Políticas do CUS

Quem deve ser preso e humilhado por atentado violento ao pudor?

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No meu texto anterior, prometi continuar falando sobre como outras partes dos nossos corpos, além do pênis, vagina, seios e boca, deixam de ou passam a se transformar em órgãos sexuais ultravalorizados ou desqualificados, a depender do período em que vivemos.

 

Mas além de não cumprir a promessa com a data (já devia ter feito isso ainda no mês passado), também não vou cumprir com a promessa do conteúdo. Vou mudar de tema em função de um acontecimento que não pode passar despercebido: falo da prisão de um jornalista gay, acusado de atentado violento ao pudor em via pública. No último dia 29 de dezembro, ele teria se masturbado na frente de um outro homem que tentava seduzir.

O caso ganhou repercussão na Bahia através de um desses programas sensacionalistas exibidos ao meio dia. Não estou interessado aqui em investigar se o dito jornalista fez ou não qualquer ato. Também não quero tratar sobre a possível armação da qual ele foi vítima de alguns policiais em conluio com o tal programa de televisão. Ele e a sua mãe já divulgaram suas versões sobre isso e, pelo que sei, estão tomando as providências para processar os envolvidos.

O que me interessa aqui são as seguintes questões: o que é hoje, afinal, por nossa sociedade considerado um atentado violento ao pudor? Quem pode fazer ou simular sexo explícito em praça pública e quem não pode? Quem possivelmente será preso e humilhado na televisão se cometer algum atentado e quem pode fazer o que quiser e as pessoas não se chocarão e não chamarão a polícia e/ou a imprensa? Quantos heterossexuais já foram presos por atentado violento ao pudor? E, por fim, por que os movimentos sociais LGBT, em geral, se calam nestes momentos? Ou melhor, por que é raríssimo ver algum ativista defender temas mais polêmicos e espinhosos, como a pegação em determinadas áreas?

Se começarmos a tentar responder essas questões veremos que:

1. Heterossexuais, mais uma vez, são privilegiados em relação ao tema. Eu mesmo já vi, nestes últimos anos, junto com outras pessoas, vários heterossexuais transando em praças e praias de Salvador e ninguém resolveu chamar a polícia. Pelo contrário, as pessoas pareciam invejar a coragem do casal. Em um momento em que determinadas danças simulam em palcos e trios elétricos dezenas de posições sexuais, como as que podem ser vistas no vídeo abaixo, que também já foi objeto de “reportagens” nesses mesmos programas sensacionalistas da tevê baiana, porém sem o mesmo tratamento moral, não é sintomático que tenha gerado uma prisão e cause tamanha repercussão o caso de um jornalista gay supostamente ter se masturbado na frente de um outro homem?

Mesmo que o flagrante tenha sido montado pelos policiais e pelo programa, eu pergunto: eles teriam vontade e coragem de montar isso caso o jornalista fosse um heterossexual? Duvido, duvido muito.

 

2. O caso em questão revela mais uma vez como os movimentos sociais LGBT estão passando por uma longa e intensa fase que eu, na falta de palavra melhor, chamo de “careta”. Sim, nós encaretamos pencas nas últimas décadas. Em nome de reconhecimento social e do Estado, o que também é legítimo e necessário, fizemos todo um esforço de apagar algumas de nossas diferenças em relação aos heterossexuais, e mais do que isso, passamos, em muitos momentos, a desejar o modelo de vida dos heterossexuais. Isso gerou impactos sobre as nossas políticas. Nos textos aqui do blog temos tratado disso continuadamente, mas agora destaco mais um aspecto que comprova o quanto encaretamos.

Nesses mais de 20 anos que acompanho as questões LGBT, só lembro de uma vez em que um movimento, neste caso do Rio Grande do Sul, o Nuances, defendeu, em rede de televisão, alguns gays que foram presos pela polícia porque supostamente estariam fazendo pegação em um banheiro de um shopping center de Porto Alegre. É claro que certamente existiram outros momentos em que outros militantes, inclusive baianos, tenham feito algo similar, mas, se fizéssemos uma pesquisa, muito provavelmente poderíamos contar essas ocasiões nos dedos de uma mão.

Mas o que eu quero propor com isso? Que todos, sejam gays ou não, possam sair nas ruas e molestar sexualmente quem aparecer? Não, claro que não. Eu apenas quero evidenciar que determinadas pessoas, nesse caso gays, são marcados, culpados, presos e humilhados por supostos ou reais atos obscenos enquanto que outras pessoas, heterossexuais, podem fazer atos tão ou mais intensos e isso não os leva para a cadeia. E quando nos calamos sobre isso, concordamos com essa leitura ao invés de problematizá-la.

Além disso, também precisamos nos perguntar: por que, muitas vezes, o espaço da pegação gay torna-se a única ou mais rápida saída para que muitos gays encontrem parceiros sexuais? Ora, isso ocorre, entre outras razões, porque gays não podem externalizar seus desejos na praça de alimentação do shopping. Logo, o banheiro, muitas vezes fétido, é o espaço que sobra para a realização dessas vontades.

Ou seja, quem produz os espaços de pegação, primordialmente, não são os gays. Como a heteronormatividade impera, e exige que nos espaços públicos todos se comportem como “verdadeiros heterossexuais”, sobram as margens para quem deseja de outras formas.

Puto com esse caso, encerro hoje sem beijos.

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Leandro Colling

Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Professor da UFBA e coordenador do CUS.

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