Políticas do CUS

“Eu tenho o direito de não gostar de lésbicas”

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Num dia qualquer, numa sala de debate de alguns gays, após um filme, ouvi a frase que escolhi para o título deste post. Confesso que fiquei assustado e, por alguns momentos, senti que estava discutindo com um desses grupos conservadores que defendem o direito de não gostar de homossexuais.

 

Estamos falando de grupos conservadores que não gostam de gays, de gays que não gostam de lésbicas e de todos esses sujeitos, justificando a aversão a um grupo específico. Espanta-me que alguns gays, que sofrem tanta agressão física, verbal e psicológica, se utilizem do mesmo discurso de ódio.

Mas por que essa rejeição às lésbicas? Descobri que isso tem relação com um grupo específico, as lésbicas masculinizadas. Mas, então, por que os gays que atribuem tanto valor à masculinidade rejeitam as lésbicas masculinas?

Esses sujeitos entendem que a masculinidade é um atributo do homem e que as mulheres devem ser femininas. Assim, as mulheres que se comportam de um modo atribuído ao masculino são consideradas anormais.

Créditos: Max Sauco

Essa é uma armadilha de uma ideologia naturalizante – operar pela patologização e produção da anormalidade. Essa ideologia é tão forte que mesmo os homens que não se adéquam ao perfil masculino, tal como ele é exigido na sociedade, questionam as mulheres que também não se adéquam.

No próximo dia 1º de agosto, às 18h30, estará presente no Congresso da ABEH, na UFBA, Jack Halberstam, autora do livro: Mulheres Masculinizadas. Esse livro problematiza a concepção de masculinidade como atributo do homem. O autor e diversos outros teóricos questionam a ideia de que a feminilidade seja um desígnio da mulher, sem uma intervenção pedagógica.

Créditos: Max Sauco

Assim, a masculinidade ao ser considerada como atributo natural do homem não é aceita nas mulheres lésbicas. Quando uma mulher é heterossexual e masculina, diz-se que ela é batalhadora, guerreira e valente, mas se essa mulher for lésbica estará sujeita a uma série de preconceitos, inclusive de alguns gays.

Não podemos deixar de desconsiderar que todos os homens têm, em algum grau, atributos femininos; todas as mulheres têm atributos masculinos. Os gêneros não são puros. Logo, estamos condenando diversxs sujeitxs que não se adéquam aos limites do que culturalmente determinamos para a constituição desses gêneros.

Em uma dessas festas de São João observei uma mulher masculinizada. Ela dançava de um modo bem masculino. Eu fiquei encantado, não consegui tirar os olhos de seus movimentos. Nesses movimentos estava a prova de que os comportamentos esperados de um sujeito, relativo ao seu gênero, são aprendidos, estão disponíveis a todos os sujeitos, mas nós violentamente impomos aos corpos que se comportem dentro de um modelo esperado.

Disponível em: http://www.sauco.ru

Créditos: Max Sauco

 

Fica evidente também que a concepção de sexualidade como essência, vista como natural, é um risco a respeitabilidade. A ideia de natural cria os desvios e as concepções de anormalidade. É uma ideologia perigosa que faz com que mesmo indivíduos patologizados com esse discurso violento e excludente, patologizem os outros. As violências são reproduzidas.

Utilizar como justificativa o uso de nossos direitos para justificar nosso ódio ou rejeição a determinados grupos é mais uma dessas violências contra as quais lutamos. Quando utilizamos esses recursos, nos aliamos a esses grupos conservadores, espalhando o ódio e exclusão.

E quando ouço essas frases, de que não gosto de tal grupo, eu nunca deixo de considerar que é uma inveja infame do outro. Sim, acho que esses gays adorariam “ser” o que essas mulheres conseguem “ser” tão bem – masculinas. E viva as diferenças!

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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