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Porque não devemos nos calar jamais – ou como a vida consegue ser mais dura que uma história de terror

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Há exatas duas semanas eu estreei nesse blog e iniciei narrando não só a minha trajetória, mas uma história que poderia ser a de muitas pessoas, um conto que muito provavelmente sensibilizou aqueles que viveram na pele tais experiências… as expus principalmente com o objetivo de disseminar novos olhares, despertar discussões que fossem reverberadas e pudessem transformar mentes, fraturar átomos.

 

Teci uma narrativa – em duas partes,  1 e 2 – que se repete diariamente com diferentes personagens, cenários, tons e ritmos. Mas não, apesar do meu estilo de escrita, da minha familiaridade com a literatura e o mundo da ficção, eu devo GRITAR a todos vocês que a violência é bem real. Ser um menino afeminado é possivelmente o passaporte para enfrentar um mundo que elege o pênis como o deus de seu corpo, de seu gênero, de sua vida. Ser viado, sapatão, travesti, transexual e outras expressões que extrapolam as normas é como encenar um épico a la Davi x Golias.

Sem mais delongas, a urgência dessa postagem que estava fora de meus planos surgiu de uma mensagem recebida em meu facebook. Uma mensagem de um leitor, contando a recém-sofrida violência em sua escola, o Instituto Federal da Bahia (IFBA), campus de Salvador. A vítima, por ser menor de idade, não terá o seu nome citado, nem a foto com o rosto ensanguentado exibida (ela foi enviada em anexo ao relato); o menino de 17 anos recebeu uma pedrada na cabeça e a imagem é de causar raiva, tristeza, medo e nos faz questionar sobre o porquê de tanta violência, tanta estupidez, tanta brutalidade (que poderia ter sido fatal, pois a região atingida é muito próxima ao olho). Leiam o seguinte depoimento e tirem suas conclusões:


“Olá, Fábio, acho que você é um escritor de uma coluna do iBahia e preciso de sua ajuda. Caso não seja, vi em seu perfil que você é uma pessoa bastante inteirada e acho que pode me ajudar também.

Queria contar um caso que aconteceu comigo na última quinta-feira, dentro das instalações do IFBA – Instituto Federal da Bahia, no campus Salvador, localizado no Barbalho. Sou um aluno da instituição e estou cursando eletrotécnica, em nível técnico integrado, tenho dezessete anos e, além disso, participo de vários movimentos sociais contra alguns tipos de agressão e estagio no Tribunal Regional do Trabalho, 5ª Região.

Descritivamente, eu estava na PRAÇA VERMELHA, que é uma praça localizada dentro da instituição, onde os alunos geralmente passam o intervalo, que é MUITÍSSIMO movimentada ( e, estava no local que chamamos de “Aranha”), conversando sobre a minha aprovação para a segunda fase da UFBA com três colegas e, de repente, fui atingido por uma pedra de tamanho considerável no rosto (mais especificamente, na parte final da sombrancelha, cerca de 3cm de distância do olho direito). Sim, uma pedra. E sim, no rosto, numa área bem sensível, perto dos olhos.

O lesador (um rapaz com 18 anos) foi um aluno do curso técnico de mecânica, na modalidade integrada, que SUPOSTAMENTE estava brincando de lançar pedras com os colegas da turma, nesta Praça Vermelha, que é uma brincadeira bem pesada pelo visto, já que atingiu uma pessoa (no caso, EU) que não tinha nada a ver com a “BRINCADEIRA” e que acabou lesionando de forma grave (VIDE FOTO) a região próxima a ocular no meu rosto.

COMO UMA BRINCADEIRA CONSEGUIU ATINGIR UMA PESSOA QUE NÃO TINHA NADA A VER? EU NEM MANTENHO QUALQUER TIPO DE CONTATO COM AS PESSOAS ENVOLVIDAS, COMO ASSIM? UMA BRINCADEIRA QUE FAZ UM CORTE NO ROSTO DE ALGUÉM, DENTRO DE UMA INSTITUIÇÃO FEDERAL?!

Após isso, fui encaminhado para o Serviço Médico da instituição, com o rosto bastante ensanguentado (e também depois de uma tentativa de reação contra o menino do segundo ano de mecânica, por legítima defesa, mas, sem sucesso), onde fui orientado à ir num hospital mais próximo, depois de feito um curativo, pois o meu machucado teria de levar pontos, pra uma possível cicatrização mais rápida.

