Políticas do CUS

A invenção da heterossexualidade e homossexualidade

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A julgar pelos comentários deixados nesse blog, suponho que o número de pessoas que acreditam que o mundo se divide naturalmente entre homossexuais e heterossexuais seja enorme. É uma crença que muitos militantes/ativistas LGBTs e homofóbicos têm em comum. O que muda é o que cada um pensa a respeito dos sujeitos, mas a divisão é pouco questionada.

 

Embora alguns sujeitos nos acusem de cientificismo e excesso teórico, poucos sabem que essa divisão (heterossexualidade versus homossexualidade) faz parte de um modelo científico, assim, até mesmos aqueles que criticam a ciência e as concepções teóricas sobre sexualidade, ao pensarem o mundo a partir dessa divisão, enquadram as suas ideias num modelo de ciência positivista. Esse modelo pressupõe que as palavras e as ideias consigam descrever a realidade em que vivemos, e assim produziu as seguintes divisões:

Ocidental Oriental
Branco Negro
Heterossexual Homossexual
Homem Mulher

Essa divisão entende que os sujeitos são opostos, e o objetivo desse modelo de ciência era justamente colocar o segundo termo tão distante do primeiro quanto possível, para assim posicionar os sujeitos politicamente.

Interessante saber que os saberes acerca dos sujeitos do lado direito da tabela foram construídos pelos sujeitos do lado esquerdo, isto é, o que se produziu sobre os negros, homossexuais, orientais e mulheres foi feito por sujeitos que não tinham compromisso com o respeito às diferenças, não conheciam essas realidades e na grande maioria das vezes defendiam suas próprias identidades como normais e naturais.

As pessoas hoje acreditam na divisão heterossexual versus homossexual como se essa oposição binária fosse uma realidade natural, sem muitas vezes refletir desde que momento esses termos existem, porque existem e que ideologias sustentam.

Esse modelo de ciência definiu que as mulheres são frágeis, os orientais ilógicos, os negros poucos inteligentes e os homossexuais promíscuos e doentes. Essas teorias conhecidas como naturalistas centravam suas explicações na biologia e buscavam as causas para o comportamento no estudo do cérebro ou outras partes do corpo. Todas essas crenças absurdas eram sustentadas por esse modelo em que o corpo biológico é tomado como causa.

Um dos grandes formuladores dessas teorias foi um cientista chamado Lombroso, que viveu entre 1835 a 1909, e realizou estudos que “provavam” que o criminoso é um sujeito com uma tendência inata ao crime. Analisando então as características dos indivíduos seria possível antever seus atos.

Lombroso influenciou muitos outros cientistas, entre eles Nina Rodrigues, médico que criou uma Escola Intelectual de Antropologia Criminal na Bahia. No GGB tem (ou tinha) alguns quadros com fotos de sujeitos nos quais Nina Rodrigues faz uma análise do corpo de lésbicas enquadrando-as dentro de uma categoria a partir das diferenças corpóreas.

Essas teorias trouxeram/trazem prejuízos históricos a esses sujeitos, muito embora hoje, muitos negros, gays, mulheres, etc, sustentem essas ideias preconceituosas como parte de uma realidade natural. A essas ideias me refiro à crença que o mundo se divide naturalmente entre heterossexuais e homossexuais (ou entre outra divisão binária apontada acima), e que o nosso comportamento pode ser explicado pela biologia e o estudo do corpo humano.

Em lugar de questionarmos essa divisão preconceituosa, muitos sujeitos reinvidicam um lugar de normalidade retirado por essas teorias.

Desse modo, até os que nos criticam por adotarmos uma visão científica, ao pensarem o mundo a partir da divisão hetero versus homo também o fazem a partir de um modelo científico que cooperou com a produção das desigualdades e hierarquias.

Por isso, vou repetir uma pergunta já feita por Leandro Colling ao final de um dos seus textos. “Pense nisso e decida: de que lado você está?”

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Ler 7092 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 16:07
Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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