Políticas do CUS

Iracema/ Séc. XIX (1881) óleo s/ tela, José Maria de Medeiros. Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

 

Samuel Macêdo do Nascimento – mestrando em Cultura e Sociedade e integrante do CUS

 

O que é o Ceará? Um estado contraditório e diverso assim como qualquer estado brasileiro. Começa-se pelo sotaque. No sul, na região do Cariri Cearense, se fala de uma forma que se aproxima mais do Pernambuco e da Paraíba. Na capital, Fortaleza, se fala com o sotaque que se assemelha com o de uma parte do Piauí. Bem, o mesmo vale para a diversidade de gênero, sexual e, consequentemente, cultural.

Sempre houveram focos de resistência na terra da índia Iracema e dos coronéis das primeiras famílias do estado. A própria família do escritor José de Alencar, a família Alencar, que teve uma matriarca como líder e tendo sido primeira prisioneira política da história do país, foi responsável por colonizar as terras do sul cearense. Bárbara de Alencar, a dama de ferro. A resistência das mulheres sempre esteve presente nos sertões do nordeste.

Era uma prática comum fugir com o pretendente que a família não aceitasse. Claro que muitas mulheres que ousavam “desonrar” o nome de suas famílias tinham que viver em outras cidades, em outros estados ou eram aprisionadas. Mas muitas fugiam e desafiam as regras e tradições de suas famílias católicas. “Oiê muié rendeira”. Segundo a canção, as rendeiras seduziam os antigos cangaceiros e segundo os relatos muitas moças precisavam ficar presas convivendo apenas com suas famílias até deixarem suas casas e constituírem seus lares para que não fugissem com eles, os cangaceiros foras de lei.

Mulheres inconformadas com os protocolos de suas famílias, especialmente dos seus pais, avós e irmãos, não podem ser esquecidas. Muitas casavam sabendo que podiam ser assassinadas pelos seus maridos caso tivessem relacionamentos extraconjugais. Os homens tinham direito sobre suas vidas e algumas poucas mulheres casadas conseguiram rasurar a honra dos seus maridos e paisagens. Uma parte das famílias cearenses migravam com as secas, mas muitas ficavam e continuavam suas trajetórias nas mesmas cidades que nasceram. Alguns davam um jeito de burlar a ordem, ainda que de forma oculta: homens solteiros que nunca se casaram e viviam na eterna companhia de seus pais; ou mulheres solteiras que também acabaram ficando em casa e tornaram-se mais influentes que muitos homens de suas famílias. Não podemos nomeá-los de homossexuais ou gays e nem ignorar a potência dos desejos inconformados escondidos nas pequenas cidades do interior e nos oitões das zonas rurais.

Saullo Berck, da cidade de Barbalha (Cariri Cearense), ganhou fama nacional por dançar com seus sapatos de tijolos e construir sua própria indumentária queer a partir de plantas, tecidos e outros tantos materiais (ver aqui). Ao longo do tempo acabei conhecendo alguns relatos de pessoas que se mataram no passado por serem afeminadas ou consideradas pessoas “estranhas”. Uma das minhas bisavós se matou enforcada na década de 30 do século passado e deixou sua filha única de apenas doze anos de idade. Minha avó contava que ela era uma mulher ciumenta e era atormentada pelas traições do marido que passava dias fora de casa.

A minha outra bisavó, filha de coronel, se casou no fim do século XIX com apenas treze anos na mesma semana em que o pai morreu. Ela era apaixonada por um primo com o qual o pai jamais permitiria o casamento. Ela própria contava que desobedecera o próprio Padre Cícero, que era padrinho de batismo de uma de suas irmãs, para se casar com esse primo que tinha fama de mimado por ter sido criado pelos avós. Maria Isabel de Santana, filha do major Antonio Francisco da Santa Tereza (cidade de Barbalha), desafiou as ordens do seu falecido pai, ainda que isso tenha a levado para surpresas e dificuldades ao longo dos seus 96 anos de vida.

Os silêncios e a falta de divulgação das histórias resistentes nos fazem acreditar que “no Ceará não tem disso não”, como reforça a música homônima de Luiz Gonzaga. Fantasmas sempre ressurgem para atormentar supostas naturalidades. Travestis fazem a diversão das noites dos romeiros do Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Mulheres continuam burlando as regras de suas famílias ainda que paguem com suas próprias vidas o desejo pela liberdade. Homens afeminados continuam desarmonizando o modelo supostamente cristalizado das suas famílias.

Assim como a personagem Iracema, a índia que cumpria os seus desejos e vontades, muitas pessoas do Ceará usaram e continuam usando seus corpos para transpor as correntes que fechavam os caminhos. Não podemos julgar o modo como cada um desenvolvia essa transgressão e colocá-la como máxima ou mínima. Algumas mulheres fugiam, mas acabavam reproduzindo o mesmo modelo de família tradicional e seus maridos geralmente as controlavam. Homens afeminados também casavam e acabavam tornando-se homens de importância, políticos ou outros cargos de poder, que oprimiam outros. A minoria – segundo relatos – continuava com sua potência de deslocamento da cena da tradição. Ao trazer conceitos de Lacan e Julia Kristeva, especialmente em sua obra “Problemas de Gênero”, Judith Butler conclui: “Se a subversão for possível, será uma subversão a partir de dentro dos termos da lei, por meio das possibilidades que surgem quando ela se vira contra a si mesma e gera metamorfoses inesperadas” (p.139, 2003).

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