Políticas do CUS

A homonormatividade não existe

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No último texto que postei aqui no blog, problematizei o uso equivocado do conceito de heteronormatividade, muitas vezes substituindo homofobia. Agora minha proposta é a de questionar o uso do conceito de homonormatividade. A ideia não é fazer um policiamento do que viria a ser um uso correto dos conceitos, mas porque acredito que esses usos problemáticos têm implicações políticas muito sérias e concretas, como pretendo demonstrar ao final deste texto.

 

Vou recuperar o conceito de heteronormatividade como: uma ordem social/sexual que convoca/impele todos os indivíduos a se comportarem como heterossexuais, ou melhor, com um suposto modelo “natural” da heterossexualidade, mantendo uma linearidade/binaridade entre sexo e gênero. O que chamamos de linearidade entre sexo e gênero nada mais é do que uma norma, exigida pela sociedade em geral, que determina: se você é identificado como tendo determinado sexo (órgão sexual) você é obrigado a ter determinado gênero que corresponda ao seu sexo.

Para que os indivíduos sejam interpelados pela heteronormatividade é preciso que esse modelo lhes confira privilégios ou benefícios, sendo: uma representação de gênero tida como natural e normal – e que, por conseguinte, produza exclusão, ou seja, empurre alguns sujeitos para o campo da anormalidade, da não humanidade ou, como ocorre frequentemente, os transforme em exóticos, objetos de estudos para serem explicados, dissecados pelo dito “saber científico”.

O que seria então a homonormatividade e quais seus efeitos? Seria um conceito oposto à heteronormatividade?

Não há um conceito fechado de homonormatividade, mas quem tem usado essa expressão/conceito, faz uma associação com um estilo de vida gay ou de uma suposta comunidade gay que privilegia determinados valores, tais como: a produção de um corpo “perfeito”, jovem e uma ideologia de consumo que atribui valor às marcas dos bens adquiridos. Dito de um outro modo, seria a forma como a comunidade homossexual exclui os próprios homossexuais que não se encaixam dentro desse perfil geracional, estético e de consumo.

Concordo que existe uma valorização ou até mesmo hipervalorização de determinados padrões corporais, e de uma busca permanente pela juventude, além de uma identidade cada vez mais marcada pelo consumo, associada ao bom gosto e ostentação, mas é coerente e correto que nomeemos esse fenômeno de homonormatividade, como já fizeram alguns estudiosos no Brasil?

Defendo aqui que, para que exista uma normatividade, é preciso que:

1)    Uma norma interpele os sujeitos, isto é, exerça alguma coerção sobre os indivíduos. A homonormatividade teria que interpelar todos os sujeitos a vivenciarem um ideal normativo comportamental homossexual, tendo práticas eróticas com o mesmo sexo ou não;

 

2)    Essa coerção opere pela concessão de benefícios e vantagens. Os indivíduos que organizassem suas vidas conforme esse modelo deveriam ser considerados mais normais, naturais e coerentes;

 

3)    Produza sujeitos excluídos de um campo de normalidade ou aceitabilidade.

Temos uma norma simbólica que confere um status de normalidade aos sujeitos homossexuais e, o contrário, aos sujeitos não-homossexuais? Que privilégios têm os sujeitos que vivenciam os seus gêneros em desconformidade com a linearidade do sexo/gênero? Que exclusão existe no campo da cultura aos sujeitos que não subvertem o sexo e gênero? O conceito de homonormatividade não atende esses critérios e, por isso, sugiro que o seu uso é inadequado, incorreto e inclusive nocivo para a produção do respeito à diversidade sexual e de gênero.

O conceito de homonormatividade aparece ligado com uma cultura ou comunidade homossexual e começa, de modo problemático, a supor que exista uma comunidade e/ou cultura que comungue de certos valores e ideais (jovialidade e consumo) e que ela não seja marcada pela diferença, fissuras e contradições, objeto de disputas e ressignificações.

E há como pensar que essa idealização e valorização da jovialidade e consumo, por exemplo, ocorra apenas nas homossexualidades? Pensar a valorização ou até mesmo a ditadura da beleza e jovialidade ou o status consumista como produto de uma vivência homossexual é desconsiderar um mercado voltado para o corpo que é cada vez mais apresentado como um estilo de vida, uma postergação da velhice e de uma cidadania que se opera cada vez mais pelo consumo também nas heterossexualidades. Ideal normativo que tem produzido, segundo especialistas, as anorexias, bulimias, e outros transtornos alimentares.

