Políticas do CUS

24 Maio 2016 In Notícias

 

A Periódicus – revista de estudos indisciplinares em gêneros e sexualidades, lança hoje (dia 24 de maio, terça-feira) a chamada de textos para o dossiê de seu sexto número. O dossiê, intitulado Genealogias excêntricas: práticas artísticas queerfeministatrans e conhecimentos dessubjugados (leia chamada abaixo), será organizado pelos pesquisadores João Manuel de Oliveira (ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa) e Tiago Sant´Ana (UFBA). Ambos, juntamente com Thaís Faria (UFBA), hoje participam de uma mesa redonda com o mesmo título no encerramento das atividades do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS) no Maio da Diversidade 2016. A atividade ocorrerá às 17h, no auditório 1 do PAF 5 (campus da UFBA em Ondina). O prazo para envio de textos ao dossiê encerra dia 11 de setembro.

O quinto número da revista Periódicus deverá ser lançado em junho de 2016, com o dossiê intitulado Corpo, política, psicologia e psicanálise: a produção de saber nas construções transidentitárias, organizado por Patrícia Porchat, professora da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (campus Bauru), e Thamy Ayouch, professor da Universidade de Lille 3. O dossiê contará com 17 textos dos 29 submetidos. O quarto número da revista conta com o dossiê Guerrilha de linguagem (foto capa), organizado por Carlos H. Lucas, Anselmo Peres Alós. Para acessar a revista clique aqui.

A revista é uma publicação semestral de divulgação científica do Grupo de Pesquisa CUS - Cultura e Sexualidade, criado em 2007 e vinculado à Universidade Federal da Bahia, ao Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, ao Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade e ao Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (CULT). 

Leia a chamada de textos para o sexto dossiê:

O dossiê “Genealogias excêntricas: práticas artísticas queerfeministatrans e conhecimentos dessubjugados” prevê como espaço de imersão projetos e iniciativas que investigam uma genealogia das políticas de dissidências sexuais e de gênero através das artes. Partindo por outras vias que se distanciam do cânone acadêmico, a proposta é entender como poéticas artísticas, escritas indisciplinadas e outras modalidades de conhecimentos subjugados foram esquecidas na escrita da história do que viríamos a conhecer hoje como "queer". Com esse dossiê, buscamos realizar um trabalho de garimpagem de relatos, críticas e outros formatos de composição de saberes que dialoguem com as artes e políticas da dissidência sexual e de gênero, numa tentativa de observar linhas de fuga para outra genealogia do queer. O dossiê deseja ainda reunir outras traduções artísticas que realizem uma torção ou estranhamento à própria ideia de queer, como as artes cuir, cu, quAre, etc. Este excêntrico é, pois, duplo, um saber/práxis dessubjugado e fora dos centros da colonialidade e da legitimação dos saberes.

Prazo para envio de textos: 11 de setembro de 2016

Os textos deverão ser enviados exclusivamente para o e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. dentro das normas disponíveis na sessão 'Diretrizes para autores' no site da revista (http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/about/submissions#authorGuidelines). A sessão livre recebe submissões em fluxo contínuo.

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20 Maio 2016 In Notícias

O encerramento das atividades do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS) no Maio da Diversidade 2016 ocorrerá neste dia 24 (terça-feira), às 17h, no auditório 1 do PAF 5 (campus da UFBA em Ondina), com a mesa redonda intitulada Genealogias excêntricas: artes queerfeministatrans e conhecimentos dessubjugados. A mesa, criada com o objetivo de pensar sobre as relações entre produções artísticas e as dissidências sexuais e de gênero, será composta por três pessoas que integram o CUS: João Manuel de Oliveira (ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa), Tiago Sant´Ana (UFBA) e Thaís Faria (UFBA). O tema da mesa também será alvo do dossiê da edição número 6 da revista Periódicus. A chamada de textos será divulgada durante a atividade. 

