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O que o universo trans nos ensina? Final

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Chegou a hora de concluir a série de três pequenos artigos em que tentei apontar algumas características que diferenciam as pessoas travestis, transexuais, transgêneras, transformistas e drags. Teria muito mais a dizer sobre o assunto antes de concluir a série, mas prometo voltar ao tema em outra ocasião. Por exemplo, alguém poderia dizer que transformistas e drags não são identidades, tais como são os/as demais TTTs. Essa é uma leitura muito comum, mas eu tenho minhas dúvidas. Pelo contato que tenho com essas pessoas, percebo que as “personagens” das transformistas e drags não desaparecem por completo depois dos espetáculos. Mesmo desmontadas, muitas transformistas continuam sendo chamadas, por exemplo, pelos seus nomes artísticos. Isso não é uma evidência de que existe ali uma nova identidade?

 

Mas hoje vou cumprir a promessa e responder a questão: afinal, o que o universo trans nos ensina, em especial em relação à heterossexualidade?

  1. Todas as pessoas trans, em algum grau, evidenciam que o dito “sexo biológico” não necessariamente determina o gênero do sujeito. Ou seja, se eu nasci com um pênis eu não sou obrigado a ter um gênero masculino e se nasci com uma vagina não sou obrigado a ter uma identidade feminina. As pessoas trans nos mostram que a biologia não é um destino;
  2. As pessoas trans são, por sua simples presença no mundo, transgressoras. Isso não quer dizer que elas tenham, obrigatoriamente, um discurso racional transgressor verbalizado em suas falas. Muitas delas, inclusive, quando falam de sexualidade e gênero são muito conservadoras e defendem normas rígidas. Já li um texto nas redes sociais de uma famosa transformista baiana ofendendo duramente os gays afeminados ao passo em que elogiava os masculinizados. Apesar disso, a presença das pessoas trans nos espaços públicos desloca e problematiza as normas hegemônicas sobre as sexualidades e os gêneros. Não tenho dúvida de que este é um dos grandes motivos da violência sofrida pelas pessoas trans. Travestis, por exemplo, não são assassinadas com tanta frequência no Brasil apenas porque moram ou trabalham em locais inseguros. Travestis são assassinadas, muitas vezes com requintes de crueldade, porque transgridem as normas. Subjetivamente, os assassinos mandam o recado de e para toda a sociedade: “ou você se comporta como homem, ou veja o que nós fazemos com vocês”;
  3. As pessoas trans, pela sua presença nos espaços públicos, mandam outros dois recados para todas as demais pessoas, sejam elas LGBT ou heterossexuais. O primeiro: “Se eu me montei desse jeito, se eu construí meu gênero desta forma, qualquer um pode fazer o mesmo”. O segundo: “Eu me montei com esta identidade de gênero que lhe apresento, você se montou com a sua identidade. Assim como eu me monto, você também se monta todos os dias antes de sair de casa”. Ou seja, para que tanto preconceito e violência?
  4. As pessoas trans também colaboram para ampliar significativamente a noção do que é ser heterossexual. Conheço várias pessoas trans que dizem ser heterossexuais. Respeito profundamente essa reivindicação. Eu praticamente não falei da orientação sexual das pessoas trans nestes meus três textos, pois preferi focar na questão de gênero. Por que? Porque as pessoas, ao irem para a cama com alguém, não consideram apenas o “sexo biológico” da pessoa com quem irão transar. Conta muito mais qual é a performance de gênero da pessoa. Por isso, tantos gays não suportam a ideia de transar com gays afeminados ou travestis, mesmo que elas e eles possuam um pênis e desempenhem o papel de “ativo” na relação sexual. Se isso é verdade, por que quase sempre consideramos como sexo homossexual aquele praticado por uma pessoa trans que possui pênis e se identifica como portadora de uma identidade feminina com uma pessoa que possui pênis e identidade masculina? Ou seja, o universo trans ensina, para os/as heterossexuais e LGBTs, que a heterossexualidade não é um privilégio apenas de quem pratica sexo com pessoas do sexo oposto.

Não é incrível e apaixonante esse universo?

Um beijo enorme para todas as pessoas trans que eu já tive a honra de conhecer e com quem aprendo todos os dias. Amo tudo isso. Até a próxima quarta.

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Ler 4982 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 15:54
Leandro Colling

Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Professor da UFBA e coordenador do CUS.

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