Políticas do CUS

Da-me o sentido metropolitano que te darei o sentido (pós)colonial?

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O escritor-ensaista Silviano Santiago O escritor-ensaista Silviano Santiago

O título deste texto é uma referência a um outro texto, de Silviano Santiago, "O homossexual astucioso: primeiras – e necessariamente apressadas – anotações", no qual o romancista-ensaista busca refletir sobre a especificade do discurso latino-americano e de que maneiras nosso discurso poderia aportar algo de novidade no cenário internacional e/ou cosmopolita. O ensaio é resultado de uma conferência que Santiago proferiu em uma universidade estadunidense e, portanto, é, já, uma enunciação que se chancela por meio do olhar da metrópole.

Santiago, questionado sobre a especificidade do discurso latino-americano, a partir da provocação que lhe foi feita por conta da conferência, afirma que, em se querendo saber o sentido da teoria e da crítica latino-americanas, seria preciso, primeiro, buscá-lo no interior dos discursos produzidos nos – ou desde – os países centrais. Mais como provocação, mas com todo o peso da ironia, Santiago quer chamar a atenção para ação ora doadora ora mediadora de sentidos operada pelos discursos dos países outrora metrópoles.

Quero pensar, por conta da leitura do texto de Pedro Paulo Gomes, "O queer nos trópicos" (leia este texto aqui), sobre como a reflexão de Pereira guarda uma estreita relação com as inquietações críticas e teóricas de Santiago na referida conferência, uma vez que Pereira igualmente se questiona se podemos, nós, latino-americanos, ou aqueles que vivem em um lugar que ele nomeia "trópicos", enunciar teoria e, com isso, passar de receptores para produtores de conhecimento, de teoria.

Preocupação similar, como disse, demonstra Santiago ao se questionar acerca do que seria a especificidade brasileira no cenário dos estudos sobre gays e lésbicas. Ele faz as suas proposições durante essa conferência, mas o que mais me interessa para fins deste texto é assinalar o que Santiago chama de diferença latino-americana frente ao modelo europeu. E seria exatamente aí que a especificidade residiria: na diferença, no caráter, digamos assim, diferido da produção cultural e teórica latino-americana em relação à produção europeia.

Entendo que ele chama mais a atenção não para o quão próximo do modelo teríamos cheggado, mas, ao contrário, o quanto nos afastamos, provocando, com isso, uma distensão no valor, antes apenas europeu – e este entendido como doador de sentidos, e agora válido por conta da própria capacidade de diferimento, de provocador de sentidos diversos e anômalos. Não que o modelo europeu passe, como que por um "passe de mágica", a deixar de ter valor; o que ocorre é uma valoração da própria mudança, da "diferença pura", a diferença que não cessa de se produzir, proliferar.

E com esse ponto quero abordar algumas questões trazidas por Pereira, quem discorre sobre, me parece, uma passagem de um ponto de vista colonial para um outro, digamos, pós-colonial. E pós-colonial em um sentido que aquelas regiões do planeta, antes colônias, passem a exercer posições de sujeito, quer dizer, sejam capazes de enunciar conhecimentos (válidos). Ao mostrar as limitações das teoriazações de Foucault em História da Sexualidade, com a afirmação de que a noção de biopoder desprezaria as particularidades de locais não ocidentais ou não pertencentes ao "Norte global", bem como a partir do ataque às proposições de Beatriz Preciado que teria totalizado sua teoria e generalizado as distintas experiências de sexualidade, Pereira aponta para a necessidade de nos pensarmos a partir de ferramentas construídas desde nossa perspectiva e que não aceitaria, de maneira passiva, o que do Norte nos é enviado como válido e útil.

Para tentar pensar uma contribuição "dos trópicos", e uso em aspas por conta de certo incômodo que tenho com essa expressão, o que não invalida os questionamentos de Pereira em minha opinião, o autor comenta o que parece ser uma constante atual de as travestis brasileiras recorrerem às religiões de matriz africana, sobretudo à Quimbanda, para justificarem seus gêneros e sexualidades. Para ele, as travestis, ao "trabalharem seus corpos no batuque", conforme informa uma de suas entrevistadas, a travesti Cida, se construiriam não apenas por intermédio de discursos, gestos, atos corporais (perspectiva foucaultiana e butleriana) ou por biotecnologias, medicamentos, próteses (perspectiva de Preciado), mas também por conta de suas religiões, sofisticadas elaborações teórico-práticas a partir das quais narram e constroem a si mesmas. Dessa maneira, Pereira, como que na esteira, embora não cite, de Santiago na conferência que referi mais acima, sugere, a partir de leituras de especificidades brasileiras, contribuições para o cenário global da produções de estudos na área tanto de teoria queer, de modo específico, quanto de estudos sobre/de/para gueis e lésbicas.

A provocação dos autores é boa, e está aí para que continuemos refletindo sobre. Vale frisar, e por isso que recuperei Santiago, que a reflexão de Pereira não é nova, já estando naqueloe autor, e que esse parece ser o desafio de diversos intelectuais sobretudo na América Latina, onde há países em que a língua inglesa não é "materna". Creio que a situação do Brasil, diferentemente dos outros países latino-americanos, é mais complexa desde esse ponto de vista linguístico, uma vez que o português não possui o nível de penetrabilidade da qual goza o espanhol no mundo.

Pensando em minha pesquisa de doutorado de maneira específica, que enxerga uma potência política no pajubá, poderia afirmar que esse repertório vocabular, que aí não se esgota, mas aponta para uma produção de subjetividades outras, visíveis nas fexativas, por exemplo, é, também, uma forma de enunciação de saber, e não, como corriqueiramente se faz sobretudo nas áreas de antropologia e sociologia (mas não só), um "objeto de estudo" ao qual se recorre para analisar e aplicar uma teoria.

Fico por aqui, salientando que a passagem de uma condição colonial para uma outra, como disse, em que sejamos sujeitos de conhecimento, não se dará nem pela via de um beligerismo irracional que facilmente identifica culpados nem por uma simples inversão dos modelos de conhecimento. Creio que somente superaremos nossa condição de subalternidade, em todos os sentidos, se conseguirmos situar as teorias com as quais trabalhamos em seus devidos lugares de emergência, lendo com cuidado as condições sociais nas quais foi possível seu aparecimento.

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Ler 17564 vezes Última modificação em Quinta, 19 Setembro 2013 14:16
Carlos Henrique Lucas Lima

Gaúcho de Porto Alegre, Carlos Henrique Lucas Lima é professor de língua portuguesa e literatura, com experiência na área de ensino de crítica cultural e literatura comparada; fez mestrado na área de História da Literatura e, atualmente, depois de uma viagem a Salvador por ocasião de um evento sobre negritude e homossexualidade, decidiu ficar na Bahia de Todxs xs santxs e fazer o seu doutorado em Cultura e Sociedade com xs professorxs Djalma Thürler e Leandro Colling. Está adorando a Bahia e não pretende mais voltar para o RS!

Website.: ibahia.com/a/blogs/sexualidade/

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