 

Na comunicação Dançando Judith Butler em Nossa Senhora das Flores: para uma genealogia excêntrica do gênero, João Manuel de Oliveira fará uma genealogia que recusa e resiste às historiografias dominantes e visa repensar o próprio projeto historiográfico das teorias de gênero. “Tento procurar o modo como o discurso se constitui como sistema sobre o qual se pode dizer o que é verdadeiro ou falso, via Foucault. Traçando essa genealogia no caso português, que é também a minha, procurei detectar a emergência de um conceito de gênero marcado pela performatividade (Butler) e encontro-o na obra de Francisco Camacho, em Nossa Senhora das Flores, 1993, primeiro marco da performatividade de gênero em Portugal antecedendo os usos acadêmicos do conceito. Assim, poderíamos pensar que o gênero em Portugal se dançou primeiro e se pensou depois”, defende o pesquisador.

A intervenção de Tiago Sant’Ana segue na mesma proposta e recebeu um provocativo título: O queer foge do sul-sudeste: uma interpretação peba, anti-oficial, indisciplinada e desautorizada da genealogia do queer no Brasil. “A apresentação investiga as genealogias do queer no Brasil. Recusando uma historiografia oficial, a proposta é lançar um olhar a partir de uma mirada duplamente excêntrica: uma ao recusar o que se convencionou como o centro produtor dos estudos queer no Brasil (sul-sudeste) e outra que questiona a supremacia de uma linguagem textual-científica para entender e historicizar a perspectiva queer no país”, conta ele. Nesse sentido, continua, a ideia é pensar como a arte vem sendo utilizada como linguagem de um ativismo de dissidência sexual e de gênero antes mesmo do surgimento do que viria a ser chamado de queer. “Dito de outro modo, a proposta é estranhar a historiografia da perspectiva queer no Brasil”, diz.

Já em (Des)construindo performances: o feminino como sujeito na Pornografia Feminista, Thais Faria analisará a Pornografia Feminista como uma prática e um instrumento político que movimenta a estrutura e o imaginário hierárquico e normativo diante da sexualidade feminina. “A proposta é que a Pornografia Feminista tem a potência de desmitificar os padrões culturalmente sedimentados, tentando borrar os limites de existência colocados na nossa sociedade para que a diferença se converta em discurso de poder e empoderamento das sujeitas através da movimentação e intersecção das categorias sexo, sexualidade, gênero, etnia, corporeidade, classe social e colonialidade”, explica.

A entrada é gratuita, sem necessidade de inscrição prévia. Participantes receberão certificados.

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17 Maio 2016 In Notícias

 

Matheus Araujo dos Santos - doutorando pela ECO-UFRJ e integrante do CUS

A palavra queer, de origem inglesa, designa o que é estranho, exótico, raro. Desde o século XX ela passa a ser usada como ofensa contra dissidentes sexuais; sapatonas, travestis, viados e outros sujeitos que apresentem alguma ameaça ao regime sexopolítico vigente.

A partir do final dos anos 80 e início dos 90, nos Estados Unidos, o termo aglutina uma série de práticas estéticas, políticas e teóricas que apostam na positivação da injúria. O monstruoso e o abjeto passam a ser local de afirmação e de produção de novas estratégias de luta. O corpo é, então, entendido como arma contra os modelos heteronormativos que esmagam as existências anormais.

A crítica queer incide sobre as construções binárias de gênero e as formações identitárias monolíticas. Pensar em uma Arte Queer no contexto brasileiro exige um esforço de deslocamento do termo e o questionamento das reais potências de tal categorização. Neste texto, proponho três sugestões para uma aproximação queer das artes por aqui produzidas e descrevo alguns trabalhos artísticos que acredito levantarem a questão de forma potente.

I - Se quisermos nos aproximar das artes através de uma perspectiva queer não devemos seguir nenhuma espécie de cânone.

Não há possibilidade de uma História Oficial. O queer surge nas fraturas nos sistemas e nos gestos que atentam contra o normal. A adesão a linhagens canônicas seria um erro na medida em que produziríamos outra vez hierarquias e graus de importância, criando novamente um centro legítimo e suas margens não-autorizadas.

Pensar as artes brasileiras através de uma perspectiva queer não significa, portanto, o mesmo que pensar em uma Arte Queer Nacional, pois isso conduziria à produção de nichos que serviriam apenas ao mercado e às transações financeiras no campo das artes. Estaríamos produzindo outra normalidade, como afirma Helder Thiago Maia ao discutir as possibilidades de uma literatura queer em seu livro Devir Darkroom (2014).

Não existe arte queer em si; queer é sempre uma relação que não pode ser reduzida a um conjunto de obras ou de artistas, mas depende diretamente das possíveis fissuras causadas por gestos artísticos em determinado contexto econômico, político, sexual etc.

