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Um diário escrito com corpo, sangue e desejo

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Rafael Medrado e Duda Woyda em "O Diário de Genet"

Você já imaginou um corpo sem órgãos? Ou melhor, que os órgãos que compõem a estrutura do nosso corpo fossem repensados, realocados de funções, posições fixas e articulações? Toparia se reorganizar? Não? Qual é o seu medo? Do desconhecido, do diferente, do anormal… medo de se tornar uma máquina inútil, fora da grande linha de produção?

 

O pensador Gilles Deleuze imaginou, através da metáfora conceitual dos Corpos Sem Órgãos, uma oposição aos organismos, uma fuga desses territórios fixos, dos sistemas que aprisionam e nos forçam a sermos cópias exaustivas e entediantes de outras existências. Cerceados e oprimidos, os seres são impedidos de experimentar outras existências, mundos e prazeres singulares, ao contrário, somos obrigados a seguir trajetos específicos e pré-determinados.

A rigidez de nosso corpo é a marca de uma existência dura, inflexível, organizada para ser “útil”. Útil ao que, subserviente a quem? Vale a pena existir para apenas pertencer a esse sistema? Tá a fim de experimentar novas formas de sentir, viver, ser e gozar? Tem medo? Você arriscaria gozar por outros lugares além da pica, da buceta ou mesmo do cu? Que tal enxergar pela boca, ouvir pelos olhos, falar com as mãos, sentir gostos e outros paladares com o nariz e tatear o mundo com os ouvidos?

Tá achando esse papo muito louco e absurdo? Então eu te proponho uma viagem ao mundo da experimentação, para a saída desse lugar comum do corpo e da arte. Eu te convido a mergulhar no universo de Jean Genet, um lugar em que é possível sair um pouquinho desse lugar de máquina. Um pedacinho desse mundo está sendo encenado/performado na peça “O Diário de Genet”, sob a direção de Djalma Thurler, em cartaz na Sala do Coro do TCA (Salvador).

Esse espetáculo/performance põe em cena os atores Duda Woyda e Rafael Medrado e logo de imediato percebemos que eles estão ali despidos de personagens: não há neles a representação de um sujeito, ou personas fixas, mas o mergulho do ator (e do público) numa performance visceral, intensa e muito mais sensorial do que o que nossa noção de realidade impõe.

Esse diário é escrito a partir de um texto não linear. O mundo marginal, inconstante, perigoso, vagabundo e sedutor do filho de uma prostituta, abandonado cedo pela mãe, e que viveu a juventude em reformatórios e prisões é experenciado com o vigor de dois corpos que se chocam em cena. As cenas entre os atores são intensas, em uma performance de danças vigorosas, flutuantes, violentas. Há ali, dois corpos que desejam se tornar um. Um corpo que deseja ser mil.

As experiências marginais de Genet se aliam a um texto forte, político, que almeja dar um soco no estômago de uma sociedade que constrói e define quem são os marginais, determina quais são os prazeres possíveis… violenta quem está fora das normas. Uma violência que transforma, por exemplo, a palavra “viado” numa injúria, no xingamento que massacra. Uma violência que determina quem pode gozar e por onde. Os corpos que estão em cena são politicamente subversivos: o choque da nudez, o suor literal de performances carregadas de potência, o encontro erótico e visceral dos marginais, o grito, o silêncio.

Cenários, iluminação e estrutura narrativa fogem do clichê das produções mais próximas dos formatos tradicionais de teatro. A direção de Djalma Thurler experimenta intencionalmente um teatro mais performativo, impactante, contemporâneo e carregado do hibridismo entre muitas artes.

O tecido narrativo ali costurado nos apresenta o desejo político de renunciar às prisões físicas, subjetivas e moralistas que se impõem sobre nós. A trama é complexa, mas carregada de uma força que põe o público em cena. Não há uma distinção rígida entre sentir e pensar, façamos os dois com o desejo multiplicado à milésima potência. Genet é ora Duda, ora Rafael, mas o público também é Genet. Genet simboliza o abjeto, o marginal, nos instiga a sairmos do cárcere de nossos falsos e ocos privilégios, vidas com pouquíssimo sentido para existirmos. É o convite para o risco de ir além do que você vê no espelho. E aí, ainda está a fim?

Datas: 04 DE MAIO A 26 DE MAIO DE 2013.
SÁBADOS E DOMINGOS: 20:00
VALOR: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)
TEATRO DA SALA DO CORO DO TCA.

 

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Ler 8899 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 15:07

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