Políticas do CUS

Por que o brasileiro gosta de bunda e continua homofóbico e falocêntrico?

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Hoje vou pedir licença para fazer um preâmbulo antes de entrar diretamente no objetivo do meu texto, que é o de responder a pergunta do título. Também sugiro que, para ter mais facilidade de seguir o meu raciocínio, se tiverem um tempinho, leiam os meus três textos já postados anteriormente, de preferência nesta ordem: O ânus é um órgão sexual?As políticas do cu e o combate ao vírus HIV no Brasil e Gozando através dos tríceps e bíceps.

 

Nessas mensagens anteriores escrevi sobre a vigilância que impera sobre os nossos traseiros, o que gera a definição do que poderíamos ou não fazer com eles. A partir disso, também fiz rápidas reflexões sobre quais partes dos nossos corpos são dignas de ser utilizadas como órgãos sexuais. Apontei também que, paradoxalmente, ainda que essas normas existam, várias pessoas elegem outras partes dos seus corpos como áreas privilegiadas para alcançar o gozo.

Elaborei boa parte das minhas reflexões a partir do livro Por el culo – políticas anales, de Javier Sáez e Sejo Carrascosa (obra que já citei em texto anterior). Mas também sofri influências de outro livro bem mais antigo, de 1972, republicado em espanhol em 2009, chamado El deseo homossexual, do professor e ativista francês Guy Hocquenghem, falecido em 1988.

Guy escreveu a sua obra muito influenciado pelo livro O anti-édipo, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Guy ficou muito conhecido com a frase “meu cu é revolucionário”. O bordão chegou a fazer parte de discursos de famosos militantes LGBT brasileiros na década de 70 e 80, quando eles ainda não eram tão caretas e comportadinhos/disciplinados como hoje.

Beatriz Preciado

Ao final desta nova edição do livro de Guy, consta um texto da filósofa Beatriz Preciado, intitulado Terror anal: apuntes sobre los primeiros días de la revolución sexual. Preciado (a mesma que escreveu um excelente texto sobre o uso de crianças no protesto contra o casamento gay na França – leiam via Facebook) defende que Guy foi um dos precursores do que hoje chamamos de estudos queer, um conjunto variado de trabalhos que influenciam nosso grupo de pesquisa na UFBA e os textos publicados neste blog. Um dia, quem sabe, farei o mesmo esforço para tratar de precursores dos estudos queer aqui no Brasil. Certamente Nestor Perlongher, com o seu O negócio do michê, deve figurar entre essas obras.

Ao final do seu texto, publicado na nova edição do livro de Guy, e no seu outro livro, chamado Testo Yonqui, Preciado trata sobre o potencial político do ânus. Ela desenvolve vários argumentos, entre eles destaco: o quanto o sexo anal provoca a desterritorialização do ato sexual, que esses atos podem inclusive prescindir do pênis (o que ajuda a detonar o falocentrismo), trabalha com o prazer e não com a reprodução (argumento preferido da lógica conservadora), entre outras questões. Mas, ao falar de outras “virtudes revolucionárias anais”, ela escreve que “o ânus não tem sexo, nem gênero, como a mão, escapa da retórica da diferença sexual”. Aí reside o seu equívoco, que nos ajuda a entender porque o brasileiro gosta tanto de bunda e, ao mesmo tempo, continua tão homofóbico e misógino.

Nesse momento, Preciado parece apostar excessivamente nas políticas anais, como se elas pudessem resolver os nossos problemas em relação à falta de respeito à diversidade sexual e de gênero. O cu, que todos possuem, teria a capacidade de implodir a diferença sexual, que gera a hierarquia entre as práticas sexuais, as orientações sexuais e os gêneros.

Em especial quando falamos do Brasil, o diagnóstico de Preciado está equivocado. Mas não só em relação ao nosso país. Os espanhóis Sáez e Carrascosa, no livro já citado, também perceberam esse equívoco de Preciado e, ao final da sua obra, dizem: “Ao longo desse livro temos comentado em várias ocasiões que o cu não tem gênero, e que pode ser uma fonte de prazer sexual que não está marcada por ele. Mas talvez isso não seja bem assim. Na realidade, tal como se exerce a política anal hoje em dia, dentro de um regime heterocentrado e machista, o cu sim tem gênero: se é penetrável é feminino; se é impenetrável é masculino”. Depois complementam: “Para este dispositivo, um homem penetrador é heterossexual ainda que penetre a outros homens”.