Partir de uma perspectiva queer significa dar atenção aos momentos nos quais essas práticas perturbam os discursos hegemônicos sobre gênero e sexualidade. Mas não só. Os gestos queer tendem também a uma quebra na estabilidade da própria forma, dirigindo-se não apenas a questionamentos temáticos, mas problematizando o próprio fazer artístico.

Na década de 70, sob o regime da ditadura militar no país, os Dzi Croquettes confundiam espectadores e agentes da repressão com seus corpos híbridos e discursos afiados. “Não somos homens. Não somos mulheres. Somos gente como vocês”, diziam com um sarcasmo provocador de um riso muitas vezes confuso. As rigorosas técnicas de dança e encenação da Broadway serviam a mais profana celebração dionisíaca. As suas existências ameaçavam o sistema político e a ordem sexual, visto que o modo de vida Dzi ultrapassava as apresentações no palco e formava redes políticas e afetivas reais em um cenário de tomada militar. O mesmo pode ser dito do Vivencial, grupo de teatro Olindense que no mesmo período investia na criação coletiva e na irreverência como estratégia de transgressão.

Ainda que uma perspectiva queer (hoje profusa em aparatos teóricos) nos evidencie as rupturas na ordem sexopolítica causada pelos grupos, categorizá-los como Arte Queer seria abrir mão do que neles há de mais potente; o questionamento de identidades fixas que limitam as possibilidades de experienciação e intervenção no mundo.

O queer -como se dá a conhecer enquanto paradigma estético, teórico e político- emerge cerca de duas décadas após as ações do Dzi e do Vivencial. Aceitá-lo como molde interpretativo estanque das poéticas desenvolvidas no Brasil e na América Latina, seja no passado ou no presente, parece pouco potente tendo em vista o nosso contexto marcado pela colonização, exploração escravagista e processos de miscigenação amparados por projetos estatais de embraquecimento. O quadro geopolítico brasileiro é formado por uma série de questões às quais o queer não pode passar imune.

II - O queer deve ser deformado pelo contexto geopolítico do Brasil

A difícil tradução da palavra para línguas latinas denota o problema do seu uso na conjuntura sul-americana. Parte dxs ativistas, teóricxs e artistas já se deram conta disso. Outra parte parece reproduzir a tentativa de transformar o queer em uma identidade entre tantas outras, prontas para a venda e o consumo. Processo que pode lhes garantir um espaço reservado em instâncias como a Academia e o Museu; Teoria Queer, Arte Queer, Shopping Queer...

Assumir a existência de uma Arte Queer Brasileira sem nenhuma reflexão sobre como determinados saberes e práticas nos são impostos é, para além de estar a serviço das forças capitalistas, continuar a reproduzir o processo de genocídio epistemológico ao qual fomos submetidos desde as invasões européias.

Em um show em Salvador, em 2008, Pêdra Costa, a frente da banda Solange Tô Aberta!, tira um terço do cu enquanto canta ao som do batidão do funk. Com tanga, cocar, cílios postiços e o corpo raspado pela metade, Pêdra, ao lado de Paulo Belzebitchy, que fazia parte do projeto na época, canta letras com conteúdo político explícito: “Homossexual é uma categoria/ inventada no século 19/ Antes era putaria, sacanagem e vê se fode!/ Sodomia era o nome/ Da bendita doação/ Era, era tão sagrado/ Dar o cu por diversão!”.

Hija de Perra, artista e ativista chilena, deixa como seu principal legado a crítica incisiva à dominação dos nossos desejos pelos processos de colonização dos quais somos resultado. Não haveria, por aqui, outras configurações corporais, desejantes e sexuais antes que os povos originários fossem submetidos aos valores culturais europeus?

Ao tirar o terço do cu, Pêdra parece reivindicar estas questões. O terço cagado é consequência de um processo antropofágico atento aos excrementos que produz. É preciso deformar o queer. “Diga ‘queer’ com a língua para fora”, sugere o ativista Felipe Rivas: Cuír... Quier... Kuir...

III - Práticas kuir são práticas marginais.

