Políticas do CUS

Qual a razão pela qual você faz sexo?

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Uma pesquisa realizada por psicólogos, com 1.549 mulheres de todo mundo, identificou que as entrevistadas atribuíam 237 razões diferentes para fazerem sexo, entre as quais: querer experiência prazerosa / sentir-se próxima de um Deus no ato sexual / vingar se de alguém / deixar o parceiro feliz / sair do tédio, entre outras questões como: recursos materiais, coerção, etc. Resumindo, os motivos para vivenciar o ato sexual são inúmeros e complexos. Mas por que essa pesquisa foi tão replicada na internet? Por que causou tanto espanto?

 

Primeiro é preciso dizer que se trata uma pesquisa com um referencial evolucionista, destas que, na maioria das vezes, tendem a pensar o ser humano como um animal submetido às leis da natureza e que podem cometer equívocos danosos aos sujeitos. Estudos antropológicos, sociológicos, culturais e queers tendem a questionar essas conclusões a partir das experiências dos sujeitos que não se encaixam nesses moldes, nesses padrões ditos naturais, evidenciando que a naturalidade é uma construção política, que serve para que alguns sujeitos se apresentem como normais e sadios, promovendo hierarquias e exclusão.

Na pesquisa em questão, o interessante é que parece haver um estranhamento quando o motivo para que as mulheres façam sexo não seja o amor. O amor passa a ser entendido em nossa cultura como um determinante social do comportamento, de modo que, se uma pessoa não age dentro do roteiro estabelecido pelo outro, se diz: “é porque não ama!”.

Créditos: Max Sauco

Nesse contexto cultural, o homem e a mulher são pedagogizados para vivenciarem o sexo de forma diferente. Somente a mulher vai ser moralizada ao se envolver sexualmente com muitos parceiros do sexo oposto. De um jovem rapaz é esperado que seja garanhão, sempre disponível ao sexo.

 

Ainda hoje, diversas mulheres só conseguem manter relações sexuais se houver um envolvimento afetivo com a outra pessoa. Os homens só precisam de uma chance. Lembro que um amigo se envolveu sexualmente com uma mulher num banheiro de uma empresa. Ela foi considerada vadia, ele garanhão! Assim, a moral que é aplicada aos homens não é a mesma para as mulheres.

Muitas amigas, ao sair com homens, têm desejo, mas não coragem de ir para cama nesse primeiro encontro. É preciso marcar um segundo ou terceiro, pois mulher fácil não é valorizada, não é considerada apropriada para relacionamento.

É uma cultura histérica, pois o homem tenta concretizar o ato sexual, com um sujeito que ele vai considerar imoral se aceitar sua proposta. Supreendo-me que alguns homens que fazem sexo com homens também aceitem ser moralizados pelo sexo, de forma que muitos dizem: “não sou promíscuo, não faço sexo por fazer!”.

Pergunto-me, qual homem heterossexual rejeitaria uma proposta sexual de uma mulher atraente? Quantos homens heterossexuais são considerados promíscuos porque buscam ou aceitam propostas sexuais com diferentes parceiras?

Dessa forma, muitas mulheres e homossexuais aceitam os julgamos heteronormativos sobre seus corpos, de modo que alguns inclusive se sentem sujos, indignos, ao experienciarem relações sexuais casuais.

Não estou dizendo que as pessoas devem sair fazendo sexo com qualquer um, com o primeiro que aparecer, nem tão pouco que não o faça! Estou questionando nossa conivência com os padrões morais que servem para criminalizar uns e engrandecer outros (o homem de muitas parceiras é sempre o garanhão, macho alfa, desejado).

Sobre essa pesquisa, o que precariamente ela aponta é que as mulheres estão mudando, e faz tempo. Também tenho amigas que pouco se importam se um homem vai achar que elas são indignas apenas porque foram para cama na primeira noite. Que não se sentem usadas, objetos, por se envolverem sexualmente sem amor, ao contrário, elas sentem-se usando, usufruindo os prazeres da vida. Às vezes nem querem a ligação telefônica do dia seguinte.

Ah, e se em 1549 mulheres há apenas 237 razões para sexo, temos um problema de pesquisa – isto é, não se ouviu verdadeiramente essas mulheres, pois cada uma delas deve ter dezena (s) de motivos para ir à cama, dependendo do dia e do parceiro.

E você, por qual razão faz sexo?

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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