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Quem tem medo do menino afeminado? – uma fábula de horror e medo (parte II)

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O Super-Homem e o peso de ser O Macho: entre a dor e o prazer, oprimir e ser oprimido.

Semana passada, dei início à jornada do nosso pequeno menino-monstro contra o príncipe da masculinidade hegemônica e essa sua saga se revela apenas mais um capítulo de tantas histórias que se repetem por aí… e nem sempre com finais felizes.

 

Depois de inúmeras batalhas, o menino afeminado cresceu, não sem sentir a crueldade dos outros seres da floresta. Apesar de tanta angústia, sofrimento, lágrimas e o constante medo de apanhar ou ser xingado e humilhado, a superação veio no formato da melhor das cicatrizes: o fortalecimento. Ser forte e resiliente eram as únicas formas de sobreviver sendo caçado o tempo todo, mas isso não significou um aprendizado em artes marciais ou um crescimento e enrijecimento dos músculos: sua força era mesmo a sua autorresistência, até porque há tempos desistiu de ser o macho que todos esperavam que fosse (e olha que ele tentou, viu!).

O menino afeminado (que ainda não havia chegado à etapa de ver-se como uma bicha, apesar da pressa do mundo em rotulá-lo assim) achou que mais uma mudança de escola, por conta do ingresso no ensino médio, resolveria seus problemas e até mesmo pudesse passar despercebido. Ledo engano. Apesar de sofrer menos com a violência física de outrora, a polícia da masculinidade estava lá em toda a parte, dos olhares de reprovação e risos perversos à injúria, os xingamentos que ainda ecoavam forte em sua cabeça. Confiram esse vídeo com cenas fortes de violência em uma escola de Alagoas (eu sempre fico comovido ao rever essa barbárie):

 

Mas começava a surgir nele a compreensão de que não havia algo de errado em si, que o monstro pintado pelo mundo podia tentar ser feliz sendo/estando/performando como o “patinho feio”. E foram muitas as mudanças diante dessas novas autodescobertas…

Mudanças, descobertas, enfrentamentos. Perceber-se “monstro” é na verdade valorizar a diferença que marca cada ser humano. Caminhando por essa via, por que não pensar na existência de múltiplas representações, formas de existências e diversas combinações para além de paus e bucetas associados respectivamente a uma masculinidade e uma feminilidade “puras”? Seria possível viver masculinidades em corpos considerados femininos e feminilidades em corpos considerados masculinos sem as sanções de uma lei inflexível?

Quais as possibilidades de sermos humanos plurais de fato, existindo sem o medo, a angústia, a violência e a segregação que mata “silenciosamente” aquilo que temos de melhor: a capacidade de criar, recriar, reinventar-se, livres das amarras opressivas e limitações.

Esse é o Tristin. Ele tem seis anos e adora a Hello Kitty e My Little Pony. Veja mais no link: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=266283350147270&set=pb.173217872787152.-2207520000.1356445973&type=3&theater

O privilégio do poder gera dores e carências, minhas queridas/os. Aproximar-se dessa impossível masculinidade hegemônica impõe custos, sofrimentos e cria também outras masculinidades: periféricas, marginais, distantes do ideal porque falham na consecução de um ou mais pré-requisitos (cor da pele, poder aquisitivo ou orientação sexual, por exemplo).

Mesmo uma voz considerada mais fina pode ser a razão para um sujeito ser massacrado; gostar de brinquedos e elementos que foram determinados a serem do mundo feminino também pode gerar agressões diversas. A percepção da existência dos paradoxos da dor e do prazer, do oprimir e ser oprimido pode produzir ferramentas de enfrentamento a essa masculinidade dominante e criar possibilidades de mudanças sociais.

Aí voltamos à guerra declarada contra o menino afeminado. Esse menino causa medo, apreensão e consegue ser ao mesmo tempo um inocente, mas poderoso golpe contra a noção naturalizada de que corpos com pênis devam ser/se comportar de acordo com o “gênero puro” relacionado à masculinidade hegemônica. Por outro lado, esse menino deve ser curado, é uma mancha, um vírus, o monstro corruptor que denuncia a artificialidade das categorias de sexo e gênero. Quem ele pensa que é para revelar segredos tão sagrados? Esse monstro precisa ser capturado, domesticado e moldado para ser macho. Quantos nunca ouviram um “anda como homem, menino!”, “fala como homem, menino!”, “SEJA HOMEM, MENINO!”. A fera precisa virar um príncipe.

O menino afeminado é também muitas vezes associado à transgeneridade – que, diferente da homossexualidade, é ainda considerada uma doença, o transtorno de identidade de gênero. Atualmente, pode-se até ser gay, mas que SEJA HOMEM! Aí destaco, inclusive, o preconceito de alguns homens gays para com homens afeminados e pessoas trans, assunto para ser debatido em outro post. O corpo do menino afeminado é, portanto, patologizado e culpado pela violência que sofre! Ah, mas se você não requebrasse, se sua voz não afinasse, se você não rebolasse, se você não fosse desse jeito… mas você é José! Você é um viadinho, José!

Angústia, solidão, sensação de inadequação, dor, sofrimento. A solução dada por pais, psicólogos e professores é o apagamento das características que tornam essa criança um “menino diferente”. Ser diferente tem um preço, e para alguns o aplacamento dessa dor virá até mesmo com o suicídio, como no caso de Rolliver de Jesus, 12 anos, que se enforcou com o cinto da mãe há quase um ano, em Vitória (ES).

É importante destacar que esse menino afeminado – que não necessariamente se identificará como homossexual ou uma pessoa trans – é forçado a confessar uma “verdade interna”, uma verdade sexual sobre si, mas essa é uma verdade que não lhe pertence. Essa verdade é o “fato” de uma cultura que força uma confissão não somente para perdoar ou condenar, mas para dizer quem manda nesse jogo (e quem você deve SER para vencer nele).


Não faltam culpados para o afeminamento desse menino, seja o pai ausente, a mãe superprotetora ou o diagnóstico de “transtorno de identidade de gênero na infância”. Segundo o sociólogo peruano Giancarlo Cornejo, o berço de um menino viadinho é a lápide de um menino heterossexual. No entanto, esses monstrinhos nem sempre são mortos, invisibilizados ou “readequados” para serem homens de verdade. Esses seres denunciam o monstro maior que oprime e quase nunca é problematizado ou questionado: o da lei opressora da masculinidade hegemônica. Ah, e sobre o menino afeminado da fábula, ele continua sendo uma fera, mas não dispensa um príncipe (ou mais de um) caso esse apareça.

P.s.: vejam esse divertido tumblr chamado Criança Viada, em que os leitores mandam fotos de sua infância em poses digamos… fechativas: http://criancaviada.tumblr.com/

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Ler 18463 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 16:23

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