Penso que as políticas anais podem ser muito úteis politicamente, como eu mesmo apontei em meus textos anteriores, mas elas também apresentam os seus limites, como sugerem Sáez e Carrascosa. E quais são eles? Vou tentar responder com o apontamento de duas evidências.

No Brasil, talvez com alguma intensidade maior que outros lugares, o cu tem gênero sim. Aquela pessoa que é tida como a passiva no ato sexual anal é vista como a “mulherzinha” da relação. Se a pessoa passiva for do sexo masculino, ela automaticamente é considerada como homossexual, gay, viado ou qualquer outra expressão que a defina como alguém que traiu a sua masculinidade.

Já o homem, considerado ativo, mesmo praticando o ato sexual com outro homem, desde que não permita ser penetrado, muitas vezes não é considerado como uma pessoa homossexual e nem está automaticamente traindo a sua masculinidade. Isso já está fartamente documentado em várias etnografias muito conhecidas realizadas no Brasil (além do Perlongher, ler, por exemplo, o livro Para inglês ver, de Peter Fry).

Aqui o homem que penetra outro homem não tem necessariamente a sua sexualidade heterossexual colocada em questão. E eu não estou reivindicando que tenhamos que considerar esses homens como homossexuais, apenas aponto que, ao “comer o cu” de um homem, ele continua seguindo o script esperado de um cara considerado socialmente como “macho”. O mesmo não ocorre com o homem penetrado, pois ele é associado automaticamente e pejorativamente com a feminilidade, ou pelo menos com a não masculinidade hegemônica, a desejável que todos tenham para serem considerados “machos de verdade”.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/abnjunior

Talvez o que diferencie mais os brasileiros dos homens de outros países seja o fato (real e/ou apregoado) de que por aqui a maioria deles gosta de bunda. Mas, paradoxalmente, isso também não torna os brasileiros menos homofóbicos, misóginos, falocêntricos e heteronormativos. Sim, eu sei que bunda e cu são coisas diferentes, mas também não são indissociáveis. Quando um homem admira a bunda de uma mulher (e aqui em Salvador, em especial, é sinal de masculinidade o homem parar, virar as costas, olhar para a bunda das mulheres e fazer alguma exclamação do tipo “gossstoooosa!!!”) obviamente não é só a bunda que o homem está admirando. Ele também está pensando, pelo menos em termos gerais, no que poderia vir a fazer com aquela área do corpo da mulher.

Quer dizer, é o homem quem continua determinando qual é o objeto de seu desejo, mesmo que seja para uma área do corpo que não é considerada como um órgão sexual pelo discurso médico e pelo próprio senso comum. Obviamente, algumas mulheres também admiram e até penetram com próteses os cus dos seus parceiros, mas essas práticas são bem menos recorrentes.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/abnjunior

Ou seja, no Brasil as bundas e cus têm gênero. Por aqui, o cu não “escapa da retórica da diferença sexual”, como pensa Preciado. Pelo contrário, o cus foi apropriado pela retórica da diferença sexual. Ter o ânus aberto, ou não castrado, não significa revolucionar a sexualidade a ponto de exterminar as normas sexuais que tantos preconceitos produzem. Eis alguns dos limites das políticas anais. E esses limites, é bom lembrar, foram novamente criados pela norma hegemônica, que tem uma incrível capacidade de ressignificar as práticas que dela advém para se manter no topo da hierarquia.

E agora estou livre para falar de outra coisa, não é?

Agradeço ao meu querido Gilmaro Nogueira pelas colaborações neste texto, a quem mando beijinhos especiais.

Até a próxima.

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Ler 8741 vezes Última modificação em Quarta, 17 Julho 2013 16:38
Leandro Colling

Jornalista, mestre e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Professor da UFBA e coordenador do CUS.

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