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Fui cristão e me arrependi – viva a sua sexualidade!

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Eu sei como você se sente, pois eu também já passei por isso. Sei o que é sofrer sozinho, sem confiar em ninguém. Sei o que é também sofrer sozinho, mesmo confiando em algumas pessoas. A questão nunca foi confiança – é a vergonha. Como poderia contar tal segredo a pessoas que me admiram? Pessoas que me amam, mas que certamente não entenderiam. Eu morreria de vergonha de que soubessem que eu sinto atração por pessoas do mesmo sexo.

 

Eu sempre fui muito correto com as minhas crenças. Orava todas as noites; sempre falava com Deus antes das refeições, pois agradecia o alimento, e tudo mais que conquistava. Sempre senti que Deus estava me apoiando. Sempre me senti acolhido por Deus, menos nesse ponto…

Orei dias e dias, noites e noites, algumas dessas sem dormir. Às vezes, embaixo do chuveiro, minhas lágrimas se misturavam com a água, e ninguém podia ouvir o meu pranto. Eu me perguntava: Por que isso está acontecendo comigo?

Achei uma resposta! Deus estava provando minha fé! Passei a fazer jejuns e ficava períodos de 24 horas sem comer, nem beber (nem água). Fiz isso ao menos uma vez por mês, por alguns anos (acho que 10 anos). Nada mudava e comecei a me questionar: Por que Deus me deu logo essa provação? Eu poderia ter tantas outras fraquezas, por que esta?

Às vezes eu ficava um tempo controlado (a palavra é mesmo controle), achava até que a atração tinha passado ou diminuído, mas logo voltavam os mesmos sentimentos, os mesmos desejos. Nesses períodos de controle pensei: “Posso casar com uma mulher, isso vai me ajudar a superar tais desejos!” O casamento virou a solução, isto é, oração, jejum e casamento.

Eu até me apaixonei por algumas moças, mas o desejo (por pessoas do mesmo sexo) não passava. Até pensava em construir algo com elas, mas sabia que não era suficiente e que em algum momento se transformaria em algo fraternal.

Eu também poderia jogar tudo para cima e viver meus sentimentos e desejos. Mas eu aprendi que Deus fez o homem para mulher e que a família é à base do evangelho. E isso fez com que o problema não fosse apenas lidar com amigos, família e outras pessoas – esses desejos colocam em risco minha relação com Deus. Era de Deus que eu temia me afastar!

Mas eu sempre fui alegre, feliz, e exemplar seguidor de Cristo, ao menos era o que os outros viam. Uma parte de mim era triste, infeliz e solitária.

Um dia tive uma convulsão. Fiz todos os exames, era stress. Meu corpo não suportou tal conflito. Dizem que a convulsão é uma tentativa de reorganizar o sistema nervoso. Eu vi que precisava reorganizar minha vida. Percebi que essa dor era uma cruz para vida toda – algo que jamais venceria.

Os líderes religiosos diziam que Deus não aceita o amor entre duas pessoas do mesmo sexo, mas percebi também que Deus não mudaria meus desejos. Se a concepção desses líderes estivesse correta, eu iria para o inferno de qualquer jeito. Tem um versículo bíblico que diz que, se em nosso coração desejarmos, já estamos pecando. Não importa quanto controle eu tivesse, estava “pecando” e sofrendo por isso.

Certo dia, entendi que, se eu estava sustentando essa dor, para não sofrer, estava fracassando, pois tudo isso era sofrimento. Resolvi buscar uma saída e vi que se viver minha sexualidade e meus desejos com alguém do mesmo sexo fosse algo que me trouxesse dor, essa dor já estava em mim, mesmo reprimindo meus desejos – ou seja, sofre-se mais para evitar que para viver.

Até tentei me relacionar com homens, a princípio de forma casual e para manter minha regularidade na igreja. Tenho tantos amigos que fazem isso. As igrejas estão cheias. Essa história de cura da homossexualidade pela religião dá nisso: enchem as igrejas de homens que desejam homens e assim a tentação está dentro da igreja.

Um amigo me disse que seus problemas ocorrem dentro da igreja, e que fora dela, os homens não tentam sexo com ele, mas já se envolveu com vários homens da igreja, alguns líderes inclusive. Eu também vi isso, o problema é a grande quantidade de homens na igreja esperando que Deus mude seus desejos…sem sucesso!

Vi que ali não era lugar pra mim, pois eu não iria mudar, nem eles iriam me aceitar. Eu sabia que, se tinha um lugar onde eu seria rejeitado, que sofreria preconceito, era na igreja. Talvez aquelas pessoas não me amassem como falavam. Acho que nem eu mesmo me amava, pois somente me punia.

Foi difícil me afastar da igreja, refazer o ciclo de amizades. Foi difícil, mas aos poucos percebi que existiam pessoas que me amavam independente de minha sexualidade, gente que não fazia acepção de pessoas.

Ao sair da igreja vi o quanto era infeliz ali e que o que me mantinha eram as constantes ameaças de que seria castigado e rejeitado por Deus. Tinham transformado Deus num capitão do mato que caça escravos. Eu era mesmo um escravo – vivia a vontade dos outros, ou melhor, minha vontade era a vontade dos outros, a não ser pelo desejo de amar outras pessoas do mesmo sexo.

Aprendi o que era amor e que isso não depende de sexo, mas de almas que se encontram. Aprendi que encontramos a paz quando não fugimos dos nossos desejos e que o verdadeiro inferno é viver a vida que os outros esperam.

Por isso escrevi esse post, para te dizer que você pode ser mais feliz, que essa dor e culpa pode passar. Sei que não é fácil, pois tudo que ouviu só te faz sentir medo. Mas você pode superar tudo isso, ou então vai chegar na velhice chorando nas noites solitárias.

Sei que é difícil refazer os amigos e, por isso, quero dizer que temos um grupo que pode oferecer esse suporte, chama-se Cineclubesexualidades. Encontramos-nos quinzenalmente (em Salvador), discutimos essas questões e estamos prontos para te apoiar. Você não tem que enfrentar isso sozinho, pode contar com a ajuda de quem já superou isso.

Você pode viver os seus afetos do jeito que você deseja.

Com as dificuldades da vida, que todos passamos, sigo em paz!

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Ler 9088 vezes Última modificação em Sábado, 20 Julho 2013 15:41
Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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