Políticas do CUS

 

Simone Brandão - Professora Assistente da UFRB, Doutoranda do Programa Multidisciplinar de Pós Graduação em Cultura e Sociedade/UFBA, Pesquisadora do CUS/UFBA.

Há 18 anos, no I Seminário Nacional de Lésbicas, realizado no Rio de Janeiro, ativistas estabeleceram a data de 29 de agosto como o Dia da Visibilidade Lésbica. Um dia para tornarem-se visíveis e paradoxalmente lembrar a invisibilidade vivida por mulheres lésbicas na sociedade, mas também para rememorar a violência lesbofóbica a que estão submetidas diariamente e, principalmente, reafirmar sua existência e diferença.

Para pensarmos a extensão dessa invisibilidade que tratamos, podemos inicialmente focar nossa reflexão na construção discursiva sobre a existência lésbica. Dentro dos campos de gêneros e sexualidades, por exemplo, uma grande dificuldade para as pessoas estudiosas da lesbianidade é a produção acadêmica, ainda restrita, sobre a temática. Penso que um dos fatores determinantes para a existência escassa de trabalhos nessa área é o fato de que durante um longo período a lesbianidade foi tratada como um apêndice da homossexualidade gay, um seu quase sinônimo, o que significa dizer que os estudos discutiam as homossexualidades de forma quase que homogênea, gerando, de acordo com Rich (2010) e Swain (2004), um apagamento da existência lésbica na academia.

Esse fator contribuiu para conferir, portanto, invisibilidade à lesbianidade e, por conseguinte, promoveu pouca produção sobre o tema, além de ter favorecido a publicação de trabalhos que tratam dessa experiência de forma enviesada, na medida em que falam a partir de um olhar masculino que se faz presente na maioria das produções sobre as homossexualidades e que não capturam as especificidades do universo lésbico.

Foi somente após a década de 1970, com o surgimento de ONGs de lésbicas, que se iniciou o processo afirmativo da identidade lésbica, intensificando-se na década de 1990 e contribuindo para um crescimento nas produções sobre lesbianidade que falam a partir do e sobre o universo lésbico. Esse processo também vem se dando com o movimento trans, na medida em que se percebe a necessidade de se discutir políticas e produzir conhecimento considerando também as peculiaridades de cada grupo.

Podemos afirmar, portanto, que historicamente esse incremento nos trabalhos acadêmicos sobre a lesbianidade possui nexo com a autonomização do movimento lésbico em relação ao movimento homossexual ou da identidade lésbica em relação às outras identidades políticas.

Não queremos com essas observações essencializar as identidades ou afirmar nenhuma supremacia da produção endógena lésbica, nem deixar de considerar a pluralidade de experiências dos grupos identitários, mas importa-nos situar a necessidade de se tratar a lesbianidade a partir de um olhar não impregnado de valores e cultura masculina, colonizado, que atravessa as publicações sobre as homossexualidades de uma forma geral, reproduzindo especificidades do universo gay sem dar visibilidade às peculiaridades do mundo lésbico.

Essa crítica não é inédita, pelo contrário, ela foi um dos motes centrais da autonomização dos movimentos lésbicos em relação aos movimentos gays, expressos inclusive em peças de divulgação, como a frase impressa no postal da ONG Nuances (Grupo Pela Livre Orientação Sexual), do Rio Grande dos Sul, e reproduzida em artigo de Almeida (2008): “Não somos meninas gueis, somos lésbicas”.

Então é importante que as produções sobre lesbianidade sejam pensadas não a partir de um discurso que constrói e significa o universo masculino, que, por sua vez, também permeia grande parte das produções sobre a homossexualidade gay, mas que sejam frutos de uma postura crítica e questionadora sobre a heterocentricidade, e da identificação entre mulheres (Rich, 2010) e não destas com o universo heterossexual normalizador, hierárquico e classificatório.

O risco, portanto, é o de, como acontece com a produção literária e acadêmica feminista sobre a lesbianidade, se ter por referência central o homem, reproduzindo a normalidade das relações heterossexuais e reforçando assim a heterossexualidade como uma instituição política que desempodera as lésbicas, posto que, na perspectiva da heterocentricidade, as lésbicas possuem o lugar da subalternidade (Rich, 2010).

O que queremos chamar a atenção, como ponto de partida da reflexão que aqui propomos, é a importância de conferir à discussão sobre lesbianidade um olhar menos impregnado da perspectiva gay-masculina-patriarcal. Pelo risco mesmo de ser uma perspectiva alicerçada em valores masculinos e que invisibilizam nuances próprias da lesbianidade, Invisibilizando assim as lésbicas dentro do próprio universo LGBTT.