Em 2014 na cidade de Rio das Ostras/RJ, a artista Raíssa Vitral enfia uma bandeira do Brasil na buceta, que depois é costurada pelos lábios, aprisionando em um gesto violento o símbolo da pátria. A ação do Coletivo Coiote provoca horror em muitos que a assistem. No dia seguinte o jornal O Globo publica uma matéria cujo título inquire: “Performance ou Crime?”. Em seguida o aparelho judicial é acionado na tentativa de condenação do que por muitos foi entendido como um ritual satânico. Na internet chovem bravatas. A artista tem sua imagem e endereço divulgados e é ameaçada de morte.

O kuir é o crime. É o atentado violento que revela as estruturas de opressão, explicitando quais corpos são perseguidos, violados e exterminados em uma sociedade guiada pelo machismo, a heteronormatividade e o racismo.

O kuir é o marginal; mendigx, puta, drogadx, menor, assaltante, assassinx, índix, travesti, pretx, punk, imigrante ilegal. As práticas artísticas guiadas por uma perspectiva kuir devem estar conectadas a toda essa rede non grata.

Em 2015, em Veneza, x artista Jota Mombaça demarca em um mapa mundi as fronteiras do Brasil, Estados Unidos e Europa. Com o próprio sangue estabelece os limites territoriais e escreve em letras garrafais THE COLONIAL WOUND STILL HURTS (A FERIDA COLONIAL AINDA DÓI). Não há possibilidade de paz. 

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16 Maio 2016 In Notícias

 

O grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS) realiza nesta terça-feira, 17 de maio, Dia Mundial de Combate à Homofobia, uma homenagem ao escritor Caio Fernando Abreu (foto). A atividade 20 anos sem Caio Fernando Abreu irá ocorrer às 17h no auditório do Pavilhão de Aulas Glauber Rocha (PAF 3), campus de Ondina, e contará com uma mesa-redonda, a leitura dramática de uma nova peça teatral de Djalma Thürler e a exibição de filmes de curta-metragem inspirados nas obras de Caio.

A mesa redonda será composta pelos professores Alexandre Nunes (UFCA) e Paulo Garcia (UNEB). Alexandre apresentará fragmentos dos contextos políticos e suas reverberações tanto na escrita ficcional como na produção jornalística do autor gaúcho. “Vou abordar aspectos do Caio F. no desbunde experimental, o Caio dark pós-Lennon e o Caio jardineiro pós-AIDS”, disse ele. Já Paulo vai enfatizar que a obra de Caio Abreu produz algumas formas de subjetividades dilatadas. “A leitura que viso para o teatro do autor busca expressar personagens que estão situadas na contraface da normatividade de gênero e na reivindicação de identidades sexuais”, explicou.

Logo após a mesa redonda, Djalma Thürler fará uma leitura dramática de um texto de sua autoria que estreia em setembro, com a ATeliê voaOR Companhia de Teatro. “Hay cuerpos que no deben repertise em la aurora” retrata o universo amoroso em Caio F.

Depois da leitura dramática, serão exibidos três curtas metragens baseados na obra de Caio: Morangos mofados, Sargento Garcia e Dama da noite. Para saber quem foi Caio, clique em http://www.caiofernandoabreu.com/

A homenagem a Caio Fernando Abreu faz parte das atividades do CUS no Maio da Diversidade. Outras duas atividades também estão previstas para esta semana. No dia 18, na sala 106 do PAF5, às 18h, ocorre um debate sobre cisgeneridade com a pesquisadora e ativista Viviane Vergueiro.

Já no dia 19, às 17h, na sala 303 do PAF4, será realizada uma roda de discussão sobre ativismos da monogamia compulsória, com Mônica Barbosa, autora do livro Poliamor e Relações Livres: do amor à militância contra a monogamia compulsória.

Para finalizar, no dia 24 de maio, às 17h, no auditório 1 do PAF 5, a mesa redonda intitulada Genealogias excêntricas: artes queerfeministatrans e conhecimentos dessubjugados, com João Manuel de Oliveira (Portugal), Tiago Sant´Ana e Thaís Faria.

A entrada para todas atividades e gratuita, sem necessidade de inscrição prévia. Participantes receberão certificados.

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06 Maio 2016 In Notícias

 

Claudenilson Dias

 

A Assembleia Legislativa da Bahia, sob a presidência do deputado Marcelo Nilo (PDT), aprovou o projeto de lei 21.625, o Plano Estadual de Educação para os próximos 10 anos. O PEE foi construído a partir do diálogo das comissões permanentes de Direitos Humanos, Mulheres e da Igualdade Racial com os movimentos sociais diretamente atingidos pelas discriminações e violências.

