Políticas do CUS

Fábio Fernandes

Fábio Fernandes (8)

Desde tempos muito remotos, o ser humano transforma aqueles que são “diferentes” em fetiches, espetáculos a serem contemplados e aplaudidos sob olhares de espanto, riso, medo e chacota. Esses seres, distantes da definição de normalidade aceita e postulada por discursos e regimes jurídicos e políticos, já tiveram o seu lugar em um palco circense mais… “bizarro”, digamos assim.

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A inspiração para esse post veio de um filme bem antigo, assistido recentemente, chamado “Esposas em conflito/As Esposas de Stepford” (The Stepford Wives, EUA, 1975). Fiquei instigado com a ideia provocativa e o charme da história, mesmo achando-a um pouco datada e a produção já com um certo cheiro de naftalina (até existe uma refilmagem de 2004, mas esqueçam, é uma porcaria). Eu comecei a refletir sobre como as pessoas, ainda hoje, são fortemente persuadidas de inúmeras formas a serem submissas, aprisionadas a “tradições” opressoras que pareciam superadas, mas se revelam ainda enraizadas nas sociedades. A gente às vezes fica com a visão turva pra algumas coisas…

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Há exatas duas semanas eu estreei nesse blog e iniciei narrando não só a minha trajetória, mas uma história que poderia ser a de muitas pessoas, um conto que muito provavelmente sensibilizou aqueles que viveram na pele tais experiências… as expus principalmente com o objetivo de disseminar novos olhares, despertar discussões que fossem reverberadas e pudessem transformar mentes, fraturar átomos.

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O Super-Homem e o peso de ser O Macho: entre a dor e o prazer, oprimir e ser oprimido.

Semana passada, dei início à jornada do nosso pequeno menino-monstro contra o príncipe da masculinidade hegemônica e essa sua saga se revela apenas mais um capítulo de tantas histórias que se repetem por aí… e nem sempre com finais felizes.

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Hello meninas, meninos e quem não se encaixa nem em uma nem em outra categoria. Sou o mais novo integrante deste fechativo blog que vocês já conhecem, acompanham e vêm comentar. Começo desde já com um tema espinhoso, certamente polêmico, mas que precisamos discutir de frente: o menino afeminado e a guerra declarada contra esse ser inocente(?) – e aqui faço uma referência direta a um artigo do sociólogo peruano Giancarlo Cornejo, “A guerra declarada contra o menino afeminado”.

Decidi abordar esse tema não somente por ser professor do ensino básico, mas também por ter vivido na pele a experiência de ser o estranho no ninho, o menino afeminado que estava fora dos padrões de masculinidade exigidos, cobrados e constantemente vigiados. E quando eu percebi isso? Bom, vou então contar a vocês a história desse “monstrinho” e mais alguns segredos desta floresta mal assombrada que nos rodeia…

Era uma vez um menino afeminado (nesse caso, também uma futura bicha) que exibia um certo “jeitinho de ser”… ele era tão diferente(?) que começou a causar medo e terror em muitas pessoas. Ao completar nove anos, precisou mudar de escola; seu novo percurso era uma jornada que custava a saída de seu reino, a zona de conforto onde sentia-se protegido por família e amigos, e foi a partir dessa entrada em um território muito, mas muito hostil que se deparou com um mundo mais perigoso do que o imaginado e contado em contos de fadas.

Ele precisava ir de um bairro a outro para chegar ao mundo encantado do conhecimento, – aliás, como sofria essa bichinha, andava sob um sol escaldante para chegar lá – mas nunca desanimou, pois força de vontade e alegria (e como era alegre essa futura bicha!) sempre a acompanharam em seu caminho e ele estava muito excitado em desbravar novos territórios. Mas não, não sem passar por perrengues de causar inveja a muita heroína de conto de fadas.

O menino afeminado nunca imaginou que pudessem descarregar tanta raiva e ódio em alguém, ainda mais ele, sempre tão gentil e acarinhado por todos ao seu redor. Era notório o seu desejo de se destacar, sua alma de artista que o fazia participar de tudo na escola: gincanas, festivais, coreografias, peças de teatro, quadrilhas de São João etc. É aí que começa a tormenta de nosso monstro-herói: certa vez, um outro menino, maior e mais forte, decidiu mostrar a ele que “se comportar feito uma menina” era errado e proibido. Viadinho! Viadinho! Viadinho! Aquela palavra soou como um golpe e num crescendo de violência, vieram dias mais sombrios. Eventuais empurrões, tapas e socos na entrada, no caminho e nos corredores da escola e o medo. Medo de ir à escola, medo de ser xingado, violentado, diminuído. E por quê? O monstro do menino afeminado ousou enfrentar o príncipe da masculinidade hegemônica, numa batalha não menos que épica. E traumática.

Os meninos afeminados desafiam o poder da masculinidade hegemônica – conceito elaborado pela cientista social Raewyn Connell (registrada, ao nascer, Robert William Connell) –, denunciando sua opressão e o seu caráter de mentira inventada, porém travestida de verdade absoluta e irrefutável. Começo afirmando que as masculinidades são múltiplas, assim como as feminilidades e outras identidades de gênero marcadas pela não heterossexualidade.