Outro problema: para que exista uma homonormatividade seria necessário que os sujeitos pudessem se desvincular da heteronormatividade ou das normas sociais, o que não é o caso. Em que contexto denominado de homonormativo os sujeitos são elogiados por não serem heterossexuais ou não construírem seus gêneros conforme o suposto modelo natural do sistema sexo/gênero?

Não há como estar fora das normas, pois o que nos dá o status de sujeito é justamente o ideal normativo. É através do campo simbólico da linguagem que somos alguma coisa em sexo e gênero e, assim, nos situamos sempre em relação às normas.

Nossas vivências reiteram as normas do modelo sexo/gênero. Nossas subversões questionam o modelo naturalizante mas não implanta uma nova ordem, faz no máximo fissuras no discurso heterocentrado,

Não significa dizer que somos determinados pela cultura normativa sem nenhuma possibilidade de escolhas, mas que nossa transgressão ocorre num campo limitado, um espaço que, por mais subversivo que seja, mantém vínculos com as normas. Se assim não for, não há sujeito, não há humanidade.

Uma das metáforas utilizadas pelxs teóricxs queer é que escolhemos as roupas que usamos a partir das peças disponíveis em nossa guarda-roupa, isto é, estamos limitados a um certo espaço, um território de ação. Nossas possibilidades de subversão são limitadas.

E se a homonormatividade pode ser entendida como assimilação, é preciso questionar: assimilação de que? Da heteronormatividade, ou seja, a homonormatividade é uma das facetas dessa ordem social. E não é por acaso que, associado a esses ideais de consumo e padrões de corpo, aparece um outro valor que é a expectativa de gênero, de modo que não adianta ser jovem e usar boas marcas de roupas, é preciso que o homem seja masculino e a mulher feminina.

Uma vez associado a tais ideais de gênero, temos como separar tais fenômenos da heteronormatividade? Se assim o fizermos, destituímos a própria concepção de heteronormatividade.

É preciso dizer que Judith Butler advertiu para o cuidado de usar um conceito que responda a todas as opressões, seja a heterossexualidade compulsória, a heteronormatividade, a luta de classes, o patriarcado, etc. E para resolvermos tal problema é preciso que analisemos a problemática em questão não apenas através das normas de gênero, mas que articulemos com questões, tais como: classe, etnia, territórios, etc.

Sem transversalizarmos nossas análises envolvendo, além das questões de gênero, o modo como a ideologia capitalista convoca os sujeitos a serem não apenas cidadãos, mas cidadãos reconhecidos pelo consumo, vamos continuar reproduzindo um número infinito de conceitos que dizem menos sobre a realidade do que as concepções já existentes.

Talvez Beatriz Preciado seja quem mais tenha tentando articular tais questões, ao alertar para o modo como o capitalismo se serve da produção e proliferação das identidades. Assim, PENSO que a homonormatividade nada mais é que uma faceta da heteronormatividade, articulada com o discurso capitalista.

E se teoricamente ou conceitualmente é um equívoco, politicamente também, pois nomear de homonormatividade o que é heteronormatividade coloca os seguintes problemas:

- Enfraquece a crítica à heteronormatividade ao ocultar seus efeitos no interior das homossexualidades;

- Toma as minorias atingidas pelo ideal normativo como produtoras de tal ideal, isto é, o oprimido se transforma em opressor, tal como as críticas de que o negro tem preconceito com o próprio negro, como se esses indivíduos não fossem também marcados pelo racismo do discurso opressor. Transforma-se assim os sujeitos ou grupos como possíveis de decidir e aplicar determinadas normas que excluem os outros, perdendo a possibilidade de uma crítica cultural mais ampla;

- Viabiliza que a diferença e disputas de ideais simbólicos e políticos sejam entendidas como norma, isto é, possibilita uma indeterminada produção de conceitos normativos associados às minorais, tais como: queernormatividade, transnormatividade, ativismonormatividade, ou mais comum/vulgar, ditadura gay. Essa proliferação também enfraquece a crítica aos efeitos da heteronormatividade e iguala oprimido e discurso opressor.

Por fim, homonormatividade existe tanto quanto heterofobia, isto é, na cabeças dos fundamentalistas que acreditam que queremos instalar um modo de ser-viver homossexual.

Gostaria de agradecer aos amigos, do Grupo Cultura e Sexualidade (CUS), que apontaram críticas e sugestões à esse texto, entre eles: Leandro Colling, Fábio Fernandes, Denise Bastos, Carla Freitas, David Sousa, Ana Nunes e Raquel Flourence.

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Ler 14980 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 14:49
Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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