Políticas do CUS

Sexta, 19 Setembro 2014 11:29

Está na hora de repensarmos as paradas (Texto originalmente publicado no Blog Cultura e Sexualidade do Ibahia.com em setembro de 2013)

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Escrito por: Leandro Colling, Djalma Thürler, Gilmaro Nogueira, Carlos Henrique Lucas Lima e Fábio Fernandes*

Aqui no blog, já escrevemos textos sobre a importância das paradas gays. Em um deles, postado no ano passado, Leandro Colling rebate as críticas de que as paradas teriam perdido as suas funções porque teriam se transformado em “carnavais fora de época”. O autor chamava atenção para o fato de que é possível fazer política de outras formas, inclusive festivas, e de que é preciso pensar no impacto nas subjetividades de pessoas LGBT que, ao irem a esses eventos, se sentem felizes em manifestar os seus desejos e ao encontrar tantas pessoas que enfrentam os mesmos problemas no dia a dia (leia texto completo aqui).

No entanto, em especial após os tristes acontecimentos registrados na Parada Gay da Bahia do último dia 8 de setembro (leia mais aqui), acreditamos que esteja na hora de repensar esse diagnóstico e as próprias paradas de uma forma geral, em Salvador ou outras cidades. Por quê?

  1. 1) Ao invés de poder manifestar livremente os seus desejos nas ruas, o que temos visto com muita intensidade é exatamente o contrário. São vários os relatos de gays, lésbicas e pessoas trans que foram agredidas/os nas paradas exatamente por serem como são. Gays afeminados agredidos por homens fortes e homofóbicos de forma gratuita, lésbicas acompanhadas por suas namoradas sendo ameaçadas de estupro por homens inconformados, além de roubos, arrastões, tiros e agressões físicas.

É evidente que em uma multidão casos assim sempre podem acontecer, mas na última parada isso ficou muito mais intenso, em especial nos arredores do trio puxado pelo cantor Igor Kannário, assunto sobre o qual falaremos a seguir. Aqui basta perguntar: o que sente uma pessoa LGBT que vai à parada para festejar a sua forma de ser e é agredido por homo/lesbo e transfóbicos? Uma parada que gera esse tipo de ação não deve ser repensada, rediscutida, revista? Nós pensamos que sim;

  1. 2) Outro aspecto que merece preocupação é a transformação das paradas em mero produto do mercado. É evidente que não pretendemos sugerir que algo, em uma sociedade capitalista, fique imune à lógica do mercado, mas cabe aos organizadores das paradas incentivarem a lógica do mercado sem nenhuma criticidade? Hoje nossas paradas não estão recebendo recursos públicos porque elas potencializam (?) a plena cidadania de pessoas LGBT, mas porque elas são ótimos produtos para a indústria do turismo. O cúmulo disso é tamanho que o governo da Bahia, por exemplo, investiu pesado na parada como atração turística, mas em outras áreas, como educação, saúde e segurança, não investe em políticas públicas para a plena cidadania de pessoas LGBT.

Por isso, aqui perguntamos: de que adianta o governo, na área turística, investir nas paradas se ele não realiza outras ações concretas para o reconhecimento e respeito à diversidade sexual e de gênero? Nos últimos dias 6 e 7 de junho, por exemplo, participamos de um evento promovido pelo governo do Estado, para novamente “discutir” políticas LGBT, e ficou evidente que o governo praticamente nada tem feito nessa área e, ao que parece, continuará nada fazendo além do turismo. Apenas para dar outro exemplo: existem vários projetos da área de cultura LGBT que foram contemplados em editais e o governo ainda não repassou os recursos para os contemplados alegando contingenciamento de recursos.

E mais: como explicar o fato do turismo ter investido nesta parada e a segurança pública não ter enviado o policiamento necessário?

Essas coisas nos permitem dizer que a parada virou apenas um negócio de turismo para o próprio governo, com a completa conivência dos seus organizadores, no caso local, o Grupo Gay da Bahia (GGB);

  1. Além disso, a cada parada, surgem questionamentos quanto a privilégios concedidos a determinados grupos e da aberta prestação de contas. Na programação da última parada, por exemplo, algumas ações não foram realizadas em função da completa desorganização da comissão organizadora que desejava, inclusive, reduzir pela metade o valor combinado do cachê dos artistas implicados na ação. Em outras cidades do Brasil, esses tipos de problemas foram resolvidos com a democratização e transparência na organização das paradas. São Paulo, por exemplo, elege uma diretoria de uma Associação, em um esforço democrático de gerir e organizar a parada;
  2. 4) Por fim, vamos falar da polêmica em torno da presença do cantor Igor Kannário. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o cantor atrai uma legião de pessoas que provocam muitas brigas e arrastões. Além disso, as músicas cantadas pelo cantor podem ser consideradas machistas, misóginas e homofóbicas. Como um cantor e trio com esse perfil estão em uma parada gay? Os organizadores da parada disseram que não sabiam que o cantor estaria em um trio. Ao invés de atenuar as suas responsabilidades, essa resposta apenas deixa o quadro ainda mais tenebroso. Como não sabiam? Se não sabiam com antecedência, por que não impediram o trio de sair ainda no Campo Grande? Qualquer pessoa que chegava na concentração da parada via que o trio, assinado com o nome do cantor, se preparava para sair! O curioso é que todos os fãs do cantor sabiam que ele sairia na parada, pois em sua conta no twitter ele já anunciava, na quinta-feira, dia 5 de setembro, que sairia com trio na parada. Só quem não sabia era o GGB?