Este seria então um primeiro ponto, a meu ver potente, a se investir na busca por se promover a visibilidade lésbica na medida em que tal conhecimento passa a ser produzido a partir de um discurso próprio do universo lésbico, capaz de empoderar sexualidades dissidentes do mundo de dominação masculina (Bourdieu, 2003, p.18).

É nesse mundo masculino-branco-heterossexual-cristão, em que a discriminação, o preconceito e a violência se expressam em práticas cotidianas fundamentadas em valores e entendimentos enviesados sobre a diversidade sexual, que se naturaliza a heterossexualidade, como se essa fosse a única, possível, correta e normal expressão da sexualidade e como se todas as pessoas nascessem a ela designadas. É, pois, essa heterossexualidade naturalizada que violenta e invisibiliza a lesbianidade.

E estar invisível, em qualquer lugar ou situação, significa não ter, na sociedade, um sentido ou uma função reconhecida. Representa não se enquadrar nas normatizações pré-estabelecidas socialmente, o que poder expressar, a depender do rigor dessa normatização, ser uma abjeção perturbadora da ordem estabelecida, o que justificaria, para essa moral, ações abomináveis e violentas como o estupro corretivo, praticado contra lésbicas.

Assim, a quem está invisível só é permitido ver, mas não tomar partido do mundo ou mesmo decidir, participar, se empoderar. Resta às pessoas invisibilizadas a exclusão, a submissão. Esta é a realidade da maioria das lésbicas em nossa sociedade: invisibilidade provocada por negação dessas existências desde a família até as demais instituições presentes na sociedade.

E o que rege tais relações? É a moralidade, que desnaturaliza as sexualidades dissidentes a partir da noção cristocêntrica do pecado, naturalizando a heterossexualidade e considerando abjetas as demais expressões da sexualidade e de identidades de gênero. Dentro dessa lógica, as instituições tendem a garantir a emergência apenas de comportamentos sexuais considerados adequados para o padrão heteronormativo, qual seja homem X mulher. As sexualidades que se inscrevem fora dessa norma são consideradas desviantes e são reprimidas pois contrariam o discurso dominante.

Toda essa análise reforça a necessidade da capacidade de agência das lésbicas ou das demais sexualidades não normativas, para transgredir o jugo disciplinador imposto. Para tanto é preciso se ter uma leitura do discurso dominante e se tornar potência para desestabilizá-lo, desconstruí-lo e desconstruir não é simplesmente destruir mas ler o discurso em outras bases. Nesse sentido, a construção de um conhecimento que empodere as lésbicas e também a promoção de sua visibilidade se constituem em estratégias fundamentais para enfrentar a invisibilidade perversa que, presente na lesbofobia, impede a liberdade no desenvolvimento das sexualidades e subjetividades lésbicas, além da construção do respeito à lesbianidade e a efetivação dos direitos correlatos.

Então, vamos tirar o preconceito e o moralismo do caminho e lesbianizar sem pudor!

Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, Gláucia; HEILBORN, Maria Luiza. Não somos mulheres gays: identidade lésbica na visão de ativistas brasileiras. Gênero, Niterói, v. 9, n. 1, p. 225-249, 2. sem. 2008.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
RICH, Adrienne. “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”. In: Bagoas, revista de estudos gays. Natal, EDFRN, volume 4, número 5, jan/jun de 2010, p. 17 a 44.
SWAIN, Tânia Navarro. O que é lesbianismo. São Paulo: Brasiliense, 2004.

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Farei, neste texto um pouco longo, algumas reflexões sobre as masculinidades femininas e peço à leitora e ao leitor de nosso blog que me acompanhe, sobretudo na parte inicial em que dialogo com um importante autor dessa área de estudos.

Tecerei comentários de inspiração culturalista, que pretendem mobilizar um referencial crítico vinculado aos estudos queer, e tal procedimento não pode querer detectar o início de algo, já que o próprio momento do início foi arruinado pela história, não lhe sendo possível ser recuperado como totalidade, mas sim reconstituído, e nesse mesmo momento, criado pelo estudioso/a que a esse trabalho se dedica. Ressalva feita para aqueles/as que pretendiam encontrar aqui uma etimologia da palavra goby.

