Políticas do CUS

Manifesto contra a DITADURA GAY no Brasil: os privilégios de uma “minoria”

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A sociedade está cansada desse assunto. Aborrecida e temerosa com esses pecadores, amorais e anormais que querem transformar o mundo num “viadeiro”. A intenção é a de destruir a família nuclear, natural e tradicional: e a procriação? E a Bíblia? E as nossas crianças? Essas pessoas querem impor um estilo de vida, querem mais privilégios que todos, uma maioria que está sofrendo com esse ódio gayzista. Somos obrigados a ver dois homens de mãos dadas e se beijando? Já basta a dificuldade de saber que essa gente existe.

 

Aposto que essa gayzada é a favor de cotas para negros e índios: o que eu tenho a ver com uma escravatura de não sei quantos séculos atrás ou do fato deles serem pretos, pobres ou terem estudado em uma escola pública de merda? Ah, faça-me o favor! Essa gente deve apoiar também essa lei ridícula que enche de regalias as empregadas domésticas! E nós temos culpa por sermos privilegiados, agora vamos ser explorados até por isso, já não basta o imposto de renda exorbitante que pagamos?

Deve ser a mesma gente que acha incrível essas mulheres ousadas (pra não chamar de putas) que saem a qualquer hora por aí usando roupas curtas, com conduta de vadia e reclamando quando são assediadas e estupradas. Esse Brasil, ah Brasil! Mulheres, negros, pobres e viados agora me chegam com essa história de opressão, machismo, homofobia e racismo pra lá e pra cá. Essas coisas NÃO EXISTEM. As coisas são como são, como Deus fez, ou seja, cada um com o que merece… quer dizer, eu estou falando do lugar das mulheres, a linda missão de ser mãe e colaborar para constituir a família e o lar, para que todos fiquem unidos; falo dos negros, gente para quem eu oro todos os dias, pois carregam uma maldição por serem pretos e muitos seguem uma religião diferente da cristã (a diabólica macumba), mas nada que uma conversão sincera não resolva (pelo menos em parte); e dos pobres, que reclamam demais, pois não bastam os altos impostos que nos cobram pra manter bolsas-família, hospitais e escolas públicas!

Ah, quem se esforça nessa vida se torna gente! Esse papo de menos favorecido socialmente é desculpa pra quem quer tudo fácil. Quanto à gayzada, esses sim eu condeno, não somos obrigados a aceitar esse tipo de comportamento, essa opção pela imoralidade que está se transformando numa ditadura! Sou contra os privilégios que querem dar a essas “pessoas”.

Esse meu desabafo surgiu quando eu li o texto de um tal de Leonardo Sakamoto, blogueiro do UOL, defendendo essa ditadura gay. Por sorte, na parte dos comentários, encontrei uma resposta à altura, incrível, um alívio diante de tanta mentira, deturpação e baboseira. O leitor defende a criação de um “Movimento Mundial contra a discriminação dos homens adultos, brancos heterossexuais, com escolaridade superior e empresários com boa renda”. Pessoas, isso é genial! Somos nós que sofremos com tanta opressão, fazemos esse país funcionar (e também financiamos os benefícios que essa outra gente que citei acima suga às nossas custas). Leiam e observem se não é dos argumentos mais lógicos, naturais e verdadeiros já ajuizados:

“Duvido que a UOL ou o Sakamoto autorizem publicar esse meu comentário, mas quem sofre discriminação somos nós: homens adultos, entre 30 e 50 anos, heterosexuais, sadios, brancos, com nível de escolaridade superior, empresários, e com uma renda compatível com nosso trabalho. Nós que não temos quotas para nada, ou leis especiais que nos protejam, ou direitos exclusivos em detrimento do conjunto da sociedade. Nós é que estamos sendo discriminados todos os dias, e sofrendo essa campanha permanente de perseguição e difamação dos meios de imprensa, da mídia e dos políticos, judiciário e governos. Os negros, pobres, gays, os doentes, os loucos, os velhos, os jovens, as crianças, os estudantes, os desempregados, os trabalhadores assalariados, os nordestinos, os mexicanos, os cubanos, os haitianos, os imigrantes ilegais, os deficientes, os analfabetos, as mulheres, enfim TODOS TEM LEIS PARA LHES PROTEGEREM E DAREM PRIVILÉGIOS, somente nós, não temos, e somos discriminados para tudo. Nem a ONU se preocupa com nossos direitos humanos. Sofremos discriminação e perseguição dia e noite e NADA é feito por nós. Não vão me convencer a virar gay, e não vão fazer com que eu fique na praia por 3 meses consecutivos para que pensem que descendo de ancestrais africanos. Continuarei sendo branco, homem, heterosexual, adulto, com boa escolaridade e com boa renda, pagador de impostos (ALTÍSSIMOS) mas não recebedor de serviços públicos à altura dos impostos que pago. Creio que vou lançar um MOVIMENTO MUNDIAL CONTRA A DISCRIMINAÇÃO DOS HOMENS ADULTOS BRANCOS HETEROSEXUAIS COM ESCOLARIDADE SUPERIOR E EMPRESÁRIOS COM BOA RENDA. Talvez seja a maneira de conseguir ter algum direito nesse planeta onde TODOS OS OUTROS GRUPOS só me dão o dever de TRABALHAR PARA sustentá-los, sem direito algum em troca.”

Entenderam? Nós, homens brancos, adultos, heterossexuais, com escolaridade superior e empresários com boa renda trabalhamos para sustentar toda essa corja e não temos nenhuma regalia, nenhum direito. Este é o nosso Brasil.

Tenham muita calma, leitoras e leitores. Essa personagem que introduz meu texto é ficcional, mas livremente inspirado no comentário sobre o tal movimento hétero e branco, esse sim eu li e fiquei… abismado, chocado. Estamos vivendo em uma fase na qual pessoas historicamente oprimidas estão saindo da invisibilidade, exigindo direitos e escancarando a necessidade de enxergamos e convivermos com as diferenças. Os muitos discursos por direitos iguais, baseados no raciocínio de que todos somos humanos e por isso não precisamos de “tratamentos diferenciados”, ignoram opressões históricas que violentam mulheres, negrxs, não heterossexuais, pessoas pertencentes a classes sociais mais baixas e também a religiões fora do círculo do cristianismo.

Durante séculos, mulheres não puderam votar, estudar, gozar, possuir um emprego para além dos afazeres domésticos e sempre foram criadas para serem mães, donas de casa e darem prazer sexual aos homens. O século XX foi marcado pelo surgimento das políticas feministas de libertação da mulher, do corpo feminino aprisionado, agredido, estigmatizado e até hoje oprimido (alguém aqui se lembra do tratamento dado às mulheres divorciadas?). Muitos desses movimentos falharam em incluir, na sua pauta, mulheres negras, pobres e moradoras de periferia, ou seja, estavam mergulhados em racismo e classismo. A discussão contemporânea segue no intuito de minimizar essas exclusões, realizar diálogos.

Negras e negros foram “libertos” e jogados das senzalas paras as ruas, sem direito a trabalho digno, estudo e moradia. Não tiveram acesso a uma mínima cidadania. Mais de um século depois e ainda somos descendentes de um país que chutou a população negra para as margens das cidades, impedindo-os de terem acesso a direitos básicos. As favelas, periferias, o povo preto que vive nas ruas, a cor negra predominante nas cadeias e presídios é produto de uma história que finge cordialidade, esconde um racismo que nem sempre é pronunciado, mas se faz presente na estrutura básica de uma sociedade que vive o medo da violência nas cidades e discute maioridade penal. A exclusão e discriminação racial é ignorada enquanto uma raiz fundamental para muitos de nossos problemas.

Carolina do Norte - EUA (1950)

A explícita desaprovação de uma parte da sociedade pela lei que garante direitos trabalhistas às empregadas domésticas é sintoma dessa mesma sociedade que tem fetiche em “escravizar” e explorar os mais pobres, pois a eles resta uma alternativa: aceitar a sua “condição”. Como também ignorar que o preconceito às religiões de matriz africana, rotuladas como “seitas”, ainda existe? O candomblé e a umbanda, por exemplo, foram demonizadas, estigmatizadas, violentadas, deturpadas e proibidas também porque sua origem as condenou “naturalmente”. O mundo precisa mesmo se resumir às referências cristãs e tudo que estiver fora dessa visão teológica deve ser condenado?

