Políticas do CUS

Aqui ninguém é hetero!

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Antes de tudo, gostaria de dizer que a ideia do título desse texto veio da fala de um aluno que também inspirou o livro “Aqui ninguém é branco”, de Liv Sovik, cuja resenha pode ser lida aqui.

 

Embora o título venha dessa referência, esse texto é uma tentativa de responder uma pergunta que recebi por e-mail: “A psicologia explica a possibilidade de um indivíduo heterossexual virar homossexual, e se é possível um indivíduo homossexual tornar-se hetero?”

A questão supõe que existe um indivíduo heterossexual ou homossexual que em algum momento da vida possa movimentar-se de um lado a outro. Considerei interessante o fato de o autor da pergunta pensar os dois movimentos mas, nesse texto, vou questionar apenas a heterossexualidade, num próximo post questiono a naturalidade da homossexualidade, se é que ainda seja necessário.

Mas que elementos existem para sustentar a ideia de que não existe uma identidade sexual heterossexual tal como é pensada em nossa cultura?

1- A divisão social dos sujeitos em heterossexuais e homossexuais, como duas categorias opostas, data-se de 1869. Até então, não havia a concepção de que a sexualidade é dividida nesses dois polos. A palavra heterossexualidade nasce com um sentido de depravação para então depois migrar para um ideal sexual. Após essa data a ciência se empenhou em construir o paradigma de que existe uma pessoa que nasce com uma substância mental heterossexual e que isso é o padrão da sexualidade humana.

Embora eu já tenha dito isso outras vezes, gostaria de afirmar que não estou fazendo suposições, mas discutindo uma análise histórica. Quem desejar ler mais sobre esse tema, veja o livro: “A invenção da heterossexualidade”.

2 - A ideia que existe um sujeito com uma essência inata que determine o comportamento e a subjetividade foi sendo abandonada pelas ciências humanas e sociais. Alguns cientistas cooperaram para a destituição da concepção de um sujeito natural, entre eles: Marx, que afirmava que as condições concretas de existência é que determinam a consciência, ou seja, não há uma consciência inata; Freud, que pensava a consciência apenas como uma parte de um sistema governado pelo inconsciente; Saussure, que afirmava que não somos autores das afirmações que fazemos, enfatizando o discurso. Várias autoras da teoria feminista também produziram o questionamento de que “o pessoal é político”, isto é, mesmo o que pensamos como características individuais são produzidas na política, que privilegia determinados grupos de sujeitos. Alguns teóricos como Hall, Bauman, Giddens, entre outros, que refletem sobre a construção das identidades discutem esses pontos com muita propriedade e profundidade. Todas essas discussões científicas e/ou filosóficas desconstroem a ideia de um sujeito que age, fala e sente a partir de uma natureza humana e enfatizam o contexto social na produção das subjetividades. Leitura complementar.

Foto: Max Sauco

3 - Após essas reflexões citadas, desde o ano de 1980 tem crescido dentro da academia os estudos chamados de “Teoria Queer”, que em inglês significa “estranho, torto”, e que têm enfatizado o modo com os sujeitos são produzidos pelo discurso (sobretudo o científico) como anormais, patológicos e desajustados. Uma das principais autoras, Judith Butler, no livroProblemas de gênero, traz algumas considerações importantes para pensarmos a questão.

Butler problematiza a ideia de um sujeito que pré-exista ao discurso, ou seja, é no discurso e principalmente no discurso científico que se produz a concepção de um sujeito essencializado e naturalizado. Assim, não há um sujeito antes, mas depois do discurso. Significa dizer que o discurso social de nossa cultura pressupõe um sujeito antes de sua existência, que é estável e linear, de modo que ter um pênis significa, nessa maneira de pensar, ser homem, masculino e heterossexual. Assim, as pessoas não escolhem seu sexo, gênero e desejo livremente, mas são coagidas a constituírem suas sexualidades dentro dessas linearidades, caso não queriam ser problematizadas e consideradas como aberrações. Obviamente nem todos os sujeitos atendem as demandas do discurso hegemônico, senão todas as pessoas seriam heterossexuais, mas isso desenvolvo no próximo texto. Resumindo até aqui: a heterossexualidade foi produzida no século XIX; cientistas e teóricos já problematizavam que não existe um sujeito natural, mas constituído no contexto; as recentes teorizações enfatizam o papel do discurso (científico ou não) não apenas como algo que descreve, mas produz as subjetividades e sexualidades. Indicação de leitura.

4 - Para existir uma heterossexualidade é preciso que esta seja oposta a homossexualidade e vice-versa. No entanto, alguns estudos antropológicos têm problematizado essa distinção, enfatizando que as categorias sexuais se organizam dentro de contextos específicos e que a construção de uma categoria como oposta a outra, seja hetero versus homo, ou homem versus mulher, tem a intenção de conferir uma espécie de purificação ao primeiro grupo e apresentá-los como superiores, ou seja, a oposição produz a hierarquia. Indicação de leitura.

5 - Para Freud, uma escolha de desejo heterossexual conserva vestígios de homossexualidade;  para o filósofo Deleuze, ninguém é exclusivamente heterossexual ou homossexual. As ideias desses dois pensadores permitem negar uma identidade exclusivamente heterossexual ou homossexual. Certamente alguém diria: “não tenho desejo pelo mesmo sexo” ou algum sujeito identificado com a homossexualidade diria: “jamais ficarei com o sexo oposto”. Mas essas pessoas estão pensando a heterossexualidade ou homossexualidade como sinônimo exclusivo de prática sexual. Um heterossexual pode rejeitar a prática sexual com alguém do mesmo sexo, mas se identificar com estes de muitas outras formas.

6 – Não existe algo como a heterossexualidade, mas uma diversidade de sujeitos, o que nos permite pensar em heterossexualidades, como já falou Leandro Colling em um dos textos já publicados aqui no blog.

7 – Outro argumento dos estudos queer, em especial da já citada Butler, evidencia que uma prática sexual com alguém do sexo oposto não é necessariamente algo que deve ser considerado como uma prática sexual heterossexual, pois um desses sujeitos pode fantasiar nessa prática alguém do mesmo sexo. E o campo da sexualidade, é sempre bom lembrar, é dominado por muitas fantasias. Significa dizer que não sabemos, em nossa consciência, o sexo de quem levamos para cama, ou seja, podemos projetar numa pessoa um sexo diferente daquele com o qual ele se identifica.

Esses são alguns dos argumentos que desconstroem a ideia de um sujeito heterossexual como parte da natureza humana. Não são ideias minhas, mas análises históricas, psicanalíticas, antropológicas, dos estudos culturais etc. Será que todos esses pensadores, estudiosos e cientistas estão equivocados? É coerente sustentar a crença que o mundo se divide em heterossexuais e homossexuais apenas por que assim nos foi ensinado?

Após esses argumentos, gostaria de retornar a questão. Por que alguém deixa de ser heterossexual e torna-se homossexual ou vice-versa? Mas, se não existe uma heterossexualidade ou homossexualidade natural, no sentido como as pessoas a entendem, um sujeito portador de alguma essência, como alguém pode deixar de ser aquilo que não existe?

Mas agora eu criei um problema, que é: se não existe uma identidade hetero ou homo, o que permite uma pessoa mudar seus desejos sexuais, de um sexo por outro? Mas, não dá para responder tudo num único texto, né? Vamos adiante e na próxima semana retomo essa questão.

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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