Políticas do CUS

O que o universo trans nos ensina? – Parte 1

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Quem acompanha o nosso blog desde o início sabe que já prometi desenvolver alguns assuntos. Está na hora de começar a cumprir as promessas. Uma delas anunciava que eu tentaria fazer uma distinção entre travestis, transexuais, transformistas e transgêneros/as. Vou fazer isso em duas partes, pois o tema é muito complexo, mas aviso desde já que estes textos não interessam apenas a quem se identifica com alguma dessas categorias. Pretendo demostrar como as experiências trans nos ensinam sobre a sexualidade em geral, inclusive sobre as heterossexualidades.

 

Lembrei de falar sobre o tema assim que li a notícia de que o governo do Estado da Bahia passará oficialmente a respeitar e usar o nome social das e dos servidores públicos travestis e transexuais. Este é apenas um exemplo de como uma ação política pode diminuir muito o sofrimento de algumas pessoas, sem gastar um centavo. Além disso, tivemos o lançamento de uma nova campanha contra a Aids, que ilustra e ajuda a explicar o meu texto.

No Brasil, em geral, quando se fala em travesti imediatamente as pessoas pensam em pessoas que “nasceram homens, se vestem de mulher” e fazem algumas intervenções corporais, como uso de silicone (em especial nos seios e nas nádegas). Ou seja, são pessoas que possuíam um corpo tido como masculino e que se identificam fortemente com o universo feminino e, por isso, realizam variadas mudanças. A identidade dessas pessoas é feminina e o indicado é que todos/as respeitam esta identidade e, por isso, as chamamos por “as” travestis, e não “os” travestis.

No entanto, também existem “os” travestis, embora em menor número e visibilidade. São pessoas que nasceram “como mulheres” e possuem forte identificação com o universo masculino e também realizam intervenções, como a troca de nomes, uso de hormônios (neste caso a testosterona) e se “vestem como homens”. Além disso, é preciso dizer que a palavra travesti, em outros contextos e países, pode significar o que nós chamamos de transformistas.

Os e as transformistas (aqui também o indicado é usar o artigo de acordo com a identidade com a qual a pessoa se apresenta e/ou deseja) são artistas que se “travestem” com o gênero oposto apenas momentaneamente, em especial para apresentações artísticas. Também ligadas ao universo artístico, mas não só, ainda existem as drags queens e os drags kings. O universo drag se difere do transformismo porque nestas performances não existe o objetivo de “parecer” uma mulher ou um homem. O objetivo é parecer drag mesmo, através do exagero, do choque, da montagem em si.

Scher Marie Mercury e Daniela Mercury - Foto: Genilson Coutinho

Nenhuma drag quer parecer uma mulher, passar despercebida como um homem montado de mulher. Este é um objetivo muito recorrente entre as transformistas. Na Bahia, por exemplo, existem transformistas que querem parecer ao máximo com Daniela Mercury ou Ivete Sangalo.  Vejam as fotos de Scarleth Cabochard Sangalo e Scher Marie Mercury e compare com a de Sfat Auerman, uma drag muito talentosa da Bahia.

Scarleth Cabochard Sangalo

 

Sfat Auerman

Mas todas as distinções que já fiz e vou fazer são muito precárias. Isto porque existe uma variedade de modos de ser travesti, transformista e drag. Em relação às travestis, por exemplo, existe uma grande diferença entre a chamada “nova geração”, composta por jovens que “se montam” às vezes e não fazem uso do silicone. Muitas destas pessoas também se identificam como travestis, para espanto e indignação das travestis mais velhas, que muitas vezes chamam as mais jovens de “as gays”, que não seriam “travestis de verdade”.

Um ótimo estudo sobre o tema foi feito pelo pesquisador Tiago Duque, publicado no livroMontagens e desmontagens: desejo, estigma e vergonha entre travestis adolescentes(Editora Annablume).

