Políticas do CUS

Quem precisa de casamento e monogamia?

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Gosto do texto de uma feminista chamada Adrinne Rich, A Heterossexualidade Compulsória e a Existência Lesbica, que problematiza o modo como as mulheres têm sido convencidas desde a infância que o casamento heterossexual é o destino inevitável de suas vidas. Elas crescem com essa idealização do casamento e do amor romântico de modo que se tornam aprisionadas psicologicamente e tentam ajustar o espírito e a mente dentro de um roteiro prescrito pelos outros.

 

O cinema, as propagandas e diversos outros produtos culturais cooperam para manter essa ideologia de que o casamento heterossexual é o máximo de realização que um indivíduo pode esperar. Nas novelas, os últimos capítulos são destinados aos casamentos felizes, gravados nas igrejas, principais promotoras dessas ideologias.

Hoje, nem todas as mulheres se submetem a essa ideologia do casamento monogâmico como promessa de felicidade. Nada contra o casamento, nem contra a monogamia, mas é de se questionar que esse tipo de relação seja idealizada como a forma mais viável e aceitável de relação. Que seja considerada o “final feliz” do indivíduo, sua realização pessoal, e que quem não adentra a esse roteiro é considerado fracassado e/ou promíscuo.

Algum tempo atrás uma mulher me contou que se sentia mal entre suas amigas; era julgada, como se não fosse capaz de segurar um homem, de sustentar uma relação afetiva, um casamento. É de assustar que ainda hoje algumas mulheres sejam julgadas negativamente apenas porque não estão dentro de um casamento; julgadas inclusive por outras mulheres que estão em relações desgastadas, com maior sentimento de dever que de amor.

Mas essa não é uma questão apenas de mulheres. Analisando perfis em sites de relacionamentos para a minha pesquisa de mestrado, verifiquei que muitos homens que buscam relações afetivas com outros também descrevem esse parceiro pretendido como: a pessoa certa; alma-gêmea ou pessoa que traga felicidade.

Essas expressões revelam uma ideologia romântica de que existe uma pessoa certa para cada um de nós, e nossa tarefa é encontrar esse outro. E que existindo essa pessoa ela se configura como a nossa porta de entrada a felicidade. Mas é justo para com o outro demandar tanta responsabilidade – que nos conduza a essa felicidade? Que supra todas as nossas carências afetivas e faltas outras? É justo conosco sentir-se fracassado porque não estamos dentro de um relacionamento nesse modelo?

Ouvi de um amigo a frase: “Estou convencido que não vou conseguir ninguém” A frase revelara seus insucessos em manter relações duradouras nos moldes do casamento. Mas e quem precisa dessas relações?

Vejo alguns sujeitos que entram numa relação hoje e em menos de um mês já se separam, pois descobrem que o outro não é o que idealizaram. Ninguém o é. Sinto que o que idealizaram existe apenas em seus sonhos. Estão condenados aos seus sonhos, a ficar em um movimento compulsivo e repetitivo de busca por um outro que não existe.

Não sou pessimista. Não sou traumatizado com relacionamentos, ao contrário, acredito em relações afetivas, mas como as devidas ressalvas:

1-      Não existe esse outro certo, único; existem possibilidades, encontros possíveis. Uma relação afetiva e prazerosa se dá com a aceitação das falhas do outro, da desistência desse outro perfeito e do papel que nos traga felicidade;

2-      As relações monogâmicas não são a única opção de realização afetiva. Alguns sujeitos sentem-se mais realizados em relações abertas e sobre isso falarei na próxima semana;

3-      O casamento não é um destino inevitável nem garantia de realização. Muitos autores (Freud, Giddens e Bauman) problematizam a insegurança, incertezas e dúvidas advindas das relações amorosas.

4-      Existem várias formas de fidelidade e nem todas estão ligadas com a monogamia;

5-      Não existe um sujeito que sozinho vá suprir uma carência afetiva de outra pessoa. Os afetos podem ser vivenciados em rede: família, amigos e envolvimentos afetivossexuais;

6-      Um indivíduo pode perfeitamente realizar-se solteiro, o que não significa que necessariamente tenha que estar só.

Vou finalizar com uma música do poeta Cazuza, Blues da Piedade.

Vivam as possibilidades!

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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