Políticas do CUS

O "perigo" da extensão que alimenta monstros Destaque

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Prof. Dr. Carlos Henrique Lucas Lima

[Texto lido durante o XLVII Forproext – NE, ocorrido em 18 de agosto de 2016, na Universidade Federal do Oeste da Bahia, Câmpus Barreiras]

 

A extensão universitária, tal qual a conhecemos até o presente, está com os dias contados. Por um lado, as políticas de “austeridade”, para não dizer arrocho, corte e desmantelamento da Universidade como bem público, com a ascensão, e ao que tudo indica, confirmação de Michel Temer na Presidência da República, ameaçam a Universidade. Por outro lado, o velho modelo “nós/eles”, “pesquisador/objeto”, que (ainda!) orienta o ensino, a pesquisa e a extensão falhou em sua tarefa de se aproximar à sociedade e a suas demandas.

Nesta breve Apresentação, por conta do limitado tempo, quero comentar rapidamente a primeira razão de a extensão estar com os “dias contados”, conforme menciono anteriormente. Logo em seguida, e mais detidamente, vou me dedicar a não apenas tecer uma crítica ao velho modelo de extensão, assente na hierarquia que imobiliza as ações da Universidade, como ainda propor, com a ajuda e Boaventura de Sousa Santos e ideias baseadas nos Estudos Queer, a fundação de uma extensão outra, preocupada não com uma “missão”, com uma “carta de princípios” prévios, como se fôssemos evangelizadores do século XXI, mas sim baseada na pesquisa-ação, na ecologia de saberes e, por fim, em uma metodologia-teoria baseada na “alimentação de monstros”.

Tenho plena consciência de que os recursos destinados para os serviços de natureza pública, sobretudo em um país de passado colonial, são parcos. Não que recursos não existam. Que tenhamos escassez de dinheiro. Muito pelo contrário: nosso país dispõe de inúmeras fontes de geração de riquezas, diversificadas e volumosas. O que ocorre no Brasil, e notadamente nas Regiões mais pobres deste país continental, é um movimento de desinvestimento nos setores de interesse geral da população, como saúde, segurança pública e educação. Na seara da educação, desde antes do fim do começo da Nova República, que parece, de fato, findar com o anúncio fatídico do Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowiski, que anunciará a cassação definitiva do mandato da Presidenta Dilma Roussef, a Escola Pública, e para os propósitos desta Apresentação, a Universidade Pública Federal, já vinha sofrendo inúmeras reduções em seu orçamento e cortes ou anúncios de cortes de relevantes programas, a exemplo do Pibid e do PET. Movimentos nacionais de professores e estudantes foram às pressas organizados visando a frear a sanha por desmonte do governo federal, e, mais uma vez vale dizer, sob a batuta da Presidenta, agora Afastada e quase catapultada, Dilma Roussef.

E como se tudo isso não bastasse, houve diversos enfrentamentos com a categoria docente ao longo dos dois mandatos dos Presidentes Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Roussef. O último, ano passado, não trouxe ganho algum para a categoria, ao contrário: expôs toda a sua fraqueza, além de evidenciar a subserviência dos governos petistas, ditos progressistas, aos interesses do capital financeiro, em especial às faculdades e centros universitários que dependem quase que exclusivamente das subvenções, pra não dizer financiamento direto, para manterem as portas de suas empresas educacionais abertas, e que, é preciso dizer, anelam, ardentemente, pelo desmonte e consequente fim da Universidade como bem público.

A extensão universitária, nesse cenário, foi por diversas vezes golpeada de morte. E isso tanto pelos fatores que já mencionei, como, ainda, por não ter entrado na lógica gerencial na qual instituições educacionais, mesmo públicas, ingressaram afoitas. Refiro-me à transformação da extensão em uma mera prestação de serviços, e evidentemente que pagos, à comunidade “externa”. Cursos disso, cursos daquilo. E haja inscrições. Não estou aqui defendendo que a Universidade Pública não deva, se assim compreender em suas instâncias decisórias, cobrar taxas de inscrição e até mesmo mensalidade por cursos extracurriculares. Penso que esse tema poderia ocupar um outro texto. Por ora, vale dizer que, dado o atual cenário de arrocho e de claro desmonte da Universidade como bem público, financiar atividades de extensão é preciso. E quem pode pagar deve, sim, fazê-lo. O que condeno é a transformação da extensão em uma empresa. Isso, sim, em minha perspectiva, é condenável e gravemente distorce a função social da Universidade. Existem relatos de professorxs de instituições públicas que, em vez de se dedicarem com igual motivação ao tripé ensino-pesquisa-extensão, “viciaram-se” no ofertamento de “cursos livres” pagos como forma de engrossarem seus mirrados e anêmicos salários. O problema disso tudo, é que, ao fim, a extensão, que deveria ser uma forma de retornar à comunidade o conhecimento e as tecnologias produzidas pela Universidade – e com recursos da própria comunidade!, termina por se metamorfosear em uma empresa de cursinhos no interior das universidades públicas. Uma forma de expedir certificados avalizados por (geralmente) boas e/ou boníssimas instituições a uma clientela cada dia mais ávida por serviços educacionais. É, por fim, uma lógica gerencial, empresarial.