Agora sim eu posso falar dos que estão querendo impor uma “ditadura gay”. Desde a ascensão da burguesia no século XIX, com o surgimento das noções de heterossexualidade e homossexualidade (releia aqui um texto de Gilmaro Nogueira eoutro de Leandro Colling discutindo especificamente esse tema), as sexualidades foram reprimidas, silenciadas e caladas em torno do ideal burguês da família e do casal legítimo, cuja função primordial seria a de reproduzir. A família nuclear e tradicional se torna mais uma peça da engrenagem de produção capitalista. O sexo, as práticas sexuais, em séculos anteriores, era realizado com menos pudores, vergonhas e proibições. Isso não quer dizer que tudo era permitido e nenhuma norma existia, mas, segundo o filósofo Michel Foucault, nessa época “os corpos pavoneavam”.

Com o estabelecimento de uma sociedade capitalista e industrial, o sexo estaria incompatível com os meios de produção e a força do trabalho não poderia ser dissipada com o excesso dessas práticas. Todo o esforço humano (e do homem) deveria estar focado no trabalho intensivo, na produção incessante e lucrativa das indústrias e cidades que cresciam imensamente. As práticas sexuais deveriam estar atreladas à reprodução, não ao gozo, ou seja, somente ao nascimento de mais mão-de-obra.

Pessoas não heterossexuais obviamente estariam fora dessa lógica (re)produtiva, seriam um obstáculo à meta capitalista de uma família burguesa escrava desse sistema. As sexualidades “ilegítimas” e “ilícitas” seriam agora analisadas, dissecadas como uma rã na mesa de um cientista, por juristas, médicos, religiosos, biólogos, políticos e moralistas que agora poderiam regular o sexo segundo leis bem rígidas. Não ser heterossexual é estar inserido no buraco do proibido, imoral, pecaminoso, abominável, anormal, perverso, ilegal, doentio e principalmente improdutivo. Esses seres devem buscar o seu lugar nas sombras da invisibilidade; ou aceitam esses rótulos, estigmas, marcas e desaparecem (de várias formas, incluindo a morte) ou se adequam à “normalidade heterossexual”.

A artista Marcela Tiboni e o corpo disciplinado

Séculos de apagamento, violência e exclusão explodiram em mulheres, negros e pessoas não heterossexuais o rasgamento do silêncio que gritava um NÃO bem sonoro aos seus corpos, vivências e suas muitas possibilidades. Esses corpos estariam fora do que foi delimitado pelo Estado, medicina, direito, religião e pelo capitalismo: historicamente violentados, proibidos, colonizados, impedidos de existir. São esses discursos que se transformam em violência e matam diariamente os diferentes: não heterossexuais, mulheres, negros e pobres. Mas, gostem ou não, essas pessoas existem e não querem impor estilos de vida, não almejam “gaycizar” o mundo, querem apenas coexistir com o valor, respeito, dignidade e direitos sendo quem são… e sem o medo que oprime e mata.

Apesar da ênfase dada à ditadura gay, inclusive no título deste texto, quero reforçar e refletir aqui que são inúmeras as opressões e normatividades impactando sobre essas pessoas, pesando muitas vezes simultaneamente sobre um mesmo corpo (uma mulher negra, lésbica, empregada doméstica, moradora de uma periferia e de classe baixa, por exemplo). A invenção da falaciosa ditadura gay ocorre quando transfere-se o status de opressor aos que são oprimidos: essa é uma das estratégias utilizadas por aqueles que se deparam com relações de poder e hegemonia sendo problematizadas, questionadas e criticadas. Pense nisso e REVEJA os seus privilégios, façamos o exercício de olhar para o outro com mais sensibilidade.

E você ainda vai reproduzir esse papinho, o opressivo mimimi de que gays, lésbicas, travestis, transexuais etc. querem impor o seu “comportamento subversivo” à toda sociedade? Vai acreditar que essas pessoas são o mal que vai acabar com a família feliz que você faz parte (sem ao menos ponderar que o conceito de família vai além de apenas um único modelo)? Vai engolir essa mentira chamada DITADURA GAY? Uma mentira bem contada pode bem se disfarçar de verdade, mas olhares e ideias mais críticas podem revelar esse teatro dos vampiros.

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Ler 5107 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 15:03

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