Políticas do CUS

Moralismo gay e preconceito com os garotos de programa

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Causou polêmica a notícia de que uma boate soteropolitana irá sortear um “boy magia” num bingo, com três horas pagas num hotel, para um dos seus frequentadores. Alguns clientes da boate acharam um absurdo, e afirmam que é uma apelação midiática, que só vai “queimar” o filme da casa.

 

Outros chegaram a dizer que a boate está incentivando a prostituição; alguns interpretaram tal promoção como exploração sexual – inclusive lembrando a novelaSalve Jorge, que trata de tráfico sexual de pessoas.

No Brasil, a prostituição não é crime, mas manter casas de prostituição ou induzir alguém a “vender” o próprio corpo é ilegal e pode dar penas de um a oito anos de reclusão.

Significa dizer que a boate não poderia induzir alguém a se prostituir ou obter lucros com a prostituição desses rapazes e, talvez por isso, esse tipo de promoção possa ser contestada juridicamente por algum órgão público.

Mas não vou me ater a questões jurídicas, por falta de competência e também por não submeter meus julgamentos apenas às questões do direito. Vale lembrar que até pouco tempo atrás, adultério era considerado crime e que muitas mulheres ainda morrem hoje por não se autorizar o aborto, logo, o fato de que exista uma lei que proíba tal conduta não quer dizer que essa lei é justa e que não possa ser revista.

Não podemos colocar numa mesma sacola: prostituição, exploração sexual e tráfico de pessoas. A exploração sexual e o tráfico de pessoas são crimes que precisam ser punidos, pois destroem a vida de pessoas, sobretudo de adolescentes que, nas regiões mais pobres do Brasil, são submetidas a várias formas de violências.

Campanha de prostitutas irlandesas. Tradução: "Escolhi o emprego que se adapta às minhas necessidades".

Diversos homens e mulheres “vendem” seus corpos ou como alguns preferem dizer: “realizam fantasias”. São profissionais que precisam ser respeitados, inclusive com direitos a aposentadoria e outros benefícios de profissões reconhecidas. Não há nada de criminoso, ilegal ou danoso à sociedade.

E se para alguns a prostituição parece ser a única saída, para outros é uma escolha, como o caso de Gabriel Ferrari, que em um ano aumentou seus rendimentos em dez vezes, viajando por todo Brasil, atendendo homens e mulheres. A prostituição não era a única possibilidade de Gabriel, pois lendo seus textos nota-se que ele teria sucesso em várias profissões, mas poucas delas lhes gerariam tais rendimentos. Percebi também que Gabriel não se sente culpado, injustiçado ou diminuído, nem que lhe faça questão suas práticas sexuais ou o sexo dos parceiros. (ver em http://gabrielesuaferrari.blogspot.com.br)

Mas o que percebo é que a prostituição é quase considerada crime por parte da sociedade gay. E quando leio as críticas à essa promoção da boate, penso que em parte elas refletem o preconceito com os garotos de programa e o modo como essas pessoas julgam o sexo.

Uma das pessoas chegou a dizer que tal ação seria reduzir o status social dos gogoboys e confundi-los com garotos de programa (GP). Concordo que nem todo gogoboy é GP, mas não acho que devemos fazer uma hierarquia, de quem é mais digno ou mereça ser mais valorizado.

Acho sintomático que frequentadores da boate fiquem indignados com o sorteio de um homem para sexo, mas que nunca reclamam das performances de homens hipermasculinizados que exibem seus corpos quase nus nas boates ou, como já presenciei, em entrevistas após as paradas gays – homens que exibiam seus corpos nos trios, mas que eram extremamente preconceituosos e homofóbicos, fazendo questão de afirmar que não gostavam (sexualmente) de gays.

Também acho problemático que uma boate tenha que higienizar qualquer traço de sexualidade para conquistar o respeito do público gay. Não estou dizendo que as boates devam ser saunas ou motéis, mas também não são templos religiosos.

Já percebi também que os sujeitos que contratam GPs não são apenas homens e mulheres que não conseguem parceiros sexuais, por idade avançada ou falta de beleza, mas que muitos desses sujeitos são bem resolvidos com sua sexualidade e com seu corpo e preferem manter o sexo dentro de vínculos comerciais, inclusive porque essas escolham atendem a um padrão de gosto e disponibilidade.

Veja esse vídeo de Gabriela Leite sobre a politização da prostituição:

 

Em compensação, já ouvi alguns sujeitos que se sentiriam mal em pagar por sexo; é como se isso os inferiorizasse e provasse sua incapacidade em conquistar alguém. A recusa não está ligada a falta de desejo, mas aos flagelos psíquicos não resolvidos.

Os jornais sempre noticiam jogadores de futebol, milionários, que podem ter lindas mulheres, mas preferem pagar por mulheres e travestis em festas (orgias). Não se sentem inferiorizados, mas estabelecem relações de poder –podem pagar pelo sexo – são consumidores.

Enquanto isso, alguns são consumidos pelo moralismo. Não estou dizendo que todos devem contratar garotos de programa ou venderem o seu corpo, estou afirmando somente que o preconceito com esses profissionais é um moralismo que revela quão mal resolvidos são os que julgam. Pessoas que precisam provar o tempo todo que podem conquistar!

Nesse ponto tenho que admitir que os homens heterossexuais estão anos luz na frente dos gays, pois pagar pelo sexo é uma tradição que se passa de pai para filho, embora isso também tenha a intenção de sustentar a heterossexualidade ou iniciar a vida sexual dos jovens com as mulheres, para garantir a masculinidade. Mas não há como negar que os heterossexuais falam de suas aventuras com garotas de programas como quem fala de conquistas; enquanto isso, muitos gays falam de suas relações com garotos de programa como fracasso.

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Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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