 Minha experiência com extensão universitária, quando estudante de graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), salvo raríssimas exceções, esteve assentada na ideia de que eu, o estudante e por conseguinte representante da ilustre e nobre UFRGS, iria “salvar”, com os saberes e técnicas que eu supostamente detinha, as comunidades com as quais trabalhava. Sei que esse tipo de compreensão ainda assenta a prática de muitíssimos gestores públicos da área de extensão. Vivem do ofertamento de cursos, dormindo tranquilos à noite por entenderem que levaram o conhecimento àqueles e aquelas que não o tinham. Pra quem assim pensa, aí vai uma verdade: conhecimento não se leva, conhecimento se constrói no diálogo ativo com o outro. É dialógico. Apenas quando certezas são postas sob escrutínio, e isso os Estudos Queer nos ensinam, é que o conhecimento pode emergir. Algumas pessoas, diante de tudo isso, poderiam dizer, no entanto, “ah, mas se nós, a Universidade, não possuímos nada para oferecer à comunidade, qual é, então, o nosso papel?”. Ora, ora, temos, sim, algo a oferecer às comunidades: as ferramentas necessárias para a resolução de inúmeros problemas, sejam eles de natureza do campo das Humanidades sejam eles dos campos das ciências biológicas, exatas ou, pasmem, até mesmo de natureza interdisciplinar (sim, o mundo é complexo e exige um saber igualmente complexo). Nós temos as ferramentas e a experiência. E esse é, se assim desejarem, o papel da extensão: ofertar ferramentas e não respostas prontas.

Então, penso que se o Governo que aí está e que, confortavelmente, já se instala na cadeira da Presidência da República, pelo menos pelos próximos dois anos, não desmontar, por completo, as instituições públicas, e na esteira a extensão universitária, a insistência nos velhos modelos e fórmulas o farão. Estejamos disso certos.

Foi a partir dessas reflexões que, desde que tomei posse como professor Assistente nesta Universidade, comecei a refletir sobre como poderia promover uma extensão que rejeitasse os modelos que acreditava obsoletos e equivocados. Boaventura de Sousa Santos, com sua proposição teórica na pesquisa-ação e na ecologia de saberes, os quais consistem na negação de um a priori no fazer da academia, e com minhas leituras dos Estudos Queer, que passei a formular minhas propostas de extensão. A primeira, que rapidamente quero aqui mencionar, foi a proposição de um curso de formação teórico-ativista em “Cultura, Gênero e Sexualidade”, com vistas a formar estudantes, profissionais da saúde e gestores interessadxs em se preparar para a convivência com a diferença, que ainda assombra o sono de muitos fascistas. O Curso, que contou com professores universitários, e registre-se não desta instituição, psicólogos, membros de movimentos sociais e estudantes, forneceu a base para que, logo em seguida, pensássemos na formulação de um grande programa de extensão que tivesse por propósito a abertura da Universidade à diferença. Mas não uma abertura assimilacionista, integratória, que nega a diferença do outro em prol do bem maior da homogeneização, necessária, na visão de algumas pessoas, para o funcionamento de sistemas sociais. Mas o contrário: uma abertura que se deixasse mudar pelo contato com a diferença, uma abertura que negue o “cada um no seu quadrado” e que apostasse em uma formação pela alteridade, pelo outrx que não é o meu oposto impossível, mas o outro que me constitui pela diferença. Quer dizer: eu sou aquilo que você não é. E você é aquilo que eu não sou. E nesse movimento, eu termino por ser, também, você, pelo menos na virtualidade da diferença. E nesse processo, eu sou o diferimento mesmo, uma impossibilidade ontológica de existir sem a existência do outro.

Nasceu, então, após a experiência do Curso em “Cultura, Gênero e Sexualidade”, mesmo que o desejo e parte do projeto do grande programa de extensão já estivessem em gestação, o Programa de Extensão MEC-PROEXT 2016-2017 “Re(ex)sistência LGBT”.

O Re(ex)sistência pensa a extensão com e a partir das comunidades LGBT, público-primário do Programa. E isso não apenas no sentido de uma escuta ativa dos movimentos sociais, ativistas, da pesquisa minuciosa da história e da memória do movimento LGBT no Oeste da Bahia. Fazer isso seria fazer o óbvio, o mínimo que um pesquisador profundamente comprometido com seus imperativos intelectuais tem de fazer. Fui além: imaginei um programa que não pensasse em pesquisadores, os ditos “extensionistas”, por um lado, e “objetos”, por outro, ou seja: as pessoas-alvo das ações, mas sim em pesquisadores-objeto, quer dizer, em os próprios membros do Programa, bolsistas-pesquisadores-extensionistas serem pessoas de gênero e sexualidade dissidentes. O Programa, assim, escaparia, pelo menos em parte, de um cariz assistencialista, e apostaria em outro paradigma, qual seja: o do tão falado empoderamento das minorias. E aqui vai uma segunda conclusão, uma segunda verdade, se assim desejarem: empoderar não significa “dar voz” a ninguém, significa, por outro lado, criar as condições para que as minorias possam falar por si, é sair de uma política da representação para uma da apresentação.

