O silêncio e o potencial transgressor do intersexo

fevereiro 26, 2019 0 Por Leandro Stoffels
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Ana Karina Canguçú-Campinho – Psicóloga, Doutora em Saúde Coletiva (ISC/UFBA), Coordenadora do Serviço de Psicologia (IPS/UFBA), membro da equipe multidisciplinar de um centro de referência no atendimento às pessoas intersexuais (HUPES/UFBA) e integrante do CUS

 

Este texto não é sobre as vozes legitimadas, sobre os discursos canônicos, é sobre as vozes marginais e seus silêncios. Sobre os corpos situados enquanto abjetos, excluídos enquanto “pré-moldados”. Corpo-existência em que a legitimação só se torna possível enquanto “pós-moldado”, em uma tentativa de apagar qualquer resquício de ambivalência.  Estou falando aqui das pessoas intersexos, de vivências que logo ao seu nascimento se deparam não com certezas, mas com dúvidas.

É menino ou menina? Esta pergunta tão comum após o nascimento de uma criança pode não encontrar uma resposta imediata quando se trata de uma situação de intersexo.  A resposta não é simples, nem determinada pela aparência.  Ainda que fosse, não define como a criança se identificará no futuro.  A família, sem uma linguagem que dê conta da singularidade expressa pelo corpo do bebê, apoia sua resposta em características físicas da criança que se assemelham, mas não convergem, com o imaginado para o corpo feminino ou masculino.

A intersexualidade revela a complexidade da categoria sexo e envolve anatomias sexuais/reprodutivas congênitas que divergem do esperado socialmente para homens ou mulheres (Canguçú-Campinho, 2012). A sua existência borra as fronteiras que pretendem delimitar os corpos masculinos e os femininos.

O intersexo está situado enquanto existência marginal, localizando-se na periferia das corporeidades possíveis.  Invisível muitas vezes. Subjugado por outros corpos que declaram pertencer a uma hierarquia superior, e deslocam aos “desviantes” ao campo das aberrações e anormalidades. 

Dialogando com o capítulo de Matheus Araújo dos Santos (2013), principalmente com a reflexão que este autor faz sobre o conceito de heterogeneidade proposto por Bataille, compreendi a tentativa de normatização da intersexualidade e sua invisibilização social como uma dinâmica de exclusão dos heterogêneos e manutenção da homogeneidade.

Nesta díade margem-centro, excluído-incluído, figura e fundo[1] o intersexo parece ocupar o lugar de fundo, ficando como figura os corpos que seguem o padrão socialmente estabelecido de masculino e feminino. A relação entre corpos visíveis (figura) e não visíveis (fundo) pode ser mais dinâmica ou menos dinâmica.  Na intersexualidade a potencialidade transformadora da margem, do fundo, tem como desafio inicial a visibilidade do intersexo como uma corporeidade possível.  No entanto a problematização suscitada pela situação de intersexualidade se dá mais pela desestabilização da ordem de opressão dos corpos, do que pela aceitação da diversidade ou homogeneização da diferença.

Ainda concordando com Bataille e Butler, retratadas no texto de Matheus Araújo dos Santos (leia aqui), sobre a possibilidade ou mesmo sobre a potencialidade subversiva do abjeto, questiono onde estaria o potencial transgressor quando o abjeto é o intersexo?

A patologização, construída em torno desta corporeidade, aprisiona as subjetividades às categorias de anormalidade e doença. Classificar o intersexo como uma disfunção, uma anormalidade, desloca o intersexo do campo da transgressão moral, comum aos séculos XVIII e XIX, para o campo das doenças congênitas. Este deslocamento, seguido pela incorporação das novas biotecnologias, legitima a concepção de um corpo naturalmente “mal formado”. O termo má formação congênita é comumente usado no campo da saúde para se referir aos corpos intersexuais.

 A força da medicalização é sentida através do silêncio do abjeto. O silêncio, pactuado inicialmente pelas famílias ou entre estas e os profissionais de saúde, se torna constitutivo da subjetividade da pessoa intersexual.  O dispositivo do silêncio/ segredo é ambivalente, tem sua origem na necessidade de proteger a pessoa intersexual das experiências de exclusão e discriminação, mas reproduz o estigma e a prática do isolamento.

No Brasil, este isolamento, que tem repercussões individuais e coletivas, também se expressa na ausência de organizações ou movimentos sociais voltados às ações de promoção dos desejos e direitos das pessoas intersexuais. Este fato se relaciona à ideia disseminada socialmente de que a experiência intersexual pertence à esfera privada, e nunca à esfera pública.  Constantemente muitos profissionais de saúde reproduzem o discurso – a “anomalia do desenvolvimento sexual”[2] é um problema que deve ser tratado na família, ninguém mais precisa saber!

A capacidade de transgredir é muitas vezes silenciada pela tríade doença-segredo-proteção.  Ouvem-se fragmentos de narrativas que ora mantém a intersexualidade como algo incompreensível e da ordem do segredo, ora revelam indícios sutis de poderosas transgressões. Romper o segredo não é suficiente para transgredir uma ordem histórica que define os corpos im(possíveis).  É uma condição imprescindível e deve estar alinhada aos novos afetos, saberes e poderes que configuram a diversidade humana.  Deve ir além da dissolução do silêncio, ao pretender transpor ao mundo o manifesto pela dignidade de ser.

Referências

Santos, M.A. Abjeto em disputa: dissidências ou não entre Bataille, Kristeva e Butler In: Leandro Colling e Djalma Thürler (org). Estudos e Política do CUS – Grupo de Pesquisa  Cultura e Sexualidade, Salvador: Edufba, 2013.

CANGUÇÚ-CAMPINHO, A.K. A construção dialógica da identidade em pessoas intersexuais: o X e o Y da questão. 2012. 204f. Tese (Doutorado em Saúde Pública)-Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia, Salvador.

 


[1] Termo  fundamentalmente usado por autores da Psicologia da Gestalt (Wertheimer, Koftka e Kohlfer ) e da Gestalt terapia ( Perls,Hefferline, Goodman)

[2] Anomalia do Desenvolvimento Sexual ou Desordem do Desenvolvimento Sexual são termos mais frequentemente usados por profissionais de saúde para se referir ao intersexo.

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