Se eu fosse Verônica

fevereiro 26, 2019 0 Por Leandro Stoffels
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Carla Freitas – mestranda do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e integrante do CUS

Eu não sei o crime que Verônica cometeu. Sinceramente eu não procurei saber. O que eu sei é que não faz a menor diferença diante dos fatos em questão. No último domingo (12), Verônica foi detida, após conflito entre vizinhxs, e na delegacia teve seu cabelo raspado, foi colocada em cárcere masculino e foi espancada. Após reagir à violência mordendo a orelha de um dos policiais que lhe agredia, Verônica foi oferecida à imprensa em condições desumanas, quando mais uma vez foi violentada. (Leia mais aqui, http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2015/04/15/em-defesa-de-veronica-bolina/ ).

O que é importante saber é que, se pudéssemos medir o tamanho do seu crime, e eu, mulher, branca, cis, classe média, tivesse cometido um crime duas vezes maior do dela, com certeza absoluta minha imagem não estaria estampada nos jornais, com quase todo meu corpo à mostra. Sem dúvida, a polícia pelo menos se preocuparia em esconder os meus hematomas, eu sofreria uma série de sanções sociais, além das jurídicas, por ser uma mulher criminosa. Mas provavelmente até marchas feministas estariam na porta da delegacia, mas eu não estaria violentada de forma tão escancarada, com o aval de toda uma sociedade. Disso eu tenho convicção.

Se eu fosse negra, a coisa estava mais complicada pro meu lado. Teríamos, com certeza, enquadramentos midiáticos horríveis, que naturalizariam minha aptidão criminosa de forma a fazer entender que é esperado que uma pessoa negra esteja ligada ao crime. Provavelmente meus advogados seriam menos interessados em mim, a polícia me trataria com o desdém racista, e eu teria muitos direitos infringidos. Mas, ainda assim, meu corpo não seria exposto nu, deformado por pancadas dessas policias. Caso, por algum ‘descuido’, acontecesse, os direitos humanos podiam até acionados.

Mas, para um corpo completamente abjeto, com o menor valor do mercado, a quem se aciona?

Verônica é travesti e negra. Quem é o Deus protetor dessas mulheres? Qual tipo de polícia é especializada para tratar com ela? Que tipo de assistência básica lhes é garantida? Que tipo de justiça lhe é ofertada? Que Direitos Humanos funcionariam a quem é cotidianamente desumanizada?

Se eu fosse a Verônica, porém cis e branca, e tivesse tirado um pedaço da orelha de um PM, para a metade a população eu seria uma louca a ser medicalizada, para outra metade eu seria até uma feminista resistente que chegou no seu limite para garantir sua sobrevivência.

Mas Verônica, é negra e travesti, e a sociedade, hegemonicamente, a lê como um monstro cometendo monstruosidades. A quem interessa?

Se importariam se eu, cis e branca, morresse na delegacia? Se eu aparecesse morta, quantos “menos um” seria dito sobre mim? Quantos acreditariam no que de fato aconteceu lá dentro? Verônica está presa, humilhada, torturada, completamente desamparada, e provavelmente deve estar lutando pela própria vida dentro da cadeia. Porque, desde os homens presos junto com ela, até os carcereiros, delegados, juízes, pouco se importam com a forma como se deu a prisão, a construção midiática em torno disso e sua repercussão.  Pelo contrário, esse é o corpo que pode e deve ser invadido, esse é o cabelo que deve ser arrancado, a unha que deve ser quebrada uma a uma, o batom que deve ser arrancado da boca debaixo de porrada, o seio que não merece poesia, o direito que deve ser negligenciado.

É didático, e muito doloroso, ler os comentários das reportagens cisexistas e transfóbicas, e compreender por quais mortes choramos, como sugere Butler: é verdade que todas as vidas deveriam importar, se a construção fosse essa, se as normatividades de gênero, sexualidade e raça não colocassem travestis no lugar máximo de abjeção e repulsa social. Mas não é, e sabemos que há uma potente escala de inteligibilidade que acessa nosso choro e sensibilidade, e é essa construção que nos deve interessar.

Talvez, ao desconstruir da hierarquização de inteligibilidade humana, as pessoas parem deslegitimar as identidades de gênero dissidentes e travestis deixem de ser apedrejadas, humilhadas, torturadas pela cultura fascista naturalizada. Talvez aí nos soe absurdo a cena de uma pessoa com as condições que Verônica foi apresentada pela polícia. E para a mídia a orelha do policial deixe de ser o que importa e escandaliza, e o caso passe a ser visto como um ato desesperado de revolta e sobrevivência de uma mulher sistematicamente violentada. E talvez aí as lágrimas pelas travestis comecem a rolar, o pronome feminino passe a ser respeitado, e seus direitos humanos básicos sejam garantidos.

Eu sou Verônicas, todos os dias. Pelo fim das brutalidades contra essas mulheres. 

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