Políticas do CUS

Homossexuais devem revelar sua orientação sexual para os seus pais?

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Esta pergunta do título foi o tema de um debate que ouvi na semana passada, em um programa de grande audiência, As metropolitanas, da Rádio Metrópole, apresentado de segunda à sexta, das 11h às 12h, pelas jornalistas Ana Borges, Cristiele França e Ticiane Bicelli. Desde setembro, o programa reserva as manhãs de duas terças por mês para tratar de assuntos da comunidade LGBT. Para estas edições, conta com a participação especial de David Souza, pesquisador do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade, coletivo que eu coordeno na Universidade Federal da Bahia.

 

O programa acabou tratando da “saída do armário” de um modo mais geral, para além da família, e rendeu muita polêmica. Não será minha intenção reproduzir tudo aqui, nem dizer quem defendeu o quê. Mais interessante é descontruir os discursos do que criticar determinadas pessoas. A proposta também será a de trazer outros elementos à discussão.

O debate na rádio ficou polarizado e envolveu vários ouvintes. Algumas pessoas defenderam a revelação da homossexualidade em qualquer situação. Outras, em menor número, argumentaram sobre a possibilidade de gays e lésbicas permanecerem estrategicamente no armário, a depender da situação vivenciada por cada um. Dentro dessa segunda opção, a revelação seria interessante apenas se o homossexual sentisse segurança e confiança dos seus pais. Eu tendo a concordar com essa posição, ainda que entenda a importância da saída do armário como uma ação política para a construção dos grupos LGBT e da afirmação das suas identidades, e também como um processo que pode inclusive produzir um choque educador para os pais e sirva como um grande alívio para os/as filhos/as. Mas por que penso que a saída do armário não pode ser prescrita sempre, para todas as pessoas?

Diariamente, diversos ativistas e jornais denunciam a violência sofrida por LGBTs, causada exclusivamente pela orientação sexual dessas pessoas. Ao mesmo tempo, muitos desses mesmos ativistas defendem que todos/as saiam do armário. Ora, isso é uma contradição! Como posso defender que alguém saia do armário se informo que centenas de homossexuais são assassinados ou jogados para fora de casa porque são homossexuais? Por essas e outras questões ninguém pode se julgar no direito de dizer o que o outro deve fazer. Muito menos quem se encontra em uma situação muito confortável e sequer conhece a fundo a situação das pessoas que vivenciam as opressões. A revelação é um ato que deve ser estudado e cada um deve avaliar o momento certo de “sair do armário”, seja para família ou para qualquer outra pessoa.

Mas toda esta discussão, gerada no programa ou mesmo fora dele, apresenta muitos outros complicadores. Vou desenvolver apenas três. Primeiro: muitas pessoas heterossexuais defendem a saída do armário muito mais pensando em si próprios do que nas pessoas LGBTs. Em boa parte do pensamento heterossexual (subjetivamente falando), é melhor saber se o fulano é gay ou se fulana lésbica para: 1) que ele/ela não seja alguém por quem o heterossexual vá se apaixonar ou investir sexualmente; 2) que o heterossexual possa controlar a sexualidade do outro e inclusive esconder a sua homofobia quando o homossexual está presente em sua vida. Não tenho dúvida de que muitas pessoas heterossexuais defendem com tanta veemência a saída do armário porque, em algum momento de suas vidas, já se apaixonaram por pessoas gays ou lésbicas. Então, é muito confortável para essas pessoas heterossexuais saberem “com quem estão lidando”.

Segundo: outro aspecto, bem mais complexo mas nem por isso menos importante. A saída do armário é sempre limitada, no fundo é uma impossibilidade em seu sentido mais completo. O que quero dizer? Eu, por exemplo, saio do armário na frente dos meus alunos em sala de aula, mas quando saio da universidade e pego um táxi eu novamente estou no armário perante o meu taxista. Por que isso acontece? Por que, a rigor, todos pensam que todos são ou deveriam ser heterossexuais. Não existe saída do armário para os heterossexuais porque vivemos na hegemonia de um pensamento heterossexual. Ou seja, é o pensamento heterossexual que estrutura, cria e mantém a lógica do armário sobre as pessoas não-heterossexuais. Se não existisse a presunção e obrigação de que todos fossem heterossexuais, o armário não existiria. Então, o foco da discussão deve ser a crítica ao pensamento heterossexual e não aos LGBTs que, por algum motivo, inclusive sobrevivência, não se sentem à vontade para revelar a sua orientação sexual para as outras pessoas.

Terceiro: o gay ou a lésbica tem o direito de fazer com que os seus pais ou amigos também passem a carregar o seu armário? Complicou mais, não é? Ao revelar a sua homossexualidade para os pais, fatalmente o segredo, que até então era do filho/filha passará a também ser um segredo dos pais, que não ficarão falando aos seus conhecidos/as, a todo o tempo, que o seu filho é gay ou que sua filha é lésbica. Ou seja, revelar a homossexualidade é também compartilhar o peso do seu armário com o outro. E nem todas as pessoas têm estrutura (falo em relação às questões sentimentais) para carregar parte de um armário.

Algumas das reflexões que desenvolvi acima estão no livro Epistemologia do armário, de Eve Kosofsky Sedgwick, que problematiza a política de saída do armário, muito utilizada pelos ativistas LGBT de todo o mundo. Uma parte dessa obra foi traduzida para a Língua Portuguesa e pode ser lida emhttp://www.scielo.br/pdf/cpa/n28/03.pdf . Para quem deseja sair das respostas simplistas, está aí uma dica para se jogar.

Até próxima semana, com um texto em homenagem ao Dia das Crianças. Aguardem!

Deixo selinhos, em homenagem à Hebe.

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Ler 10410 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 15:56
Leandro Colling

Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Professor da UFBA e coordenador do CUS.

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