Dentro desse universo múltiplo das masculinidades há um projeto de poder, uma corrida para alcançar o topo do ideal de dominação, o que envolve outros marcadores além da oposição homem/macho opressor e mulher/fêmea subordinada (e também a bicha afeminada, é claro).

Não basta ser homem, viril e másculo. Uma intersecção entre classe social, cor da pele, geração, religião e nacionalidade, juntamente com as não menos problemáticas categorias gênero e sexo, produzirão hierarquias e essa equação vai determinar qual carne tem mais (ou menos) valor no mercado.

O macho Super-Homem: só podia ser um alienígena mesmo

Essa hierarquização social foi eficientemente estabelecida pelos discursos religiosos, legais, médicos e biológicos que se esforçaram para consolidar a noção de que pessoas negras e mulheres eram naturalmente incapazes, inferiores e dependentes (as bichas, as sapatas e as identidades trans, situadas fora da heteronorma, são a bola da vez nesses discursos). A produção econômica, cultural, científica e política sempre foi o palco de homens brancos, másculos, heterossexuais, cristãos, aba$tados e residentes, de preferência, em países considerados de primeiro mundo.

Esses seres “iluminados” têm os seus privilégios de poder garantidos pelas bênçãos do estado, das religiões e também pela máquina de produção e consumo capitalista (braço da sociedade que está presente em todas as etapas de nossa existência).

Alguém consegue efetivamente corresponder a esse padrão de masculinidade dominante? Essa eterna exigência para desempenhar o papel do Super-Homem (re)produz violência no outro e ao mesmo tempo pesa e violenta sobre si mesmo. Violenta porque oprime esses mesmos homens que a (re)produzem, sejam eles heterossexuais ou não, forçando a construção, com um esforço hercúleo, do papel de um sujeito impossível, o macho alfa eternamente vigiado e imediatamente punido diante de qualquer “deslize”, seja uma cruzada de pernas mais extravagante, uma desmunhecada, uma demonstração de carinho por outro homem etc. Vejam este vídeo de uma propaganda argentina e observem os efeitos das referidas leis:

 

Essa vigilância constante consigo mesmo produz policiais da masculinidade, alertas, legitimados e empoderados por essa mesma lei opressora: “se eu devo ser macho, você também DEVE ser! Honre as bolas e o pau que você carrega entre as pernas!”. Essa ficção, que se impõe como natural, é a de um ideal de gênero que implica em consequências bem dolorosas (e até mesmo fatais para muitos). E se eu estou afirmando que essa violenta masculinidade hegemônica é uma ficção de gênero, uma mentira construída, é também porque ela pode ser problematizada, questionada e desconstruída.

Mas devemos nos perguntar, a quem interessa a manutenção desse macho Super-Homem e todo esse poder atribuído a ele? A saga do menino afeminado continua na próxima semana e desde já deixo um aviso: cuidado ao passear por essa floresta perigosa.

O menino Sam e seus sapatinhos cor de rosa: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=507634175934829&set=a.396729613691953.99341.396630023701912&type=1&theater

P.s. 1: link de uma interessante entrevista com um pai que resolveu usar saias para apoiar o filho, que gosta de usar vestidos e pintar as unhas:http://delas.ig.com.br/filhos/2012-09-27/nao-existe-criacao-de-genero-neutro-diz-pai-de-saias.html

P.s. 2: link do artigo “A guerra declarada contra o menino afeminado” de Giancarlo Cornejo:http://pt.scribd.com/doc/110790208/A-GUERRA-Declarada-Contra-o-Menino-Afeminado

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Rafael Medrado e Duda Woyda em "O Diário de Genet"

Você já imaginou um corpo sem órgãos? Ou melhor, que os órgãos que compõem a estrutura do nosso corpo fossem repensados, realocados de funções, posições fixas e articulações? Toparia se reorganizar? Não? Qual é o seu medo? Do desconhecido, do diferente, do anormal… medo de se tornar uma máquina inútil, fora da grande linha de produção?

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A sociedade está cansada desse assunto. Aborrecida e temerosa com esses pecadores, amorais e anormais que querem transformar o mundo num “viadeiro”. A intenção é a de destruir a família nuclear, natural e tradicional: e a procriação? E a Bíblia? E as nossas crianças? Essas pessoas querem impor um estilo de vida, querem mais privilégios que todos, uma maioria que está sofrendo com esse ódio gayzista. Somos obrigados a ver dois homens de mãos dadas e se beijando? Já basta a dificuldade de saber que essa gente existe.

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O escritor Oscar Wilde, em uma de suas tiradas clássicas, disse que “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”. Assim como na insolúvel indagação filosófica sobre quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha, delimitar onde começa a imitação e onde termina o original ou quem é cópia de quem, diria que é impossível precisar os limites entre arte e vida.

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