Várias pessoas postaram em suas redes sociais as suas indignações sobre a última parada. Para finalizar o nosso texto, escolhemos duas delas, publicadas no Facebook, nas quais as artistas transformistas Bia Mathieu e Dion Santtyago demonstram sua indignação em relação ao que expomos acima.

Bia Mathieu

“Eu, como artista da cena LGBT, cidadã e Gay estou indignada com a bagunça que se tornou a nossa Parada. Há anos eu frequento o evento e sei como brilhamos na festa, como somos reconhecidas, abraçadas pela sociedade que se faz presente na manifestação. Sinceramente eu queria uma resposta do Grupo Gay Bahia Ggb pois foi uma mídia em cima de Daniela Mercury como rainha, que desempenhou sim um excelente papel assumindo a sua homossexualidade, mas a ideia é lutar pelos nossos direitos, aproveitar a imprensa e mostrar que somos cidadãos iguais a todos que tem direitos e deveres. Ver crianças nos abraçando, pedindo fotos é lindo de mais, porém a bagunça esse ano não permitiu a beleza tão esperada por todos ali. Kd a polícia? Por diversas vezes eu via brigas durando minutos e nada de polícia. A mídia hoje ao invés de falar sobre a diversidade, voltou a atenção para a bagunça que se tornou o arrastão, pq isso não foi uma parada gay. Nunca soube de relatos de tiros na parada, esse ano há mais ou menos cem metros de onde eu estava, pude ouvir no mínimo 6 tiros. Um adolescente foi atingido, e o tumulto tomou conta deixando todos indignados. Ai quando vemos fotografias, tudo muito bonitinho e as placas do GGB, mostrando atividade? Sinceramente eu não vejo atuação desse grupo e deixo claro o meu repúdio. Não sou de rodeios, nem falar por trás… Sinceramente, espero um posicionamento plausível. Muitos questionam a presença de Igor Kanário. Tudo bem que ele não é um artista que lute pela causa, nem tenha influência alguma no nosso meio, mas estava ali desempenhando o seu papel como artista. Pra estar ali ele foi contratado por alguém? Ai não entendo pq Âncora Do MarujoCabaret ChirroutteMelancia Blue que são casas onde o povo nos encontra, não recebem sequer um convite e ou apoio para botar um trio na rua. Não entendo pq não convocam um trio com vários transformistas em apresentações simultâneas. Não entendo tb pq não convidam outras grandes artistas que fazem parte da nossa cena como Marcia Short, Márcia Freire, Ludmilah Anjos…. Quem estava envolvido no evento pode ver alguns eventos estavam na programação e por descumprimento da instituição, não saíram do papel. Enfim, espero que os próximos 365 dias sejam de reflexão e trabalho de verdade para o GGB, e que se espelhem nas grandes capitais, para sim termos uma PARADA GAY DIGNA DOS SERES DIGNOS QUE NÓS SOMOS… Muito triste com tudo isso, gostaria de hoje poder ter orgulho do Grupo Gay do meu Estado.” (Bia Mathieu, postagem publicada no Facebook).

Dion Santtyago

“Venho agradecer em meu nome e em nome de toda a minha Equipe, aos meus amigos, fãs e participantes que nos prestigiaram durante todo o percusso, mesmo com todos os contratempos que infelizmente aconteceram este ano, por conta do Trio que estava na nossa frente sob o comando do cantor Igor Canário, de onde pude observar tamanha cenas de violência entre os foliões que o acompanhavam. Fato esse que descaracterizou totalmente o real sentido da nossa Parada Gay. Fica aqui o registro de minha tristeza pelo lamentável ocorrido e uma grande felicidade por observar o quanto sou querida, pois não foram centenas e sim milhares que acompanharam o nosso Trio do início ao fim. Obrigada a Marcelo Cerqueira pelo carinho e respeito, Obrigada ao GGB, nas pessoas do Cristiano Santos, Otavio Reis e Dennys Gomes por todo o carinho.” (Dion Santtyago, postagem publicada no Facebook)

* Integrantes do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS)

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