Políticas do CUS

Do banherón para as ruas ou o encaretamento do movimento gay brasileiro

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Este texto vai em homenagem a meu amigo Franco, também conhecido como “Muriel”

Na semana em que sairemos às ruas para celebrar o orgulho gay, na tentativa de transformar a vergonha em prazer, o estigma em alegria, acredito que valeria a pena pensar um pouco a respeito dos lugares de pegação, ou em bom pajubá, nos locais de aquendação, esses espaços por vezes perigosos e quase sempre insalubres. Proponho neste texto uma reflexão sobre a relação entre o orgulho gay, quase sempre associado a um higienismo burguês, e os lugares de pegação, provocando o/a leitor/a acerca do potencial político de tais espaços.

Fui provocado a escrever sobre esse tema por dois motivos: o primeiro, que já citei, foi por conta da Semana da Diversidade em Salvador, que rola até domingo, quando ocorre a Parada Gay, e, o segundo, pela leitura do livro Fiestas, Baños y Exilios – los gays porteños en la última dictadura, dos argentinos Flavio Rapisardi e Alejandro Modarelli.

Os autores deste livro, logo no primeiro capítulo, em que discutem “las teteras”, que no pajubá argentino, pra precariamente nomearmos o repertório marica de nuestras hermanas, significa os banheiros públicos nos quais as beeshas vão caçar, apontam para um movimento de privatização dos espaços do sexo nas cidades contemporâneas, trágico momento, no entender dos autores, que se situa por volta da cinza década de 1980 (as e os leitores deverão lembrar quão fatídico foi esse período para os gays em todo o mundo).

Segundo eles não é tanto pela explosão do vírus HIV no Ocidente mas mais pelo crescimento de um conservadorismo burguês travestido de gay, que aqueles locais, a exemplo dos banheiros públicos em que ocorriam encontros sexuais e afetivos entre homens, perdem a força cedendo espaço, não sem resistências, às saunas,darkroom, cinemão e aqueles tantos outros lugares em que é possível encontrar sexo imediato, evidentemente que sob os auspícios do acué.

Esses locais, sabendo da atmosfera de perigo e insalubridade que compunham os cenários dos tradicionais lugares de aquendação, tentam a todo o custo reproduzir esses elementos em seus ambientes: pouca iluminação, cheiro por vezes não muito agradável etc. Mas apenas como fetiche, como simulação do antigo babado, que era forte!, superado agora pelo tom chique do “roteiro gay”.

Mas eu havia dito que eram dois os motivos que me haviam levado a refletir sobre os espaços de aquendação. Retifico-me, agora, e acrescento mais um: foi no banherón que eu fiz muitos amigos e onde também tomei consciência de minha sexualidade. Não que tenha me “descoberto” – como gostam de dizer alguns, como se tivéssemos algo escondido no “no fundo no fundo no fundo” (três vezes, respira!) –  por lá, mas sim que foi nesse ambiente, naquele momento de minha vida o único lugar em que eu podia desejar e ser desejado, que aprendi fantásticos códigos de socialidade, sentindo-me pertencente a algo que, apenas com o tempo, passei a entender. “O quê, beeshha?”, perguntaria uma amigue, e outra talvez respondesse: “uma linda piranha de banheiro!”.

Brincadeiras à parte, mas nem tanto!, os espaços públicos de aquendação, sejam eles o banherón ou os parques e praças dos grandes aglomerados urbanos, têm perdido força nos últimos anos, na minha leitura devido a um “encaretamento do movimento”, como costuma dizer Leandro Colling, que abandona, por nojinho burguês, o ímpeto beesha expresso tanto nas pegações nesses locais públicos quanto em um ativismo de rua, bem diferente daquele praticado pelas engravatadas guei que (supostamente) nos representam no Conselho Nacional LGBT.

Parques de todo o mundo: locais de pegação e sociabilidade. Imagem: 'Autorama', no Parque do Ibirapuera-SP/Brasil.

Exemplo desse encaretamento é a decisão da Prefeitura de São Paulo que decidiu pelo fechamento do autorama do Parque Ibirapuera da meia-noite às 5 da manhã, segundo informa o site Uol. Espaço conhecido por ser um local de socialização guei, o autorama já foi alvo de tentativas, antes frustradas, de fechamento, mas que ocorre agora sob pressão dos poderosos moradores das mansões e prédios dos arredores.

Grande parte do movimento homossexual brasileiro quer receber, e não conquistar, sua autonomia pela via do capital e por meio de um discurso à base de “clorofina” (é como chamo a água sanitária) ideológica, que nos quer limpos, a nós, viados, travas, sapatões e o escambau da “sopa de letrinhas”, como propõe Regina Facchini, e nos transformar em… em… em quê, mesmo? Em ilustres cidadãos heterossexuais que fazem sexo com homens! Eis o monstro, muito prazer! “Crêa”, diriam umas outras tantas guei que conheço.

Os espaços públicos de aquendação, mesmo que perigosos em potencial – agora não são tanto mais os guardas que incomodam as beeshas, mas sim a Elza que grita, e algumas vezes mata nesses lugares –, colocam em cena o prazer em toda a sua potência, tensionando os lugares de fexativas e “discretas” e subjetivando a partir do sexo e da amizade. Sim, amizade. Os lugares de pegação, sejam eles o banherón ou as praças e parques, também produzem amizades e novas socialidades, ou como gosto de dizer, novas parentalidades. Se tivesse tempo contaria de uma travesti, guerreira e linda como ela só, que governava as árvores, taquaras e moitas do Parque da Redenção em Porto Alegre. Mas me falta espaço e já quero encerrar.

Na semana em que as guei de Salvador sairão de seus armários e cristaleiras para comemorarem o orgulho de serem gays, que compram em lojas-escândalo (assim mesmo, com hífen!) e que já estão com a data do casamento marcado, sugiro que elas também celebrem o orgulho beesha, goby, scania, trans, das mariconas e de toda a miríade de seres abjetos, que sempre é grande – diferentemente do que nos fazem crer, contando-nos o conto de que somos todxs limpinhxs e europeiamente educadxs!

Vá para a rua, se jogue bunita e ahaze no visu. Nada de caretices. Façamos das ruas, pelo menos nesse domingo, um grande lugar público de aquendação! Feliz Semana da Diversidade Beesha!

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Ler 14156 vezes Última modificação em Quarta, 11 Setembro 2013 13:21
Carlos Henrique Lucas Lima

Gaúcho de Porto Alegre, Carlos Henrique Lucas Lima é professor de língua portuguesa e literatura, com experiência na área de ensino de crítica cultural e literatura comparada; fez mestrado na área de História da Literatura e, atualmente, depois de uma viagem a Salvador por ocasião de um evento sobre negritude e homossexualidade, decidiu ficar na Bahia de Todxs xs santxs e fazer o seu doutorado em Cultura e Sociedade com xs professorxs Djalma Thürler e Leandro Colling. Está adorando a Bahia e não pretende mais voltar para o RS!

Website.: ibahia.com/a/blogs/sexualidade/

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