Políticas do CUS

O que o universo trans nos ensina? Parte 2

Avalie este item
(0 votos)

No meu texto da semana passada, tentei apontar algumas diferenças entre travestis, transexuais, transformistas e drags, enfatizando que essas “categorias” são bem diversas entre si e que, muitas vezes, elas se cruzam. Faltou falar do outro T, de transgêneros/as. Esse é o objetivo do texto de hoje. Na próxima semana, responderei, afinal, a pergunta título destes meus dois textos. O que esse universo trans nos ensina sobre o campo das sexualidades e dos gêneros? Pensei que daria para terminar a série hoje, mas fui escrevendo e não consegui parar. O tema é apaixonante, apresenta tantas nuances e fica difícil resumir tudo sem perder a riqueza destas experiências.

 

Definir o que são pessoas transgêneras também é um desafio. Alguns/mas pesquisadores/as e ativistas usam o termo como um guarda-chuva para se referir a todas as pessoas que, de alguma forma, transitam entre os gêneros mais conhecidos (ou seja, o masculino e o feminino). Eu tenho problemas com essa definição e uso do termo. Por que? Porque a observação da vida mostra duas coisas: 1) É crescente o número de pessoas que se identificam como transgêneras e que apresentam diferenças entre travestis e transexuais; 2) Todos nós, a rigor, somos um pouco transgêneras, pois as pessoas não são 100% masculinas ou 100% femininas, embora a maioria assim o entenda.

Vamos por partes, como Jack. Ponto 1: O que as pessoas transgêneras têm de diferente das e dos travestis e das e dos transexuais? Várias coisas, entre elas:

a) Essas pessoas transgêneras radicalizam a ideia de transitar entre os gêneros. Em determinados dias, elas podem estar a fim de sair de casa com alguns elementos marcados como do universo feminino (algumas peças de roupa, maquiagem, jóias, adereços etc) e em outros dias estão mais identificadas com o que é considerado como universo masculino e assim se vestem e comportam. Isso não tem nada a ver com performances artísticas, estou falando da vida cotidiana, ok?;

b) Pessoas transgêneras não aspiram o gênero que é tido pela sociedade como oposto ao seu, desejo que é bastante comum entre travestis e transexuais. Elas (as transgêneras) não se identificam nem como homens e nem como mulheres porque não se identificam com o que a sociedade construiu como identidades masculinas e femininas. Essas pessoas se sentem bem no trânsito e, com isso, estão sempre construindo novas combinações de gênero. Todos nós cotidianamente construímos o nosso gênero, nos “montamos”, para usar uma expressão usual do universo trans, a diferença é que as pessoas transgêneras fazem isso de forma mais explícita e, algumas vezes, até como política do cotidiano, em sua esfera micropolítica.

Não estou dizendo que qualquer pessoa pode trocar de gênero a qualquer momento que desejar. A maioria de nós internalizou de tal forma as normas de gênero que jamais conseguirá sequer passar um batom (no caso das pessoas fortemente identificadas com o universo masculino). E o trânsito entre os gêneros não pode ser um argumento para validar determinadas teses de cura da homossexualidade. Já ouvi coisas como: “se a pessoa pode transitar, porque ela não transita para uma identidade que é repeitada pela sociedade e não fica lá?”. Se quisermos uma sociedade que respeita a diversidade sexual e de gênero, os trânsitos devem ser respeitados e jamais devem ser trânsitos obrigatórios, compulsórios.

Além disso, em nenhum momento, até agora, eu falei sobre a prática sexual das pessoas travestis, transexuais, transformistas, drags e transgêneras. Até agora eu falei de questões de gênero, mas a pergunta que reproduzi acima mostra como automaticamente as pessoas ligam a prática sexual homossexual com o universo trans. Pois é preciso dizer que existem pessoas trans que são heterossexuais, homossexuais, lésbicas, bissexuais, assexuais, pansexuais, etc, etc e etc. O gênero de cada pessoa não determina a prática sexual desta pessoa.

E onde estão estas pessoas transgêneras? Eu convivo com algumas, mas não pedi autorização a elas para escrever sobre as suas experiências. Mas elas não são uma novidade da sociedade atual. A novidade talvez seja o fato delas reivindicarem uma identidade transgênera. No Facebook existe uma comunidade chamada de Movimento Universitário Transgênero. Não me espanta que isso ocorra no ambiente universitário, onde as discussões que trago aqui ganham cada vez mais espaço.

Já falei aqui do Baphão Queer e não vou me repetir (verhttp://baphaoqueer.blogspot.com.br/). No dia 13 de setembro, assisti várias intervenções reunidas em um espetáculo que recebeu o nome de Cena Queer, no Teatro Gamboa Nova. No mesmo local, ocorre no próximo sábado, dia 22, às 17h, um desfile chamado Gender Trouble (nome original de um livro de Judith Butler, uma das autoras mais importantes dos estudos queer que, entre outras coisas, estudam os trânsitos entre os gêneros). Não por acaso, a atividade é idealizada pela professora Carol Barreto, da UFBA, com direção artística de Marcelo Sousa Brito.

Divulgação do desfile Gender Trouble

Esses três coletivos produzem performances artísticas com a finalidade de embaralhar os gêneros (veja a foto que ilustra esse post e o vídeo de divulgação do desfile, emhttp://www.youtube.com/watch?v=jhxOwejoU_U&feature=player_embedded). Como sabemos, as manifestações artísticas nunca estão descoladas do que ocorre fora dos palcos. Elas se abastecem do cotidiano e também impactam sobre ele.

Mas, a rigor, sempre tivemos quem prefira o livre transitar entre os gêneros. Vide o exemplo de nossa heroína Maria Quitéria. Algumas vezes estas pessoas também foram chamadas de andróginas, em especial nas décadas de 60 e 70 no Brasil. Para ficarmos entre os baianos, basta lembrar de como a androginia era um elemento forte para os tropicalistas, em especial Gilberto Gil e Caetano Veloso. Sobre o mesmo período, quem ainda não viu, corra e veja o documentário sobre os Dzi Croquetes (trailer emhttp://www.youtube.com/watch?v=hJ3Ib_XGXOc).

Repito: não estou dizendo que Quitéria, Caetano, Gil ou os Dzi são ou foram homossexuais. Eu estou falando de como os seus comportamentos, vestimentas, adereços e gestuais embaralhavam as rígidas categorias de gênero. Mais recentemente, apareceu outro nome para designar meninos andróginos. Falo dos emos, que também foram imediatamente associados como gays. Enfim, em cada época e lugar (em outros países existem outros nomes para designar pessoas que transitam entre os gêneros) são criados novos termos, categorias e identidades para nomear, e muitas vezes insultar, quem transgride as normas de gênero.

Mas, apesar de tudo isso, o movimento social LGBT brasileiro, quando explica o T de sua sigla, não inclui as pessoas transgêneras. Aliás, isso é um bom tema para outro texto.

Até a próxima quarta! Até lá, libere o trânsito, pelo menos em sua forma de pensar e entender as outras pessoas. Cheiros!

Compartilhe

Submit to DeliciousSubmit to DiggSubmit to FacebookSubmit to Google BookmarksSubmit to StumbleuponSubmit to TechnoratiSubmit to TwitterSubmit to LinkedIn
Ler 9521 vezes
Leandro Colling

Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Professor da UFBA e coordenador do CUS.

Mídia

Compartilhe

Submit to DeliciousSubmit to DiggSubmit to FacebookSubmit to Google BookmarksSubmit to StumbleuponSubmit to TechnoratiSubmit to TwitterSubmit to LinkedIn

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.

Login