São, portanto, lésbicas, beeshas, bissexuais e outras identidades dissidentes que compõem o Programa. Não apenas como “objetos”, mas, e sobretudo, como protagonistas. O primeiro grande desafio do Re(ex)sistência, cujo nome faz referência a uma resistência aos regimes de normalização dos gêneros e das sexualidades e de existência, ou seja, uma ética existencial que guarda relação direta com um existir para além, é asseverar que vidas LGBT têm valor. Isso não é, de forma alguma, algo menor, de somenos importância. As vidas de LGBTs, ou se preferirem, daquelas pessoas que se distanciam em alguma medida dos regimes de normalização da vida – a heteronormatividade, a branquitude, a cisnormatividade, entre outros, ao serem sistematicamente violadas em suas dignidades e, no extremo, serem vítimas de cruentos assassinatos, demonstram que suas existências, infelizmente, como afirma Judith Butler, não são “lamentáveis”. Vidas pelas quais ninguém chorará. Alguém aqui lembra do estudante de Comunicação da UFBA Itamar Ferreira Souza, brutalmente assassinado em 2013, na Praça do Campo Grande? Que, até na morte, teve sua dignidade violada ao ter sua bermuda abaixada até os joelhos pelos assassinos como forma de marcar sua sexualidade dissidente? Como forma de justificar seu extermínio? Ou de Sabrina Souza Sales, cujo corpo foi encontrado, na cidade de Luis Eduardo Magalhães, com graves sinais de espancamento? Empoderar as vidas LGBT significa, então, antes de tudo, afirmar a validade dessas vidas. É dizer que elas são vidas e vidas com valor. Vidas que importam.

caça pokemonEu penso que, em tempos de Pokemon, é momento de caçá-los também por aqui, no Oeste da Bahia, no Brasil profundo, região em que reinam agroboys, violência, poeira e muita solidão. Mas no meio do pó e da dor que advêm da sensação de desamparo da distância dos grandes centros, há algumas alegrias, as quais, mesmo que fugidias, podem causar surpresas. Esses “pokemons”, monstrinhos pelos quais muitos se interessam, são aqui uma metáfora para fazer referência às pessoas de gênero e sexualidade dissidentes. Verdadeiros monstros, corpos abjetos que transitam pelas frestas do desejo e escapam por entre a solidão e em um duplo abandono: da família e do Estado.

O Re(ex)sistência LGBT propõe o estabelecimento de laços outros para além daqueles, por vezes fracos, da “família de sangue”. Da família que mata ao expulsar de casa e que, com isso, oferece uma outra moradia: a esquina de prostituição. São diversas as ações do Programa, as quais aqui não irei detalhar, visto que o que aqui vale é marcar a relevância do Re(ex)sistência para as vidas que se tornam vidas por meio de uma ética da existência e de um cuidado de si.

Precisamos de uma Universidade que não tenha medo dos monstros LGBT que vagam por aí. Não tenha medo de sua diferença, de seu “exotismo”, de seus “poderes”. É preciso “caçar” os monstros. É preciso alimentar os monstros. Mas há perigos nesse movimento: os monstros LGBT, como todos os monstros, são perigosos. Do contrário, não seriam monstros. Podem causar danos. E quais seriam esses “danos” causados pelos monstros LGBT? O de transformar, radicalmente, a Universidade. O de torná-la menos homogênea, menos careta, menos hierárquica; e por outro lado, mais diversa, mais problematizadora, mais constrangedora do que consideramos o normal, o aceitável, o justo.

Esse é o “perigo” dos monstros LGBT. Eles irão perturbar vocês. Desafiar suas políticas prontas, seus editais pré-formatados, suas ideias preconcebidas. Os monstros, no entanto, são frágeis, mesmo que perigosos. Sua periculosidade é aparente, apenas. Não temam deles se aproximar. É tempo de a Universidade se arriscar.

 

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Ler 2585 vezes Última modificação em Quarta, 12 Outubro 2016 20:26
Carlos Henrique Lucas Lima

Gaúcho de Porto Alegre, Carlos Henrique Lucas Lima é professor de língua portuguesa e literatura, com experiência na área de ensino de crítica cultural e literatura comparada; fez mestrado na área de História da Literatura e, atualmente, depois de uma viagem a Salvador por ocasião de um evento sobre negritude e homossexualidade, decidiu ficar na Bahia de Todxs xs santxs e fazer o seu doutorado em Cultura e Sociedade com xs professorxs Djalma Thürler e Leandro Colling. Está adorando a Bahia e não pretende mais voltar para o RS!

Website.: ibahia.com/a/blogs/sexualidade/

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