Políticas do CUS

A encenação da masculinidade

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Há dois meses, um vídeo está chamado atenção de muitas pessoas. Trata-se de uma performance de um lutador que se “transforma” em uma academia do Rio de Janeiro. A transformação em questão se deve ao fato de que o rapaz chamado “Frazãozinho” inicia o vídeo encenando um treinamento de luta e depois nos surpreende com uma dança que poderíamos chamar de afeminada. Confira dois vídeos sobre o tema, um deles considerado um ensaio:

 

 

 

Frazãozinho dança de forma que popularmente seria chamado de “bicha”. A grande discussão, que li nas redes sociais sobre o vídeo, questionava a orientação sexual do lutador. Alguns defendem que ele é gay, enquanto outros afirmam que ele encena uma performance bicha.

A performance bicha é executada com perfeição. No segundo vídeo é realizada uma dança que mistura afro, pagode, samba e outros gêneros. O que nos chama atenção nessas performances é que ninguém espera que um homem virilizado possa ser também ser feminino se assim o quiser.

Frazãozinho não encena apenas a “bicha louca”, mas também a masculinidade. A virilidade não é um padrão natural dos corpos. Não há uma garantia de que um sujeito que nasce com pênis será másculo e viril.

É preciso uma série de investimentos pedagógicos para fazer desse corpo um exemplo de masculinidade. Desde o nascimento até a morte, uma série de contratos são firmados visando à produção e manutenção da masculinidade.

A declaração “é um menino”, mesmo antes do nascimento, marca uma trajetória esperada num corpo que é apenas uma promessa em desenvolvimento. Ao nascer, esse bebê vai ser vestido e investido com tudo que seja associado à masculinidade, desde cores aos modelos de roupas. Espera-se que ao crescer escolha brincadeiras associadas à atividade física e violência. Na juventude deve buscar realizar seus desejos sexuais com o maior número de mulheres possíveis, para assim ascender a um grau invejável da masculinidade heterossexual.

Uma vez produzida, a masculinidade e virilidade se faz parecer natural, associada ao sexo. Assim, de todo homem espera-se que ele seja macho. Mas o comportamento viril é produzido por todo esse roteiro pedagógico.

Embora não seja natural, a masculinidade é automática, isto é, não precisamos todos os dias aprender o mesmo roteiro de masculinidade. Quem já morou numa casa por muitos anos e se mudou, já passou pela experiência de um dia qualquer seguir o roteiro da antiga residência porque esse roteiro já estava gravado em nossa memória. Assim a masculinidade é aprendida – é encenada todos os dias, sem nos darmos conta que fomos treinados para isso.

Essa pedagogia da masculinidade permite a uma teórica, chamada Judith Butler, dizer que uma mulher masculina não está imitando o homem heterossexual, uma vez que a masculinidade do homem não é natural nem original, mas que ambos são cópias – sem original. E assim o é Frazãozinho, cópia e encenação, mas também uma pessoa talentosa.

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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