O plano, em sua versão inicial, tinha a perspectiva de pautar as questões ligadas às relações de gênero, das sexualidades, as étnico-raciais e da pluralidade religiosa. Entretanto, por conter, em seu texto base, menções a esses marcadores sociais das diferenças, causou uma reação política de parlamentares fundamentalistas religiosos. E isso provocou um “acordo” excludente, uma artimanha política (bem parecida com as maracutaias políticas vindas de Brasília). Com isso, uma emenda, apresentada após a suspenção da sessão da Comissão Especial de Direitos Humanos, sem a participação da comissão de Mulheres, retirou as menções aos marcadores sociais, que foram substituídos pelo termo diversidade. Mas nossas políticas de educação já não são pensadas dessa forma? As populações LGBT’s não continuam sendo hostilizadas nos espaços escolares? E onde estão as pessoas trans* nessa história que não consigo encontrá-las nos corredores escolares e nas salas de aula?

Se, por um lado, tal emenda nos permite contemplar o PEE sem as mãos sujas de um manipulador de massas, nos vemos diante de um quadro muito simples e evidente: o da completa falta de interesse da “Casa do Povo” em peitar, efetivamente, as pautas em questão. O que se pôde presenciar na AL-BA foi um grande quantitativo de militantes, estudiosas/os, pesquisadoras/es e estudantes secundaristas reivindicando suas pautas àqueles que foram eleitos para representar segmentos sociais.

Sob a defesa de que a diversidade daria conta de todas as demandas sociais, considero, particularmente, um retrocesso não ver um plano construído em conjunto com a sociedade civil organizada ser efetivamente aprovado. Lembro aqui do quanto o Governo Federal permitiu retrocessos como esse quando vetou o “Programa Escola Sem Homofobia”, pejorativamente apelidado de Kit-Gay, que buscava contrapor as ações de violação dos direitos das populações LGBT’s no âmbito das escolas. Isso ocorreu sob a égide desse mesmo discurso fundado numa verdade de família permitido por alianças que levaram o governo ao lugar que hoje ocupa. Acredito que nem eles mesmo creiam nessa configuração familiar que, conforme o berro deles da AL-BA, venceu.

Sou negro e vejo, na periferia de Salvador, a guerra armada contra nós (meninxs negrxs afeminadxs) e segurança pública, que deveria nos defender [que doce utopia], não o faz. Pelo contrário, na última quarta, o que vimos foi a segurança privilegiar o coleguinha de profissão com a desculpa esfarrapada de que estavam tentando contemplar os dois públicos. Ora, se queriam o privilégio de ocupar as galerias da AL-BA que chegassem às 11h como eu e muitos afetos fizeram. E olha que a AL-BA tem uma regra para a ocupação da galeria, hein?! 

Sou “viado”, como fomos chamadas/os pelo elenco de um teatro fundamentalista armado por #aquelequenãodevesernomeado. Fui inclusive convidado a me converter com a célebre frase: “Ah que desperdício! Se eu tivesse um desse lá em casa!” Gente, olha só. Se as “irmãs” (dele) me desejam, por que eu não posso beijar quem eu quiser? Ah! Estou começando a entender. Meu corpo negro pode ser objeto de desejo dela, mas eu não posso ter desejos distintos dos dela!

A mesma irmã falava que as “escolhas sexuais” devem ser feitas por pessoas adultas e não por crianças, se referindo ao modo como as construções de gênero seriam perniciosas para suas crianças, uma vez que, na concepção dela, “escola não é lugar para isso!”. Essa visão deturpada nasce a partir de discursos de ódio das mentalidades assombradas que os líderes dela ajudam a edificar. Logo, entendendo que os conceitos de gênero, sexualidades, raça/etnia e religiosidades poderiam ensinar a essas pessoas o quanto elas são constituídas por diversos sistemas de ideias. Dentre eles, a tão combatida “ideologia de gênero”, que só serve de âncora para defesas equivocadas de um formato de família extremamente falido.

