Políticas do CUS

As políticas do cu e o combate ao vírus HIV no Brasil

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Hoje vou retomar o assunto do texto O ânus é um órgão sexual?, que postei aqui no blog no dia 7 de novembro passado. Primeiro vou tratar da formação de profissionais do campo da saúde e depois pretendo demonstrar o quanto a nossa política de combate ao vírus HIV é guiada por uma lógica falocêntrica.

 

Fiquei surpreso com a repercussão positiva do primeiro texto, pois ele teve, até então, 370 curtidas e apenas um comentário que poderia ser considerado negativo, que diz: “Que imenso cu se transformou a academia”. Aceitando essa manifestação como negativa, eu replico: “que imensa pica foi e ainda é a academia”.

Explico: além de machista e misógina, a produção do conhecimento dito científico ainda tem como grande referência o pênis ou, na melhor das hipóteses, o falo, entendido aqui em uma perspectiva psicanalítica, ainda hegemônica, que o conceitua como o símbolo do poder, das normas, mas que ainda tem como seu referente o pênis, pois sempre nos faz lembrar o pênis como o seu sinônimo ou objeto produtor de sentido.

Pois bem, quando as feministas começaram a produzir os seus conhecimentos, as reações foram as mesmas causadas pelo meu singelo texto sobre o cu. A academia teria se envaginado, ou dito em outros termos, se transformado em uma grande buceta. Moral da história: o falocentrismo, já denunciado há décadas pelas feministas, agora encontra no pensamento feito a partir da política do cu um novo inimigo que deve ser descaracterizado, negativado, desconsiderado como uma produção legítima de conhecimento.

Após esse preâmbulo, posso continuar a pensar em como as políticas do cu podem ser produtivas para pensar as relações de poder em torno do campo das sexualidades e dos gêneros e, mais do que isso, em como isso tudo pode se transformar em políticas e ações muito concretas, sejam elas realizadas em escala macro ou micro.

No texto anterior, eu sugeri que os profissionais da área da saúde deveriam deixar de considerar o ânus como um mero aparelho do sistema digestivo. Argumentei que outras áreas do corpo também têm relação com o aparelho digestivo de nosso corpo e nem por isso recebem tanto policiamento como os nossos singelos e queridos traseiros. Pois esse é um tema que poderia ingressar com força nas discussões da formação oferecida pelos cursos do campo da saúde. Para fazer isso, professores/as e alunos/as precisam fazer reflexões que sejam oriundas de uma perspectiva multi, inter ou transdisciplinar, contemplando saberes de outras áreas do conhecimento para além das chamadas ciências da saúde duras.

Estudar o corpo também em uma perspectiva cultural poderá ser muito produtivo nesse sentido. E existem milhares de bons trabalhos sobre esse tema, ainda que a grande maioria não trate desta parte do corpo que eu privilegio aqui. Mas, ainda assim, exceto as honrosas exceções, na maioria das vezes ainda vemos profissionais da saúde absurdamente ignorantes em relação às questões culturais.

Uma das exceções talvez seja a formação que está sendo oferecida aos estudantes do Bacharelado Interdisciplinar (BI) em Saúde, da UFBA, no Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, onde tenho a honra de ser professor.

Em nosso instituto, os estudantes de qualquer BI, seja o de Saúde, Artes, Humanidades ou Ciência e Tecnologia precisam cursar componentes curriculares de várias áreas do saber. Um estudante de Saúde, por exemplo, precisa cursar componentes considerados mais específicos do campo das humanidades e das artes. E vice-versa. Através disso, a proposta é oferecer uma formação mais abrangente, capaz de pelo menos sensibilizar o futuro profissional para que ele não imagine que ser um profissional signifique apenas dominar determinadas técnicas da sua área específica.

Mas hoje eu nem estava disposto a falar sobre a formação de profissionais do campo da saúde. Comecei a pensar no texto desta semana lembrando do Dia Mundial de Luta contra a Aids (1º de dezembro) e de um exemplo muito concreto de como mais essa política do campo da saúde se mantém fiel a um ideal falocêntrico. Para evitar a proliferação do vírus HIV, praticamente toda a política tem sido centralizada na distribuição de preservativos. É como se apenas o pênis precisasse de uma proteção especial. Enquanto isso, a distribuição de preservativos ditos femininos é quase nula. Alegam que as mulheres não gostam de usar e/ou que esse preservativo é muito mais caro.

Na minha leitura, tratam-se de duas desculpas esfarrapadas: homens também não gostavam ou não gostam de usar camisinha, aprenderam e/ou foram obrigados a usar ao longo dos anos, e o custo de qualquer produto, como bem sabe o Ministério da Saúde, pode ser diminuído com a quebra de patentes ou coisa do tipo. Basta que aquele produto seja considerado essencial.

Mas não é só isso que demonstra, ou comprova, o quanto o combate à Aids é falocêntrico no Brasil. O ânus, seja de mulheres ou homens, heterossexuais ou não, é praticamente ignorado nessas campanhas. Em muitos países, junto com a distribuição de camisinhas, os governos distribuem lubrificantes. Por aqui ainda é raro conseguir encontrar no sistema de saúde algum lubrificante gratuitamente. Às vezes até tem, mas é difícil conseguir.

Ou seja, as picas precisam de toda a proteção e conforto. As vaginas e os cus que se explodam! Mais um exemplo de como devemos transformar a nossa academia em imensas vaginas e cus.

Na próxima semana tem mais um texto sobre as políticas do cu. Ainda não terminei. Quero falar de como peitos, barrigas e bíceps se transformaram em privilegiados órgãos sexuais na atualidade e quero falar de bunda, de como o brasileiro adora bunda e, apesar disso, continua sendo falocêntrico.

Enquanto isso, curtam as bundinhas e corpinhos de belas obras de arte expostas no Museu do Louvre. Se algum artista brasileiro resolvesse fazer algo parecido hoje, talvez, fosse considerado um obsceno, um pornógrafo, um estimulador da homossexualidade ou coisas do tipo. Sinal dos nossos sombrios tempos.

Beijinhos, onde você preferir!

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Leandro Colling

Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Professor da UFBA e coordenador do CUS.

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