Capa do livro "Female Masculinity", dx pesquisadorx J. Halberstam

Essa foi a reflexão que me ocorreu após ser indagado sobre a origem da palavra goby por uma companheira do movimento LGBT da cidade de Vitória da Conquista/BA. Vale dizer que eu não conhecia essa palavra antes de chegar à Bahia, talvez um indício de que tal vocábulo, que já tomei como pertencente ao repertório pajubá (para saber mais sobre o pajubá, clique aqui), possivelmente tem uma localização geográfica baiana; e foi por uma dessas coincidências da vida, já que tenho por sentado que a vida não passa de contingências, tropeços e encontros malucos, que, nesse ínterim, enquanto era provocado a escrever sobre a palavra goby, estava lendo dois capítulos do livro Masculinidad femenina (título em espanhol), do pesquisador J. Jack Halberstam (nesse livro, ele ainda assinava como Judith Halberstam), em especial o primeiro capítulo, que trata exatamente de introduzir os argumentos do autor no que se refere à possibilidade de a masculinidade existir – ou nos termos de Judith Butler, ser performada, a despeito do corpo do homem (o bio-homem, com pênis).

Esse pesquisador vai afirmar, com o auxílio de alguns estudos disparadores sobre masculinidade vivenciada por mulheres, que, no filme “007 contra Goldeneye” – e poderíamos estender o exemplo para todos os filmes da franquia –, a masculinidade do agente Bond, o protagonista da saga, não tem nada de concreta em si mesma, estando dependente, a todo o momento, de acessórios, ou próteses de masculinidade: talvez um relógio que dispara raios laser, um paletó blindado, um cadarço letal etc. Halberstam demonstra, de maneira convincente, que Bond termina por se apresentar como “uma paródia ou uma revelação da norma”, e que quem consegue interpretar a masculinidade de uma forma mais contundente é a personagem “M”, a chefe mandona que “encabeça” – uma cara palavra do repertório patriarcal, as missões do agente (lembrem-se, por exemplo, do discurso religioso que afirma ser o homem “o cabeça” da mulher).

Em seguida, Halberstam traz à tona o exemplo dos “chicazos”, palavra costumeiramente utilizada em contextos de fala espanhola, para designar “meninas ou adolescentes com características físicas e aspecto masculino, com um comportamento parecido ao dos meninos, ou que realiza atividades que se supõem próprias de meninos” (p. 27, a tradução é minha). Os “chicazos”, afirma, permitem que os modelos hegemônicos de masculinidade sejam postos sob suspeita, tensionando a normatividade de gênero, quer dizer, como devem ser os gêneros. E um parêntese é necessário.

Há uma tendência a crer que, em se comparando as meninas masculinas com os meninos femininos, aquelas seriam mais toleradas, já que características masculinas em corpos de mulheres são valorizadas. Por exemplo, uma mulher que seja decidida, forte, valente, qualidades comumente reputadas ao masculino, é desejável e socialmente valorizado. Contudo, Halberstam sustenta que é na adolescência que se dá, de forma mais pontual, posto que é nesse período da vida que se processa a puberdade, o policiamento de gênero, quando a menina-mulher precisa ser moldada, ensinada a desempenhar suas futuras tarefas como esposa e mãe, a cuidadora do lar, o lugar da família (e sobre isso, vale a leitura do texto de Fábio Fernandes). E aqui já vemos que a feminilidade nada tem de natural, mas sim é moldada, ensinada e reforçada durante esse período da vida (e não só durante a adolescência, pensem, por exemplo, nos reiterados discursos midiáticos que a indústria dos cosméticos faz com vistas a instituir um único modelo de mulher, aquela sempre bela e perfumada).

Jack Halberstam, professor e pesquisador queer

Não me interessa aqui apontar se são as meninas masculinas ou os meninos femininos quem mais desestabiliza a matriz de inteligibilidade dos gêneros e das sexualidades; vale dizer, entretanto, que em uma sociedade organizada a partir de relações em torno do falo, do poder e da autoridade do homem, calcada no patriarcalismo – e, como outro parêntese, a força do patriarca não diminuiu, como se vem alentando em alguns círculos dos movimentos sociais, antes ganhou novas máscaras, ou velhas máscaras novamente envernizadas –, meninos femininos são sobremaneira indesejáveis e problemáticos.

De qualquer maneira, “as sapatinhas” ou lekinhas, pra fazer uso de algumas expressões pertencentes ao repertório do pajubá, os “chicazos”, apontam não para um desejo de usurpar o poder reputado ao homem, tampouco para um símbolo de patologia, as “invertidas”, mas, antes, para outras possibilidades de masculinidades, descoladas do corpo do bio-homem, cuja maior potência reside na intervenção nos processos de outorgar um gênero a um corpo e, em última instância, apreender a humanidade de alguém, torná-la inteligível.

