Violentadxs, violentamos!

fevereiro 26, 2019 0 Por Leandro Stoffels
Please follow and like us:
RSS
Follow by Email
Facebook
Google+
http://politicasdocus.com/2019/02/26/violentadxs-violentamos/
Twitter

Ramon Fontes – mestrando do Programa Multidisciplinar em Cultura e Sociedade e integrante do CuS

Nesses derradeiros meses de minha pesquisa no mestrado (estou há oito meses da defesa da dissertação) fiz revoluções nunca desejadas para umx estudante de pós-graduação: modifiquei totalmente meu foco na pesquisa, recusei seguir com instrumentos e ferramentas normativas, herdeiras de uma essencialização do método cartesiano, lancei um novo olhar sobre aquilo que nas ciências seria entendido como “objeto de pesquisa”. Há tempos desconfiava que algo não ia bem no meu caminho de pesquisador!

Em uma das aulas do componente Estudos das Subjetividades, do qual participo cumprindo as etapas do tirocínio docente, com meu orientador, a ficha caiu… Apesar das mudanças na pesquisa terem acontecido antes do componente, digo que a ficha caiu, justamente porque percebi que um grande tema rondava minhas inquietações. Um tema que sempre me acompanhou, mas que não estava verdadeiramente claro para minhas lentes. Um tema que me moldou ao longo dos anos e que sempre se escondeu atrás de argumentos místicos e ou do plano superior de alguma entidade de fé. Um tema que fala por si, fala dxs outrxs, mas nunca se completa em uma explicação minimamente inteligível: a violência.

Refletir sobre violência nos coloca em caminhos múltiplos, isto é, de onde enxergar a violência? Do lugar da Casa Grande? Da senzala? Do tronco? Das atividades nas plantações? Das atividades dentro da Casa? A metáfora da escravidão é apenas um gancho que uso para sugerir o quão fugidio é o tema da violência. Sem me alongar muito, até porque não é o objetivo do texto, afirmo que falo, na nova configuração de minha pesquisa, de um lugar de violência que, apesar das possíveis críticas que possam interrogar o meu texto, é o lugar da violência sobre e a partir das nossas subjetividades.

Refletir sobre os aparatos sociais que nos engolem em discursos unitários e totalizadores, formados por relações de poder cisheteronormada, é um desafio constante para esse indivíduo em todos os momentos que se vê na frente da tela do notebook tentando continuar a escrita: pensar a minha experiência de abuso sexual na infância sem fazer disso uma historinha triste de compaixão, vitimização ou piedade é o que me instiga parágrafo após parágrafo. Demonstrar as lacunas das narrativas de subjetividade e denunciar como esse poder cisheteronormado nos silencia cotidianamente é o que me move! Travar uma batalha constante contra o olhar culpado da tríade familiar é o que me arrepia, é o que me dá ânimo para seguir me expondo.

No fim das contas, pensando a partir das técnicas de si sugeridas por Foucault, escrevo para violentar à violência. Violento-a com poesia, violento-a com minha história, violento-a com a minha arte, de forma que o meu pequeno escrito, nesses dois anos dissertativos, sirvam para desmascará-la, sirvam para tocar indivíduos e motivá-los a violentá-la, também. A minha ideia de violência em nada coaduna com o conceito que está posto em nosso cotidiano, mas com absoluta certeza (pelo menos para mim), essa violência me produz!

E, aproveitando a metáfora poética, e desconstruindo (com muita coragem) a intenção inicial da fóbica canção francesa La Marseillaise eu canto:

“Allons enfants de la Patrie

Le jour de gloire est arrivé!

Contre nous de la tyrannie

L’étendard sanglant est levé

Entendez-vous dans les campagnes

Mugir ces féroces soldats?

Ils viennent jusque dans vos bras

Égorger nos fils, nos compagnes!”

 

NÃO PASSARÃO, MAIS!

Please follow and like us:
RSS
Follow by Email
Facebook
Google+
http://politicasdocus.com/2019/02/26/violentadxs-violentamos/
Twitter