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Jéssica Cristopherry: a arte de se TRANSformar e o nascimento de uma estrela

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O escritor Oscar Wilde, em uma de suas tiradas clássicas, disse que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. Assim como na insolúvel indagação filosófica sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha, delimitar onde começa a imitação e onde termina o original ou quem é cópia de quem, diria que é impossível precisar os limites entre arte e vida.

 

E para que essa incessante busca por respostas tão definitivas? O entre-lugar da dúvida, do mistério e da incompletude é certamente algo que me fascina no fazer artístico: é como sentir-se empurrado do penhasco de qualquer zona de conforto, com minhas certezas abaladas, boiando numa terceira margem de um rio qualquer por aí. Esta é a ARTE que me seduz, me expõe, me trai, me faz sentir vivo… e quando tudo isso decorre de um material simples, leve e que revela a espontaneidade da arte e a dramaticidade da vida, ou vice-versa? É possível resumir e retribuir essa sensação de catarse sob a forma de aplausos e sorrisos.

Foi dessa forma que o documentário Jéssica Cristopherry, produção que celebra a parceria entre Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge e o lançamento da Buh!Fu Filmes me tocou. O filme registra o desejo e o processo de TRANSformação da atriz Paula Lice na drag queen Jéssica Cristopherry, em um mergulho apaixonado no universo transformista e na cena soteropolitana. O glamour, a fechação, o brilho, o artifício e a extravagância da maquiagem, dos figurinos e das performances encantam e atraem Paula, que transborda seu amor por essa arte em suas falas, seu olhar atento e sua dedicação e entrega na composição de Jéssica.

Durante o processo, ela é auxiliada pelo diretor teatral pernambucano Rodrigo Dourado, pesquisador da cena transformista, e pelos mais badalados e respeitados artistas transformistas de Salvador, que contam suas histórias com muito bom humor e narram como “nasceram” suas personagens: Rainha Loulou, Mitta Lux, Valerie O’harah, Carolina Vargas e Ginna d’Mascar. A pergunta lançada à Paula Lice, em certo momento do filme, dá o tom da construção de sua persona: “você tem que pensar… quem vai ser a Jéssica nesse caldo?”

E quem é a drag queen ou a artista transformista e o que essa arte nos revela sobre nós mesmos? De um modo geral, a drag é muito mais exagerada e “carregada” de artifícios de maquiagem e figurino do que a transformista, pois essa, em sua montagem, tentaria ao máximo se aproximar do ideal de gênero alinhado com as referências do mundo feminino, ao contrário da primeira; mas mesmo essas definições se mostram precárias, pois há algumas artistas que as extrapolam e transitam entre ambos os polos. Em um texto anterior, postado aqui no blog, Leandro Colling já fez algumas reflexões sobre o tema, que podem ser lidas aqui:http://www.ibahia.com/a/blogs/sexualidade/2012/09/11/o-que-o-universo-trans-nos-ensina-%E2%80%93-parte-1/

Essa predileção pelo inatural, exagerado e pelo artifício, que transbordará na superfície de Jéssica Cristopherry, se relaciona intimamente com o conceito de camp. Segundo a escritora Susan Sontag, o camp é um modo de ver o mundo que não se refere à beleza, mas sim a um grau de artifício e/ou estilização e uma sensibilidade que, em sua excentricidade, não se enquadra no molde de um sistema, pelo contrário, questiona os sistemas e suas normas estéticas, mesmo sem a intenção de fazê-lo. Ele é também a glorificação da “personagem”: mais quais os limites identitários que delimitam as fronteiras entre a personagem e o ator que o “veste”? Até que ponto começa e termina Paula Lice e Jéssica Cristopherry e os outros atores e suas personas?

drag seria então a metáfora e a crítica à noção de que os gêneros masculino e feminino seriam “naturais”, explicitando seu caráter de construção reproduzida cultural e socialmente. Afinal, por mais impactante que essa afirmação possa parecer, percebam que todos nós nos “montamos” todos os dias ao sairmos de casa, ao escolhermos uma saia, um brinco, um batom ou uma calça, determinada camisa, calçado, corte de cabelo e comportamentos que são determinados como de “homem” ou de “mulher”.

A naturalização dessa encenação dos gêneros é tão absorvida por todos que é chocante para a maioria ver um homem de salto ou usando saia. Mas existe mesmo algo no “corpo masculino” que determine ser impossível um homem passar um batom na boca? Por que será que chama tanta atenção uma mulher sendo taxista, mecânica ou motorista de ônibus? A diferença, para a drag, é que ela assume a artificialidade de sua imagem através da arte, de sua figura exagerada, de sua persona hiperbólica.

Não existe um “gênero original”, somos sempre cópias de outras cópias, que podem ser subvertidas no próprio processo de repetição. Mas como assim? Eu estou afirmando que somos programados por leis que definem como se deve ser um homem ou uma mulher de “verdade”? Sim. Mas alguém consegue alcançar esse status de “pureza”? Obviamente não. E é por isso que, segundo a filósofa Judith Butler, “o gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser”.

E é nesse processo de produzir uma mulher “por cima” de uma mulher, essa sim explicitamente artificial, mais brilhante, fechativa, excêntrica, fantástica e glamorosa, que nasce Jéssica Cristopherry. Esse é também um dos grandes dos trunfos do filme, a narrativa da gênese de uma hipermulher, ou como ressaltado no slogan do filme: uma “atriz, mulher e transformista”.

O documentário de 52 min, filmado principalmente no famoso Beco dos Artistas, é também uma sensível e afetuosa homenagem aos talentosos artistas reunidos em torno da protagonista e a essa arte deliciosa que materializa o sonho de irmos além dos nossos corpos e gêneros rígidos, da possibilidade de nos transformarmos em estrelas, de sermos divas. Os diálogos espontâneos, os ensaios e performances, o bom humor e as confissões sem papas na língua formam o tecido de uma narrativa leve, singela e poderosa. Elas brilham sob as luzes de um palco e recebem os aplausos de um público que também mergulha nesse lindo devaneio de ir além dos limites da vida. E por que a vida precisa ter tantos limites? A arte nos mostra que é possível sermos muito maiores que a vida, rasgando a casca opressiva do cotidiano e poeticamente nos revelando que podemos ser mais, mais, mais.

 

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Ler 5966 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 14:56

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