Valerie O'rarah - Foto: Nelson Oliveira

Uma grande diversidade também existe no universo transformista e drag. Algumas pessoas que se apresentam como artistas transformistas incorporaram alguns elementos do universo drag com a cultura local e geraram novas misturas muito interessantes. Na minha leitura, esse é o caso de Valerie O’rarah. Valerie é, neste sentido, inclassificável. Talvez isso explique, inclusive, o seu sucesso entre a comunidade LGBT da Bahia. Além do seu talento como artista dubladora e comediante de stand-up, é claro. Quer ver as transformistas e a drag citadas aqui? Vá ver o lindo espetáculo Soul Transformista, em apresentação nesta quarta, dia 12, às 20h no Teatro Gamboa Nova. Mas, repito: a riqueza destas experiências é muito maior do que estou delineando aqui, pois ainda existem as travestis que são artistas transformistas também, como é o caso de Marina Garlen.

Já as pessoas que se identificam como transexuais, diferente das e dos travestis, em geral são caracterizadas como aquelas que desejam fazer a chamada “cirurgia de mudança de sexo”. No entanto, vários estudos acadêmicos realizados no Brasil, a exemplo dos realizados por Berenice Bento (leia, por exemplo, o livro A reinvenção do corpo), apontam que existem muitas pessoas que reivindicam a identidade transexual mas que não desejam fazer a completa intervenção cirúrgica de “mudança de sexo”.

Muitas vezes, essas pessoas se contentam em implantar ou retirar seios, tomar hormônios para que cresçam ou desapareçam pêlos pelo corpo. Aí algumas pessoas perguntam: mas então muitas transexuais na verdade são travestis? Eu respondo: não. Por que não? Porque nós estamos falando de identidades e cada identidade é composta por um grande leque de características que nunca deixam de ser criadas e recriadas. Não podemos criar categorias tão rígidas do que é ser, por exemplo, uma ou um “transexual de verdade”, como faz o discurso médico em relação a este tema.

Por isso, sempre que estamos falando de identidades, o fundamental é respeitar o modo como as pessoas desejam ser identificadas. Ou seja, as pessoas que se identificam como transexuais possuem diferenças em relação às e os travestis. E essas diferenças não podem ser reduzidas a ter ou não determinado órgão sexual. O que quero dizer é que existem modos de ser travesti e modos de ser transexual. Esses modos de ser é que irão fazer com que as pessoas se identifiquem ou não com essas identidades.

No Brasil, até bem pouco tempo, praticamente só conhecíamos as transexuais, mas nos últimos dois anos cresceu a visibilidade dos transexuais, que inclusive fundaram uma associação nacional própria. Quem quiser conhecer a história daquele que é considerado o primeiro transexual operado do Brasil, leia ótimo livro de João W. Nery, intitulado Viagem solitária.

Um dos grandes problemas é que a transexualidade ainda é considerada uma doença. Ou seja, para que uma pessoa tenha acesso ao Sistema Único de Saúde e tenha o direito de realizar o tratamento de “mudança de sexo”, ela precisa passar por um longo acompanhamento médico e ser e se considerar uma pessoa doente. Felizmente, cresce no mundo a campanha pela despatologização das identidades trans (leiam um dos manifestos em http://www.cchla.ufrn.br/bagoas/v04n05art15_manifesto.pdf).

Inclusive entidade que eu presido, a Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH), acabou de aderir a esta campanha (vejam nossa carta pública emwww.abeh.org.br). São várias as razões para defender o fim da patologização das identidades transexuais. A mais importante delas talvez seja a de que, ao patologizar a identidade trans, na verdade a medicina continua a patologizar uma identidade de gênero que é distinta da norma hegemônica.

Se a transexualidade é mais uma das possíveis identidades de gênero que existem na sociedade, por que consideramos uma destas identidades como doença e as outras não? Desenvolverei esta questão em meu texto da próxima semana, prometo. E nem falei ainda das e dos transgêneras/os e do quanto tudo isso nos ajuda a entender a sexualidade em geral, em especial as heterossexualidades.

Até a próxima quarta

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Leandro Colling

Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Professor da UFBA e coordenador do CUS.

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