Políticas do CUS

Todo protesto é um ato de violência

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Venho discutindo, com muito entusiasmo, com meus estudantes da graduação na UFBA sobre a potência política dos vários protestos que tomaram conta de nosso país na metade do ano passado. Esses protestos, chamados por alguns de “jornadas de junho”, não se restringiram, como todos sabemos, aos “vinte centavos” do valor do transporte público, mas, antes, tocaram em uma miríade de temas que, senão mortos, estavam muito bem adormecidos entre nós: maiores investimentos em saúde, em segurança pública, em educação etc. No entanto, e tendo em vista que esses temas, muito embora relevantes, carecem de especificidade – já que genéricos, as jornadas de junho colocaram em questão o próprio Estado democrático de direito, esse imponente monumento histórico, gestado na modernidade, sob o qual nos abrigamos.


Quero aqui neste texto comentar esse último ponto, chamando a atenção para, como disse, a potência política que reside em apontar a falência do Estado e de suas insituições como instâncias de mediação dos conflitos sociais. Lacan já dizia que a ausência da figura do pai como elemento que opera a mediação dos conflitos entre irmãos – já que estamos em uma sociedade “fraterna”, conforme reza o ideário do Iluminismo – é uma das principais causas das angústias atuais.

Não se trata aqui de apostar em um discurso arcaico, que de tão velho já cheira mal, do estado centralizador, mas sim de indicar a ineficiência das instituições do Estado, tais como a polícia – seu braço armado – e a justiça, na gestão e na resolução dos conflitos. Os protestos de junho, e que continuaram nos meses seguintes – e que agora retornam à medida que a Copa se aproxima, são o indicativo de que nossa democracia e nossas instituições sociais chegaram a um limite: já não são nem democráticas nem mediadoras de conflitos, servem, apenas, e aqui invoco um dos espíritos dos protestos, para satisfazer e defender os interesses das grandes empresas e de seu capital transnacional.  

Mas de todo esse diagnóstico que faço neste texto, quero chamar a atenção para um dos chavões mais utilizados pelos meios de comunicação ao se referir às jornadas de junho: “protesto pacífico”. Ora, o que é um protesto pacífico? Qual é o corpo que se violenta e que reclama o direito de ser nomeado? É o corpo falido das instituições e do Estado, e não outro, que, senão serve aos interesses vorazes do grande capital transnacional – aquele que desrespeita os territórios e enfraquece o Estado – flerta amorosamente com ele de há muito. O corpo violentado, antes de tudo, é o corpo da cidadania, um corpo que não importa e não provoca a atenção das instituições do Estado. É este corpo, cuja cidadania é precária, capenga, é que geme com a violência impressa pelo Estado. 

Chamar, portanto, um protesto de pacífico e torná-lo digno da apreciação da “opinião pública” - esse espectro forjado pelos capitães da indústria de realidades midiáticas – apenas se nele não ocorrerem “badernas & depredações” é zombar do real sentido das jornadas, é não compreeder que todo protesto carrega, em si, violência: seja essa violência simbólica seja efetivamente material.  

Milton Santos já indicava que há uma ética, a dos “desesperados”, que lança mão da violência como última alternativa para alterar o estado das coisas. É uma ética que compreende seu choque de interesses com a daqueles que “tudo têm”, e que, por isso, após repetidas vezes clamar pela mediação do Estado e de suas instituições, recorre à violência simbólica dos protestos e das manifestações públicas com vistas a fazer tremer as estruturas sociais opressoras e excludentes. Vale lembrar: o intelectual baiano insiste, ao apostar nessa ética dos desesperados como elemento de transformação social, que a violência empregada nunca será gratuita, antes política e produto de uma impossibilidade de diálogo com o Estado e suas instituições. 

Todo protesto, portanto, é um ato de violência. Não há protestos “pacíficos”, comportados e burgueses. Os protestos são violências no campo dos sentidos – no campo da epistemologia, e não poderiam ser de outro jeito.

 

Salvador, 30 de abril de 2014.

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Ler 8299 vezes Última modificação em Quinta, 01 Maio 2014 02:50
Carlos Henrique Lucas Lima

Gaúcho de Porto Alegre, Carlos Henrique Lucas Lima é professor de língua portuguesa e literatura, com experiência na área de ensino de crítica cultural e literatura comparada; fez mestrado na área de História da Literatura e, atualmente, depois de uma viagem a Salvador por ocasião de um evento sobre negritude e homossexualidade, decidiu ficar na Bahia de Todxs xs santxs e fazer o seu doutorado em Cultura e Sociedade com xs professorxs Djalma Thürler e Leandro Colling. Está adorando a Bahia e não pretende mais voltar para o RS!

Website.: ibahia.com/a/blogs/sexualidade/

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