SAINDO DO AMBULATÓRIO, ME REENCONTREI COM O LESADOR E OS OUTROS ENVOLVIDOS (UM GRUPO DE REPUTAÇÃO BEM DUVIDOSA, DE UMAS PROVÁVEIS 7 PESSOAS), QUE, DE FORMA HUMILHANTE E BASTANTE RUDE, ME AGREDIU VERBALMENTE, COM PALAVRAS DE BAIXO CALÃO E AFIRMARAM A BRINCADEIRA COMO “O LESADOR SERÁ CONHECIDO COMO A LENDA DO CEFET, O PRIMEIRO A JOGAR UMA PEDRA NUM VIADINHO”, FORA OS RISOS DESAGRADÁVEIS E O “SER FEITO DE PIADA”. COISAS QUE TANGENCIAM OS DANOS MORAIS, A VIOLÊNCIA E AGRESSÃO VERBAL, A HUMILHAÇÃO PÚBLICA, E TRAÇOS DE PRECONCEITO E HOMOFOBIA.

Mesmo muito chocado com a situação e depois de chorar bastante, de desespero, de medo, de um sentimento de pavor, fui até a D.E (Direção de Ensino), onde me comuniquei pessoalmente com a nova diretora do colégio, a Professora Lybia Rocha dos Santos, que foi comunicada, não só de forma verbal, mas, posteriormente de forma “legal e escrita”. Espero uma posição da escola, de fator urgente, pois, provavelmente o caso será levado à 2ª Delegacia de Polícia (localizada na Lapinha), onde irei com os meus responsáveis, já que sou de menor.

No mais, as fotos foram tiradas na quinta, antes de ir na delegacia/hospital, pós banho, como se pode ver, ainda sangrava muito, pois o corte estava aberto.
Espero que a equipe me ajude a divulgar este caso, e a levantar questões como: Até onde o preconceito pode ser usado à isso? E a maturidade dos alunos de uma instituição de nível federal, aonde está?

Uma brincadeira com uma pedra, considerada também como arma branca?
Há fortíssimos boatos que o menino nada sofrerá, apenas um acompanhamento pedagógico. É realmente esta a posição que deve ser tomada? Estou com muitas pessoas, alunos, amigos, conhecidos, colegas, pessoal do trabalho, família, pessoas do bairro, funcionários da instituição, e enfim, disposto a lutar à favor dos direitos e que a justiça seja feita.

O colégio pediu pra que eu esperasse, até uma posição deles. Mas, parece que eles não vão fazer nada demais. Porque, pra registrar a queixa, eu preciso pelo menos do endereço do rapaz, que eu não sei.

Desculpa te procurar assim, Fábio, mas é que esta inércia, a injustiça, me deixa muito incomodado. Só eu sei o que eu estou passando. Ser motivo de piada é muito complicado, ainda mais num âmbito escolar, onde todos te veem a todo momento.

É como se eu tivesse virado um “troféu” pra eles. Entende? O próprio agressor, meio que sumiu, mas o que estavam na brincadeira inicial, sempre estão falando coisas.

Quando eu passei, na sexta, e na própria quinta, ficaram gargalhando.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E a escola, não vai se pronunciar? O renomado Instituto Federal da Bahia vai calar-se? Não realizará ao menos alguma ação de cunho sociocultural e pedagógico com metas de enfrentamento à violência? Vai simplesmente jogar mais essa história para debaixo do tapete? Torço mesmo para receber em breve respostas que nos tragam mais esperança.

Obviamente, sugeri ao rapaz que ele denunciasse a violência sofrida no Disque Direitos Humanos, o disque 100, um serviço que não é apenas um canal de denúncia mas, com o registro de casos concretos de violência a grupos sociais vulneráveis, uma rede de ações pode ser desenvolvida e os órgãos responsáveis são cobrados a atuar com mais vigor.

Governo da Bahia lança campanha de combate à homofobia

Espero que, de fato, ele consiga superar a dor e aja, consiga denunciar, apesar de reconhecer as dificuldades, o peso da exposição e também a descrença das pessoas em relação à Justiça. Porém, providências só podem ser tomadas se casos de agressão não forem omitidos. Não esconda, não oculte a violência. Uma certeza que tenho é a de que não devemos nos calar jamais. Por mim, pelos que amo, pelos que ainda virão.

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