Essas observações sobre as lekinhas valem, também, para as mulheres masculinas, cuja visão em muitos círculos, infelizmente alguns deles gueis e lésbicos, é, ainda, hostilizada. E acerca disso vale a pena abrir um outro parêntese. O movimento feminista, por um largo tempo, visando a um integracionismo de pinta burguesa, rejeitou as mulheres masculinizadas, as machonas, caminhoneiras, scania etc. A rejeição se dava tanto por esse motivo, o da assimilação, o de uma maior aceitação das lésbicas na sociedade e do próprio movimento LGBT como um todo, quanto por um medo que os movimentos de lésbicas tinham de terem suas identidades sexuais associadas à doença, ao conceito de inversão, conceito cunhado no centro dos discursos médicos coincidentemente com o conceito de homossexualidade masculina no final do século XIX e início do século XX. Movimento similar ocorreu (ocorre ainda?) nos círculos de gueis visando exatamente a obter uma aceitabilidade mais ampliada da sociedade em relação às relações homossexuais.

O investimento em pautas como o casamento igualitário e a adoção de crianças por esse tipo de casal são disso indícios. Nessa perspectiva, é desejável que as lésbicas sejam femininas, se possível, super femininas, demonstrando para a normalidade sexual que a essência-mulher, o ser mulher, está no corpo a despeito da lesbianidade, e que os gays sejam masculinos, “homens de verdade”, preservando, também, o estatuto social do macho.

A masculinidade feminina, nesse sentido, irrompe como um turbilhão de águas para retirar a feminilidade e a masculinidade de “seus lugares”, indicando a possibilidade de um leque muito grande de maneiras de experienciar os gêneros (eis o som do leque: trah!). Halberstam mobiliza um repertório teórico de filiação pós-estrutural, com o qual me identifico, como apontei no início do texto, o qual nomeia a masculinidade do homem branco, burguês e heterossexual não como “hegemônica”, mas sim como “dominante”, e as masculinidades possíveis, como é o caso das masculinidades femininas, de “alternativas”. Nesse ponto, vale a pena explicar as tênues, mais importantes, diferenças entre esses termos.

As masculinidades femininas tomadas enquanto “alternativas” apontam, e aqui recorro a Foucault, para desenvolver o argumento, não para um desejo de tomar a masculinidade hegemônica para si, de reivindicá-la enquanto poder e privilégio, mas sim para proporem, com a força da performance, possibilidades outras, não cobiçando os privilégios de dominação próprios do patriarca. Perceber as mulheres masculinas, portanto, como pessoas desejosas do lugar do homem burguês e heterossexual é reduzir as masculinidades femininas a simples cópias, simulações, da masculinidade dominante. Essa masculinidade, a dominante, nada mais é do que exatamente um modelo dominante, cuja genealogia pode ser apontada na história, portanto, não tendo nada de natural ou legítimo. Se tem chão histórico, refuta-se a verdade metafísica.

Atriz Thammy Gretchen, que recentemente participou da novela "Salve Jorge", da Rede Globo

Feitas essas reflexões, o e a leitor/a deve estar pensando: e as goby? Bem, as pessoas que se identificam com essa palavra, uma categoria identitária, já que, como me narrou a companheira de Vitória da Conquista, parte do movimento reivindicou-se goby, demonstram muito mais o desejo de romperem as fronteiras das identidades políticas centradas no desejo e na prática sexual – a identidade lésbica, que apenas deflagarem a emergência de um novo movimento ou uma nova composição na sigla LGBT. As goby, como tenho observado em conversas com amigas que se identificam como lésbicas, e também a partir de rápida pesquisa na internet, sem ainda um rigor típico de uma pesquisa acadêmica, tem revelado que goby tem uma potência política muito interessante, e talvez mais agregadora, pois chama para si não apenas as mulheres lésbicas masculinas, mas também aquelas que, declaradamente heterossexuais, rejeitam a feminilidade enquanto intrínseca a seus “corpos biológicos”. Isso demonstra, portanto, que o gênero pode ser experienciado apesar do desejo e da prática sexual.

Se no caso da homossexualidade masculina o que está em xeque, enquanto violação da normatividade sexual, é mais uma questão de feminilidade, isto é, “pode até ser viado mas que seja homem!”, no que se refere às goby, o que se destaca é a masculinidade poder ser vivenciada para além da lesbianidade, o que desnaturaliza o “corpo biológico” da mulher da obrigatoriedade da feminilidade. É uma potência política fantástica essa a da goby! E aí provoco: poderiam os meninos gueis afeminados serem goby? Poderiam eles gozar da prerrogativa de, quando desejável, performarem a masculinidade, ou é a feminilidade uma obrigatoriedade em seus corpos?

Boas reflexões e um beijo bem masculino em todxs xs goby do Brasil!

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