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A masculinidade fingida: como disfarçar que você é uma bicha-amoeba

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Existem milhões de formas de ser homem, masculino, heterossexual ou homossexual. Temos poucos termos para nomear quaisquer dessas possibilidades, devido a um empobrecimento da linguagem em nossa cultura. E, talvez por isso, os sujeitos inventam novos termos ou combinem novas palavras para identificarem a si e aos demais. No que se refere a experiência de sexo entre homens, alguns termos tentam, ludicamente, nomear essas experiências. São eles: homem macho ou másculo, homem discreto, bicha cimento (não vou citar a marca, mas ela existe) e a bicha amoeba (um tipo de geleia que era usada como brinquedo para crianças anos atrás).

Esses termos são utilizados para nomear uma escala de masculinidade/feminilidade que vai da representação do homem heterossexual (macho) à identificação com a mulher (afeminado). O par homem/mulher heterossexual é tomado como referente para nomear o gênero e a sexualidade de todos os sujeitos.

Em minha pesquisa de mestrado, sobre os sites de relacionamento e salas de bate-papo para homens que buscam envolvimento sexual com outros homens, verifiquei que os sujeitos textualizam nos seus perfis a busca por diferentes corpos, sendo que há lugar no desejo sexual para homens novos ou idosos, magros, malhados ou gordos, negros ou brancos, machos e discretos, mas não para os afeminados.

Embora na contemporaneidade se valorize os corpos esculpidos, musculosos, o alinhamento sexo/gênero é o mais importante atributo na construção do desejo. Não significa dizer que não exista preferência pelo homem másculo, jovem, musculoso em referência aos outros, mas que o homem afeminado é o último nessa escala de desejo.

O sigilo e a discrição aparecem associados com essa exigência de masculinidade e rejeição ao homem afeminado, o que é um modo de tranquilizar os homens cujas práticas sexuais demandam anonimato. A exigência do segredo, especialmente para homens que não assumem uma identidade homossexual, é fundamental para a construção dos vínculos sexuais. O homem afeminado coloca em risco a invisibilidade da prática sexual entre homens, tão necessária para alguns.

Esse homem afeminado é chamado por esses homens masculinizados de “bicha/viado” e por sujeitos homossexuais ou outras bichas (mais familiarizados com as gírias), como “bicha-amoeba”. Obviamente existem outros termos e não tenho a pretensão de esgotar a quantidade de expressões usadas entre esses homens.

Voltando para a minha pesquisa, constatei que quase todos os homens mencionavam em seus perfis que não buscavam homens afeminados. As bichas-amoebas são rejeitadas no jogo social/sexual. Essa exclusão, no entanto, não se dá apenas porque esses homens masculinizados e que não assumem a homossexualidade precisam manter suas relações em segredo, mas principalmente por causa de uma política de gênero, ou uma ideologia que concebe o gênero como um atributo natural do sexo, de modo que ser homem significa, nesse modo de entendimento, ser “másculo”.

Esses homens acreditam numa essência de sujeito, uma substância de gênero expressa em atributos de masculinidades. Muitos perfis relatam a crença que: “homem tem que ser homem, mulher tem que ser mulher”, ou que para ser “gay não precisa ser mulher”.

Alguns sujeitos não se conformam em buscar “machos” e parecem exigir um selo de garantia ou um atestado que o outro seja de fato um homem que expresse sua masculinidade conforme o padrão heterossexual. Nesse sentido alguns dizem: “busco homens de verdade / quero macho autêntico”, expressando uma crença numa masculinidade verdadeira/autêntica como atributo de gênero.

A exigência do macho autêntico revela não apenas uma idealização de gênero, mas também os fracassos dos encontros amorosos que tomam a masculinidade como valor principal. Isso porque nem todos os homens são tão machos como dizem ser ou como parecem acreditar.

 

É por esse motivo que muitos já não confiam quando alguém diz que é macho, pois já encontraram diversos sujeitos que estavam mais para amoeba do que para virilidade. Como o preconceito com os afeminados é muito forte, muitos são levados a se dizer machos, caso contrário não conseguem marcar encontros amorosos.

Alguns usam apenas o termo discreto para falar de si e macho como exigência ao outro, revelando uma certa masculinidade mais frouxa, muito mais comprometida com a manutenção do segredo do que com um perfil de homem-machão e viril.

