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Um homem heterossexual pode sentir desejo erótico por outro homem?

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Já perguntei em outro texto se um homem homossexual pode sentir desejo sexual por uma mulher e agora pensei em falar da experiência de homens que se identificam como heterossexuais, mas mantém relações sexuais com outros homens.

 

Essa foi uma das questões que discuti em minha dissertação de mestrado em que pesquiso as relações sexuais e afetivas entre homens, a partir da analise de sites de relacionamento e que defendo nesta segunda-feira dia 10 (convite anexo abaixo).

Nessa pesquisa constatei que o modo com esses homens nomeiam suas orientações sexuais aranham as definições clássicas de heterossexualidade e homossexualidade, ou seja, essas experiências mostram como essa divisão é precária, limitada e que se modifica conforme o contexto.

Essa divisão das identidades sexuais foi tema de muitas pesquisas no Brasil. Uma concepção popular de sexualidade operou de forma mais contundente até 1980, e divide esses homens em dois grupos: os machos, homens que mantém relações sexuais com mulheres e que eventualmente possam se envolver sexualmente com outros homens, penetrando-os e as “bichas” homens que são penetrados por outros homens.  São chamados de “bichas” porque não são considerados dignos de portarem o termo homem ou qualquer associação com o masculino.

Importante ressaltar que nessa concepção de sexualidade, um homem não é considerado gay apenas por se envolver com outro homem, desde que ele assuma um papel de macho e penetre-o, assim, o que determina a identidade sexual é o papel de gênero assumido na relação. O homem – macho penetra; mulheres e “bichas” são penetradas.

Após a década 80 os discursos europeus e as concepções de sexualidade promovida pelas ciências do Séc. XIX chegam ao Brasil e modificam os entendimentos acerca da sexualidade, e assim, incorporam-se ao discurso os termos: heterossexual e homossexual, sendo que o que define a identidade não é apenas a prática sexual, mas também o desejo, isto é, se um homem desejar outro homem, independente da prática sexual, é marcado como homossexual.

E como esses sistemas classificatórios funcionam hoje? De diversas formas e combinando todos esses modelos. Em alguns lugares ainda se estabelece a divisão macho versus “bicha”. Muito forte ainda é a divisão heterossexual versus homossexual, e se desenha agora, de modo muito mais contundente, diversos sujeitos que não se enquadram nessas categorias ou que reconfiguram essas categorias de modo muito diferente que a que foram concebidas.

Um exemplo dessa reconfiguração das identidades é que hoje, muitos sujeitos que se denominam de heterossexuais se envolvem com outros do mesmo sexo. E se antes se pensava que essas relações incluíam apenas sexo, na atualidade, essas relações são variadas e muitos se envolvem afetivamente.

Muitos desses homens são casados ou mantém compromisso com mulheres, mas então porque mantém relações com homens? Será que não gostam de mulheres e apenas estão fingindo essas relações por conta do preconceito da sociedade? Até pode ser o caso de alguns, mas há sujeitos que se realizam melhor sexualmente envolvendo-se com outr@s de ambos os sexos, ou dito de outra forma, há sujeitos que sentem-se limitados restringindo suas vivências eróticas a apenas um sexo.

Há sujeitos que gostam apenas de parceiros brancos, outros apenas de negros; uns envolvem-se apenas com homossexuais, outros apenas com o sexo oposto, e outros que desconsideram o sexo e a cor da pele dos parceiros. Não que esses sujeitos não tenham suas limitações, mas que mantém uma experiência sexual muito mais livre, mais fluída.

Hoje, assisti o filme “A vida secreta das abelhas” em que havia um preconceito muito forte sobre as relações entre negros e brancos. A sociedade da época (e a nossa nem sempre aceita) não aceitava que um homem branco se casasse com uma negra ou que uma criança branca fosse educada e adotada por uma família negra. Aposto que muita gente veria esse filme com certa indignação, pelo modo como a cor da pele limita as relações sociais e amorosas. Será que um dia também não nos envergonharemos de termos balizado nossas relações por conta do sexo do parceiro?

Porque a escolha do nosso parceiro deve se limitar a questões de cor, sexo, etc? Que efeitos sobre nossa subjetividade tem o fato de termos aprendido desde pequenos que iríamos escolher uma pessoa do sexo oposto e amá-la para o resto de nossas vidas? Que possibilidade teriam se aberto caso essa linguagem não restringisse as relações a “uma” pessoa e ao sexo dela?

São questões que talvez não possamos responder prontamente, mas deixo outra para a semana seguinte; É possível um homem heterossexual desejar relações sexuais sendo penetrado por outro homem (hetero-passivo)?

Um beijo a todos que se permitem

amar para além de questões de sexo, cor, classe, etc.

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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