Políticas do CUS

o papel da cultura na orientação da sexualidade

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Após dois congressos em menos de 15 dias, retorno as discussões, ainda na ressaca de tanto debate.  No Queering Paradigms 4, realizado no Rio de Janeiro, vi uma frase em uma das salas da UFRJ, que me fez refletir esse post. A frase dizia: “Nascemos poliglotas”.

 

De fato, nascemos com aptidão para aquisição de qualquer linguagem, mas somos introduzidos numa língua, denominada materna, que condiciona nosso aparelho fonador. Assim, ao nos desenvolvermos, com o passar do tempo e idade, adquirimos também a dificuldade de aprendermos outros idiomas.

Assim é a sexualidade. Desde antes de nascer é esperado de nós a heterossexualidade, como uma língua universal. Há toda uma pedagogia que visa produzir essa linguagem nos corpos. Uma série de aparelhos tecnológicos vão condicionando nosso corpo e nossa mente, e assim como sonhamos em português, pensando em português, o fazemos na heterossexualidade.

Para aquisição da linguagem, o sistema biológico nos oferece um aparato que possibilita seu desenvolvimento, mas é a cultura que assume essa centralidade no individuo. Algumas pessoas tendem inclusive a confundir maturação biológica, condições orgânicas, com desenvolvimento, que se dá a partir das condições que esse corpo biológico é introduzido na no ambiente, contexto social.

O filme O enigma de Karpar Hauser ilustra esse atravessamento da cultura em nosso corpo biológico. O protagonista é introduzido em sociedade após a idade adulta e não consegue desenvolver todas as funções psicológicas superiores. Após sua morte, verifica-se que seu crânio/cérebro inclusive não se desenvolveu o suficiente.

Não há uma natureza humana, a qual o indivíduo desenvolva, sem a entrada numa determinada cultura. Assim como não há um padrão de conduta heterossexual ou homossexual, sem o atravessamento social na vida do individuo.

Mesmo que a cultura privilegie a heterossexualidade como padrão, diversos corpos subvertem as normas e se deparam com outras possibilidades. A cultura atua limitando as possibilidades, de forma que os sujeitos, mesmo subvertendo a expectativa social de orientação sexual, terminam atuando dentro de uma lógica excludente, isto é, ou hetero, ou homo.

 

Ao pensar a sexualidade, Freud cunha o termo “perverso-polimorfa”, para falar da sexualidade infantil. Para ele, a sexualidade infantil é perversa, isto é, uma criança traz uma aptidão para transgressões sexuais, uma vez que ainda não desenvolveram a moral, o asco e a vergonha. Freud não está naturalizando a bissexualidade, mas pensando uma sexualidade inicial sem forma, sem heterossexualidade e homossexualidade.

A repressão da cultura nos conduz a uma identidade sexual, de forma que saímos da capacidade de sermos poliglotas sexuais, para uma língua. A cultura pode empobrecer nossa sexualidade.

Dentro dessa língua matriz, temos dificuldades em lidar com quem não se restringe a posições dicotômicas, de “ou isso ou aquilo”. Bissexuais, e diversos outros sujeitos que não se enquadram dentro das normas binárias da sexualidade são julgados como anormais, doentes, exóticos.

Não apenas os bissexuais, mas diversos sujeitos tem vivenciado uma sexualidade poliglota, circunstancial. Em Salvador, por exemplo, é comum que homens heterossexuais, se envolvam com outros homens, circunstancialmente, sem que isso signifique à assunção a homossexualidade, muito embora, para alguns sujeitos, esse fato seja reduzido à homofobia internalizada, o que é uma visão reducionista.

Não estou dizendo que somos livres para escolher o que queremos ser, nem que todos somos bissexuais. Estou defendendo que nascemos com um potencial sexual plural, mas nossa cultura nos conduz a posições dicotômicas, nos condicionando a assumir determinados lugares prescritos.

Os sujeitos estão, no entanto, subvertendo essas lógicas, através de uma sexualidade mais fluída. Embora alguns não se cansem de dizer que “não são uma metamorfose ambulante”, é bom considerarmos que não podemos julgar a humanidade através de nossas limitações.

E assim, alguns de nós, para não sermos considerados perversos, conceito que foi vulgarmente associado à doença, negativado, mas que tinha a intenção de dar sentido às transgressões das normas, preferimos nossa infeliz miséria sexual.

No final das contas, em menor ou maior grau, todos transgredimos as normas sociais, assim, somos todos perversos, embora ainda pouco poliglotas.

 

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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1 Comentário

  • Link do comentário Alexandro Segunda, 22 Julho 2013 14:13 postado por Alexandro

    Adoro seus textos Gilmário. Sempre alargando as possibilidades de ser/estar no mundo. Parabéns!

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