Um experimento que fiz algumas vezes no chat do Uol foi entrar com diversos apelidos e contabilizar as interações com cada um deles, entre esses: MACHÃO-ATIVO, MACHÃO-PASSIVO, MACHÃO_HIV e GATO-AFEMINADO. Para minha surpresa, o apelido “Gato-Afeminado teve menos interações que o apelido associado ao HIV. Uso essa experiência como indicativo apenas, pois pode ser que essa maior interação com determinado sujeito (HIV) tenha relação com uma maior confiança nos métodos de proteção nas práticas sexuais, como a camisinha, por exemplo.

Não é à toa que os Manuais de Saúde Mental consideram a identificação do homem com o feminino ou da mulher com o masculino como um transtorno. Esses sujeitos parecem partir desse ponto de vista – a bicha amoeba é, assim, quase que criminalizada, em alguns casos vista como doente.

Uma das questões que levantei foi: “como as amoebas fazem sexo num contexto que exige tanta masculinidade?” Há um grande número de estratégias ou, como se diz na gíria gay, “muitos truques”, e alguns me chamaram atenção, embora certos modos de “fingimento” da masculinidade sejam pouco realizados e, entre esses, estão:

1 – Chá de cimento: que corresponde a um investimento numa masculinidade estratégica, que corresponde a: 1) evitar rebolar, pois é preciso que o corpo seja rígido (por isso a associação com o cimento), não desmunheque e principalmente não bata-cabelo ou faça movimentos bruscos com a cabeça de um lado para o outro. Além dessa rigidez postural é necessário manter uma voz firme e grossa e, por isso, alguns homens preferem falar ao telefone ou aplicativos de voz para avaliar a tonalidade da voz do outro, pois, como dizem esses sujeitos, as bicham miam (falam fino).

Além da postura na voz é preciso evitar as gírias, tais como; “uó, mona, bofe, aquendar[1]e outros termos que selam a identidade amoeba. Em lugar disso, é mais adequado usar termos como: mano (se o outro morar em bairros mais populares), véi (se for despojado) e brother (que é um modo mais generalizado).

As roupas devem ser discretas, pois as bichas fashionistas se entregam logo. Nesse sentido, é bom evitar o terceiro piso daquele shopping famoso de Salvador. Pegar no saco escrotal é fundamental e a ação pode se repetir algumas vezes. Senão souber fazer isso corretamente, solicite ajuda de alguma amiga lésbica, pois algumas delas têm muita facilidade na construção da masculinidade.

É bom evitar passar o seu perfil no facebook. Diga que não tem, pois certamente a sua rede de amigos dirá quem você é! Nas fotos, mostre o polegar e tire a imagem de baixo para cima, pois isso aumenta o peitoral e dá a impressão de que o corpo é mais forte do que realmente é. Chamar cerveja de “breja” e trocar o termo escondido por “encolha” é uma boa também, sobretudo para encontrar homens com mais de 30 anos. Importante achar que “crocodilo” é apenas um animal, jamais nome de bloco de Carnaval.

2-  Versatilização – alguns sujeitos investem numa prática sexual versátil como modo de evitar a associação entre passividade e feminilidade. Constatei que a maior parte das pessoas, nos seus perfis em que se diziam versáteis, buscam apenas homens ativos. Se a versatilidade significa estar aberto a práticas sexuais penetrando ou sendo penetrado, por que buscam apenas homens ativos? Outro modo com que verifiquei essa versatilização foi nos chats. Entrei mais uma vez nos chats com mais de um apelido ao mesmo tempo, sendo um dos apelidos com referência a atividade e outro associada com a passividade. Conversei com um mesmo sujeito, ao mesmo tempo e com os dois nicks, sem ele saber. Para o apelido ativo, o sujeito dizia que era versátil, mas para meu apelido passivo, dizia que era passivo, ou seja, a versatilidade era apenas uma forma de impressionar o ativo e utilizar o suposto uso do pênis como sinal de masculinidade.

3 – Ativa de Equê – alguns sujeitos dizem que são ativos, mas que buscam apenas sexo com outros ativos e fazem com que o outro acredite que na hora do sexo ele foi seduzido a ser penetrado pela primeira vez – alguns inclusive simulam sentir uma dor e gritam como se não fossem suportar a penetração, mas é tudo mentira, um equê.

4 – Travestilidade estratégica – alguns se vestem e se caracterizam como mulheres (aqui se imita mais a feminilidade que a masculinidade) para conseguir homens heterossexuais, com maior nível social e culturalmente considerados mais bonitos. Um desses sujeitos ia para as ruas para simular prostituição, mas o que estava em voga não era o dinheiro, mas o acesso a homens que ele, numa identidade bicha-amoeba, não conseguiria. Outros se transvestem em casa e usam recursos como webcams para atrair outros homens. Esse modo de disfarce é importante também para pensar o desejo do homem heterossexual, que se permite ao sexo com outros se esse estiver encenando uma feminilidade, de modo menos problemático que a encenação da masculinidade.

