus.com).

 

Além disso, o CUS realizou vários eventos. Em nível local, destaco o ciclo permanente de palestras sobre Subjetividades, Sexualidades e Culturas, que pretendemos retomar no próximo ano. As primeiras quatro palestras, realizadas por pesquisadores reconhecidos pela área no Brasil, foram realizadas no primeiro semestre de 2013. Participaram, a cada palestra, cerca de 80 pessoas.

 

Em nível nacional, o mais importante foi o Stonewall 40 + o que no Brasil? – realizado nos dias 15, 16 e 17 de setembro de 2010, que reuniu pesquisadores e ativistas do Brasil para pensar as políticas LGBT realizadas nos últimos quarenta anos no Brasil. Participaram do evento cerca de 400 pessoas.  Deste evento saiu o livro com o mesmo nome.

 

Em nível internacional, o destaque vai para a ativa participação para a realização do VI Congresso Internacional de Estudos sobre a Diversidade Sexual e de Gênero da ABEH – realizado nos dias 1º, 2 e 3 de agosto de 2012 na Universidade Federal da Bahia. Além da conferência de abertura de Jack Halberstam e de sete mesas redondas, a programação contou com a apresentação de cerca de 430 trabalhos em sessões de comunicação e mesas coordenadas e 12 trabalhos na mostra artística, além do lançamento de 30 livros. 700 pessoas participaram do evento, oriundas de 24 estados brasileiros e de alguns países da América Latina.

 

No próximo ano, de 4 a 7 de setembro, o CUS, em parceria com várias outras instituições e pessoas, promoverá o II Seminário Internacional Desfazendo Gênero, que contará com uma conferência de abertura de Judith Butler. Estamos trabalhando com a possibilidade de termos cerca de mil pessoas neste evento, que terá o tema Ativismos das dissidências sexuais e de gênero.

 

Ainda em relação às nossas atividades de extensão, cabe destacar as duas edições do Curso de introdução à política e estudos queer, realizados na Universidade Federal da Bahia, nos meses de janeiro de 2011 e 2012, nos quais participaram cerca de 100 pessoas, e o constante apoio para a realização do Cineclube sexualidades, realizado em parceria com o CUS desde 2011. A cada 15 dias são apresentados filmes sobre diversidade sexual e de gênero seguidos de debates entre os participantes.

 

Além de estudar as relações entre as culturas e as sexualidades, o CUS também conta com um integrante que produz arte a partir das nossas reflexões e leituras realizadas no interior do grupo. Trata-se do diretor de teatro Djalma Thürler que, nos últimos anos, vem produzindo uma sequencia de peças diretamente influenciadas por suas pesquisas e leituras dos estudos queer, a exemplo de O melhor do homem, Salmo 51, A alma encantadora do beco, Diário de Genet, Solo Almodóvar e Coral, uma etno-cenografia (atualmente em cartaz no Teatro Gamboa).

 

Hoje, as pessoas que integram o CUS estão produzindo sete teses de doutorado e nove dissertações de mestrado. Como eu disse a pouco, outras 11 dissertações de mestrado já foram defendidas.  Parte desta produção, que também conta com quatro trabalhos que foram ou estão sendo realizados por pessoas da graduação, vocês terão a oportunidade de conhecer, debater e criticar hoje e amanhã. Nossa proposta, com esse evento, é divulgar o que temos feito mas fundamentalmente debater com outras pessoas interessadas nesses temas.

 

Além de disponibilizar a nossa produção em nosso site (politicasdocus.com), cinco integrantes do CUS mantém, desde 29 de junho de 2012, o blogCultura e sexualidade, criado no portal Ibahia para tratar de forma simples e acessível ao grande público questões sobre diversidade sexual e de gênero. O blog possui uma média de cinco mil acessos por semana e determinados textos já foram acessados de 80 a 90 mil vezes. O sucesso desta experiência motivou as demais pessoas que integram o CUS a também publicarem textos curtos e acessíveis sobre suas pesquisas no site do grupo. Hoje sabemos que muitos destes textos são utilizados em salas de aula de vários estados para provocar o debate sobre sexualidade e gênero, o que demonstra que devemos produzir mais textos deste tipo, pois há uma grande carência de material com estas características no Brasil.

 

Por estas e outras questões, o CUS tem se consolidado como um dos principais grupos de pesquisa do Brasil no campo das sexualidades e talvez o principal dentro dos estudos queer em nosso país. Mas a produção realizada por nós ainda está longe de me deixar satisfeito. Termino minha breve fala com alguns desafios que rondam o nosso grupo de pesquisa:

 

– contribuir mais para pensar e produzir estudos queer com cores mais brasileiras e/ou latino-americanas. A fase de utilizar apenas os referenciais produzidos nos EUA ou Europa já rendeu os frutos que tinha para render. Agora é preciso reler e acompanhar essa produção de forma mais crítica, produzir o link com outras perspectivas próximas, como os estudos das subalternidades, por exemplo, e pesquisar coisas que sejam mais locais e que nos ensinem sobre as dissidências sexuais e de gênero que já tivemos, que temos ou que podemos ter em nossa América Latina, país, estado ou cidade;

 

– problematizar mais as heterossexualidades, as diversidades e as dissidências nelas existentes. O CUS ainda tem insistido em estudar as dissidências sexuais e de gênero não-heterossexuais, o que é importante e necessário, mas, ao fazer isso, muitas vezes não têm retirado a heterossexualidade de sua “zona de conforto”;

 

– produzir pesquisas que contemplem mais a interseccionalidade das problemáticas, a exemplo das questões relativas às etnias, classes, gerações, escolaridades, capacidades e padrões corporais, territórios e outros marcadores sociais das diferenças;

 

– ousar mais para estranhar a forma de fazer pesquisa e de escrever os nossos textos acadêmicos. Ainda estranhamos pouco as escritas acadêmicas e escrevemos excessivamente para nós mesmos;

 

– por último, nosso maior desafio, ou talvez o meu sonho que, por enquanto, tem sido sonhado junto com poucas pessoas: deixar de ser apenas um grupo de pesquisa para se transformar em um centro de pesquisa com um programa de pós-graduação em cultura e sexualidade. A cada dia, estou mais convencido de que, se quisermos ampliar os estudos sobre sexualidades e gênero na Bahia, precisamos criar um programa de pós-graduação que seja capaz de aglutinar uma série de pessoas que estão trabalhando isoladamente em alguns programas de pós-graduação e para garantir a permanência de nossos futuros doutores e doutoras trabalhando conosco. Um novo programa, em conjunto com os programas de pós-graduação já existentes, poderá tornar a Bahia o mais importante polo de estudos de gênero e sexualidade do país.

 

E termino minha breve fala com uma provocação que faz referência ao ex-candidato à presidência da República que disse que o cu é apenas um órgão excretor que não reproduz. O CUS defende que o cu é ou pode ser um órgão sexual e o nosso CUS produz, reproduz e ainda vai produzir muito mais.

 

Um ótimo encontro para nós e muito obrigado pela presença.

Texto lido na abertura do I Encontro do Grupo de Pesquisa Cultura e Sexualidade (EnCUS), no dia 27 de novembro de 2014, no auditório Katia Mattoso, na Biblioteca dos Barris, Salvador, Bahia.

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