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Quarta, 17 Julho 2013 16:45

Liga a TV, vai começar o show de horrores!

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Desde tempos muito remotos, o ser humano transforma aqueles que são “diferentes” em fetiches, espetáculos a serem contemplados e aplaudidos sob olhares de espanto, riso, medo e chacota. Esses seres, distantes da definição de normalidade aceita e postulada por discursos e regimes jurídicos e políticos, já tiveram o seu lugar em um palco circense mais… “bizarro”, digamos assim.

 

Atrações de freakshows norte-americanos. Reprodução/ Charles Eisenmann

Eram muito comuns em cidades norte-americanas, nos séculos XIX e XX, os freakshows(show de horrores), espetáculos em que o objetivo era causar espanto no público exibindo uma diversidade de atrações cujos corpos apresentavam diferenças genéticas mais incomuns, como o gigantismo, o nanismo, a neurofibromatose, pessoas albinas, gêmeos siameses, além de animais como vacas de duas cabeças, bichos com um olho só, porcos e cabras de quatro chifres etc.

São esses os considerados corpos marginais, ou simplesmente abjetos, situados em zonas invivíveis, já que não se adequam a modelos de corpos nem de vivências exigidas para serem considerados normais: falta-lhes algo para possuírem o estatuto de sujeitos, como se fossem menos humanos ou, enfim, inumanos.

William “Bill” Durks, o homem de 3 olhos. Fonte: “My Very Unusual Friends” - Ward Hall

E @s travestis, transexuais, intersexos e transgêneros? Seus corpos embaralham a noção de gênero inteligível, ou seja, resultante da perfeita equação entre sexo, gênero, desejo e práticas sexuais (nessa lógica, os que nascem com pênis devem se tornar homens, desejar e praticar sexo com mulheres e essas seguiriam o modelo pelo mesmo raciocínio binário), como reflete a pensadora Judith Butler. Esse é um dos caminhos para o sonho perfeito criado pelo capitalismo, o do conforto de uma sociedade que se realiza em bens de consumo, trabalho digno, casa aconchegante e família feliz de comercial de margarina.

A identidade travesti está, de um modo geral, associada à fabricação de um novo corpo, ao invés de sua constante simplificação em práticas e orientações sexuais, que podem ser as mais diversas. Elxs investem justamente nesse contínuo de construção/desconstrução de seus corpos e, por conseguinte, das próprias vivências e matrizes sociais a que pertencem. Mas qual corpo não é modificado, interferido, alterado de uma forma ou outra?

Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=J-Cn-M4SpuY

Quantas medicações não ingerimos durante toda a nossa vida? E as longas sessões de academia, as tatuagens e as mudanças em salões de beleza? E as cirurgias plásticas, também não são alterações corporais? Com certeza, sim. Mas tocar no sacrossanto sexo/gênero é um crime, um pecado, um passaporte para se tornar uma aberração. Contraditório, não?

Travestis rompem as linhas tradicionais de gênero e nos propõem reflexões sobre o quanto diversificado é todo e qualquer ser humano. Suas identidades, no entanto, são estigmatizadas e não incluídas na “zona de conforto” que – ilusoriamente – nos traria a segurança e a “felicidade” amplamente divulgada na contemporaneidade.

Corpos trans têm dificuldades em acessar a bens básicos como educação, saúde e a possibilidade de emprego, por isso muitas travestis encontram na prostituição sua única alternativa: elas são estigmatizadas, violentadas e invisibilizadas… mas, por outro lado, atraem os muitos homens que as desejam e se tornam fetiches e personagens desse show de horrores contemporâneo que toma conta das TVs, invade nossos lares, expondo acriticamente as mazelas de nossa população mais humilde, ou pior, transformando a miséria, a violência e a pobreza em espetáculo.

Esses referidos programas de televisão, também conhecidos como “jornalismo de esgoto” (me recuso a citar seus nomes), recorrem constantemente a personagens que possam se tornar o mais novo monstro a ser exposto em seu palco bizarro. São programas que existem em todo o Brasil, com um formato semelhante, exibindo cadáveres, entrevistando presos em flagrante e sugando ao máximo o sofrimento alheio para transformar tudo isso em “notícia”, em show.


 

Travestis são personagens recorrentes nesses programas, quase sempre exibidas em delegacias e em situações que as identificam como “fora da lei”, bandidas, marginais, roubando e/ou agredindo seus clientes ou envolvidas em confusões que merecem as luzes desse freakshow. O que nunca é respeitado, inclusive, é o próprio gênero delas: os repórteres sempre se referem às travestis como ele, “o travesti”. Seu gênero está visível na forma como se apresentam, seja em seus nomes sociais ou na identificação mais que explícita com o feminino; a opção por referir-se de forma contrária é a de denotar o seu status de anormalidade.

A intenção dessas reportagens em “coisificar” as travestis é refletida nas situações de acusação por roubo ou violência praticados por elas: quase sempre as supostas “vítimas” são poupadas do escracho de aparecer em tal situação, tem o rosto tapado pela edição ou sequer aparecem nela. Sem contar os efeitos sonoros que ajudam na ridicularização desses corpos, completamente expostos aos risos perversos, que se ouvem nas delegacias.

Além de terem seus rostos expostos na TV, essas reportagens logo são compartilhadas na internet e vistas por milhares de pessoas. Não são raros os comentários rotulando-as como aberrações, pobres coitadas, almas perdidas ou mesmo criminosas. Essa exposição é um verdadeiro gozo para quem gosta de se deliciar da desgraça alheia e conferir casos de “bizarrices” e “anormalidades” (basta jogar no google ou youtube termos como “delegacia” e “travesti”, para conferir alguns exemplos).

Link com o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=OjdFsDo3hjY

A narrativa desses jornalistas de esgoto reforçam com intensidade o caráter de abjeção e inumanidade intrínsecos às pessoas trans… aprisioná-las nessas margens garantiria o conforto higiênico de ter e fazer parte de uma família normal, de ser uma pessoa normal, refletindo-se, em alguns pais, na reprodução de uma recorrente frase: “meu filho, seja gay, mas nunca se torne UM travesti, pelo amor de Deus!”.

Podemos discutir de onde vem essa noção de abjeção e normalidade. Quem cria e quem determina quem é normal ou anormal? Quem merece esse rótulo? Quem merece ser aceito e fazer parte de forma íntegra à sociedade? Quais são os corpos que de fato importam? Assim como algumas comunidades ditas populares, circunvizinhas a bairros de luxo, são consideradas cânceres nas cidades e cidadãos e cidadãs negrxs e pobres são ainda constantemente marcadxs por cor da pele e classe social, existem pessoas ainda menos humanas. Há elementos desse abjeto em cada ser humano, em todo o campo social e essa abjeção é um ponto de vista, assim como as culturas também são, ou seja, o que nos causa estranheza aqui pode ser o referido “normal” em outros lugares e contextos socioculturais.

Podemos dizer que todos temos nossos monstros, que não vivem em armários e florestas, mas em toda parte, subjetivos e ao mesmo tempo reais, parte de si, parte do outro, para além de linhas ou traços definidos simplesmente pelos parâmetros denormalidade. Mas os “monstros” que a sociedade elege para serem alvo de risos, contemplação e violência, esses sim são os que sofrem com a invisibilidade, a exclusão e a ignorância. São inúmeras as violências sofridas, porém ocultadas ou impunes, mortes frequentemente ignoradas e subjetividades destruídas sob as luzes de um palco impiedoso. Levantem-se, aplaudam nossas aberrações, plateia.

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