5- Casamento de araque – alguns dizem que são casados com mulheres, simulam uma exigência de segredo maior que a necessária, apenas como representação de masculinidade.

6 – Evitar andar com mulher -  a masculinidade tem relação com uma sociedade de machos, de masculinidade que se constrói como uma forma de relação em que a mulher é menos importante. Primeiro o outro homem, amigos e parceiros, depois a cerveja e o futebol e, por fim, as mulheres.

Obviamente existem outras formas de emular uma masculinidade para conseguir parceiros, mas citei apenas algumas com o intuito de chamar atenção para a quantidade de energia gasta na produção de uma masculinidade considerada natural ou conscientemente encenada.

Mas essas estratégias não estão disponíveis para todos, alguns não conseguem disfarçar uma masculinidade porque os seus corpos são provas abissais de como o gênero é construído e nem sempre essas construções podem ser desfeitas ao bel prazer do sujeito. As repetições de gênero ganham forma e adquirem consistência de modo que o trânsito nem sempre pode ser feito a qualquer momento e por espontaneidade.


 

É importante dizer também que nem todos precisam simular uma masculinidade, e isso porque os padrões de masculinidade não são estáticos, mas estão constantemente mudando. Usar brincos, calças e camisas coladas já pode ser considerado, em alguns contextos, como parte da cultura heterossexual.

Especialmente na Bahia, os homens fazem as sobrancelhas, depilam o corpo, malham excessivamente a bunda e, como analisou Leandro Colling, em seu último texto, rebolam. Assim, é possível que alguns comportamentos antes considerados afeminados hoje sejam lidos como “naturais” de um homem heterossexual.

A cientista social Raewyn Connell (1995)[2] discute algumas questões sobre a masculinidade que podem servir para analisar esse contexto em que os homens exigem e produzem masculinidades. Entre essas questões, aponta: a) a existência de diferentes masculinidades produzidas num mesmo contexto social, com relações de cumplicidade, marginalização e de dominação. Uma determinada forma de masculinidade possui outras formas agrupadas em torno delas; b) qualquer forma de masculinidade é contraditória, expondo elementos dos universos masculinos e femininos.

De fato essas relações afetivossexuais entre homens estão marcadas por essas questões, principalmente hierarquia e dominação, de modo que em torno de certas masculinidades se agrupam outras, talvez consideradas como precárias. Um sistema que tem o homem másculo e heterossexual no topo e, em torno dele, outros sujeitos com outras representações de masculinidade, que mantém outras hierarquias e relações de dominação.

Muitas dessas masculinidades são contraditórias, contaminadas com códigos do masculino e feminino. Esses códigos do feminino são talvez mais facilmente lidos pelos homossexuais como modo de denúncia de homossexualidade ou como popularmente se diz, um gaydar ou radar que denuncia quem é gay.

Essa concepção de Connell é criticada por supor uma masculinidade hegemônica e outras não-hegemônicas, como se fossem posições binárias, em disputa, em que algumas se contrapõem às dominantes com a pretensão de reconhecimento e luta pela predominância. Em lugar de busca por esse lugar hegemônico se problematiza se essas identidades não buscam legitimidades em si mesmas.

Nesse jogo de luta uma com as outras ou apenas em torno de legitimidade, uma coisa é certa: alguns sujeitos sabem que estão encenando uma masculinidade, enquanto outros estão inconscientes dessa condição imitativa, mas sobre isso quero falar no próximo texto.


[2] CONNELL, R. W. Políticas da masculinidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 185-206, 1995, p.185 -206.

LEITURA COMPLEMENTAR

BRAGA GÉSNER.  Por que a passividade é tomada como uma condição humilhante? Disponível em: http://www.institutoadediversidade.com.br/comportamento/por-que-a-passividade-e-tomada-como-uma-condicao-humilhante/

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Ler 17548 vezes Última modificação em Sábado, 20 Julho 2013 15:24
Gilmaro Nogueira

Gilmaro Nogueira é psicólogo, especialista em Estudos Culturais, História e Linguagens, mestre em Cultura e Sociedade (UFBA), pós graduando em Atenção a usuários de Álcool e outras Drogas (UFBA), membro do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). Pesquisa práticas e discursos afetivo-sexuais entre homens em sites de relacionamentos e quinzenalmente se reúne com amigos para assistir e discutir filmes sobre a temática da sexualidade.

Email: gibahpsi@gmail.com

Website.: https://www.facebook.com/gilmaro.nogueira

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