Retruco: lugar de que, fia!? Escola é lugar para todas as pessoas. Se não o fosse, o Estado não elegeria essa instituição para, em parceria com as famílias, promover modificações sociais. O meu entendimento é de que um dos papéis fundamentais da escola ainda é o de educar, efetivamente, e não ensinar a fazer sexo, como eles têm defendido de modo equivocado, tampouco a orar.  

Sou de Candomblé, essa é a forma como eu expresso a minha fé e um modo de socializar, respeitar e organizar pautas de gênero e sexualidade. O nosso espaço é aberto a todas/os que queiram propor novos modos de perceber a sociedade em que vivemos. Sinceramente, não concebo a ideia de fundamentalistas falarem em nome de outros segmentos religiosos e vi isso na Assembleia: #aquelequenãodevesernomeado falou em nome das religiões de matrizes africanas! Uma lástima, uma vez que aquele que fala busca relacionar as divindades da minha religiosidade ao demônio cristão, criado e utilizado para punir aos manobrados convertidos pelos seus discursos de ódio. Mas esse episódio se deu muito pela desmobilização do povo de Candomblé que, mesmo estando convidadas/os a compor uma frente de enfrentamento, se refutou a participar. Uma pena!

Sou estudante do Programa de Pós-Graduação de Estudos Interdisciplinares em Mulheres, Gênero e Feminismo - PPGNEIM, curso filiado ao Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher – NEIM e pesquisador do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade – CUS (UFBA), instituições que pautam a dimensão de gênero como um conceito sócio histórico e em modificação, em razão da perspectiva multifacetada que essa categoria analítica tem. Gênero é caro para nós feministas e ligadas/os às perspectivas (des)viadas/queer por conta dos processos de opressão que encontramos no nosso dia-a-dia, em função das estatísticas de mortes atualizadas a cada dois minutos, de mulheres e LGBT’s. Ou seja, não pensamos gênero como essa “ideologia de gênero” apontada por ignorantes do assunto que, por sinal, a constituíram para colocar os insurgentes no seu devido lugar. Mas, se ligue: o nosso lugar quem determina somos nós!

Somos todxs militantes e insurgentes mesmo. Viado, Bi, Trava, Trans*, Sapatão  buscando a revolução e, justo por isso, não nos representamos no modo como alguns parlamentares (ou moleques) se portam na dita “Casa do Povo”, fazendo leitura bíblica e culto ao invés de uma leitura e boa interpretação da Constituição Federal, demonstrando falta de embasamento teórico-político para tratar de questões diversas, mantendo conversas paralelas em meio à plenária, sobretudo no momento de fala das guerreiras que apontavam os equívocos daquela casa. Sem contar as ameaças, do presidente da sessão, de demitir qualquer funcionária/o que se posicionasse contra a Casa e mais ameaças direcionadas aos movimentos sociais – que seriam postos para fora - por se posicionarem contra as politicagens ali vistas. Atitudes repudiáveis e de nenhum prestígio dos que foram eleitos para representar o povo.

Mesmo sabendo da laicidade do Estado, é importante rememorar que a educação não deve passar por nenhum caminho orientador religioso. No que se refere ao debate racial, a Lei 10.639 pode ainda não ser efetiva em todo o país, justamente, pelo confronto diário a que professoras/es estão submetidas/os. Logo, faltam oportunidades eficazes de implementação. Para o campo das sexualidades e dos gêneros, assim como os demais, devemos pensar em estratégias de enfrentamento aos retrocessos políticos. Desse modo, a educação que queremos é aquela que inclua a todos os corpos, indistintamente.  

Pautar orçamentos, políticas públicas, formação continuada – inclusive para os deputados baianos que desvirtuam uma discussão histórica sem ao menos conhecer/compreender –, pode ser o caminho para pensar conjuntamente esses segmentos sociais. E não menos importante, precisamos, com máxima urgência, buscar caminhos para ocupar os espaços de decisão política, quer seja nos envolvendo politicamente com nossas histórias, quer seja aprendendo a eleger nossas representações. Por fim, para nos educar, precisamos de educadoras/es preparadas/os e abertas/os às transformações sociais vividas por todas/os as/os brasileiras/os. A educação pretendida não é, de forma alguma, voltada para ideologia a, b ou c, mas uma educação que consista em conquistas fundamentais para a avanço de todas as pessoas, sejam elas quais forem e, claro, sem retroceder nem um passo como vem acontecendo por todo o país.  

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