Políticas do CUS

Leandro Colling

Leandro Colling (36)

19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

Escrito por: Leandro Colling, Djalma Thürler, Gilmaro Nogueira, Carlos Henrique Lucas Lima e Fábio Fernandes*

Aqui no blog, já escrevemos textos sobre a importância das paradas gays. Em um deles, postado no ano passado, Leandro Colling rebate as críticas de que as paradas teriam perdido as suas funções porque teriam se transformado em “carnavais fora de época”. O autor chamava atenção para o fato de que é possível fazer política de outras formas, inclusive festivas, e de que é preciso pensar no impacto nas subjetividades de pessoas LGBT que, ao irem a esses eventos, se sentem felizes em manifestar os seus desejos e ao encontrar tantas pessoas que enfrentam os mesmos problemas no dia a dia (leia texto completo aqui).

No entanto, em especial após os tristes acontecimentos registrados na Parada Gay da Bahia do último dia 8 de setembro (leia mais aqui), acreditamos que esteja na hora de repensar esse diagnóstico e as próprias paradas de uma forma geral, em Salvador ou outras cidades. Por quê?

  1. 1) Ao invés de poder manifestar livremente os seus desejos nas ruas, o que temos visto com muita intensidade é exatamente o contrário. São vários os relatos de gays, lésbicas e pessoas trans que foram agredidas/os nas paradas exatamente por serem como são. Gays afeminados agredidos por homens fortes e homofóbicos de forma gratuita, lésbicas acompanhadas por suas namoradas sendo ameaçadas de estupro por homens inconformados, além de roubos, arrastões, tiros e agressões físicas.

É evidente que em uma multidão casos assim sempre podem acontecer, mas na última parada isso ficou muito mais intenso, em especial nos arredores do trio puxado pelo cantor Igor Kannário, assunto sobre o qual falaremos a seguir. Aqui basta perguntar: o que sente uma pessoa LGBT que vai à parada para festejar a sua forma de ser e é agredido por homo/lesbo e transfóbicos? Uma parada que gera esse tipo de ação não deve ser repensada, rediscutida, revista? Nós pensamos que sim;

  1. 2) Outro aspecto que merece preocupação é a transformação das paradas em mero produto do mercado. É evidente que não pretendemos sugerir que algo, em uma sociedade capitalista, fique imune à lógica do mercado, mas cabe aos organizadores das paradas incentivarem a lógica do mercado sem nenhuma criticidade? Hoje nossas paradas não estão recebendo recursos públicos porque elas potencializam (?) a plena cidadania de pessoas LGBT, mas porque elas são ótimos produtos para a indústria do turismo. O cúmulo disso é tamanho que o governo da Bahia, por exemplo, investiu pesado na parada como atração turística, mas em outras áreas, como educação, saúde e segurança, não investe em políticas públicas para a plena cidadania de pessoas LGBT.

Por isso, aqui perguntamos: de que adianta o governo, na área turística, investir nas paradas se ele não realiza outras ações concretas para o reconhecimento e respeito à diversidade sexual e de gênero? Nos últimos dias 6 e 7 de junho, por exemplo, participamos de um evento promovido pelo governo do Estado, para novamente “discutir” políticas LGBT, e ficou evidente que o governo praticamente nada tem feito nessa área e, ao que parece, continuará nada fazendo além do turismo. Apenas para dar outro exemplo: existem vários projetos da área de cultura LGBT que foram contemplados em editais e o governo ainda não repassou os recursos para os contemplados alegando contingenciamento de recursos.

E mais: como explicar o fato do turismo ter investido nesta parada e a segurança pública não ter enviado o policiamento necessário?

Essas coisas nos permitem dizer que a parada virou apenas um negócio de turismo para o próprio governo, com a completa conivência dos seus organizadores, no caso local, o Grupo Gay da Bahia (GGB);

  1. Além disso, a cada parada, surgem questionamentos quanto a privilégios concedidos a determinados grupos e da aberta prestação de contas. Na programação da última parada, por exemplo, algumas ações não foram realizadas em função da completa desorganização da comissão organizadora que desejava, inclusive, reduzir pela metade o valor combinado do cachê dos artistas implicados na ação. Em outras cidades do Brasil, esses tipos de problemas foram resolvidos com a democratização e transparência na organização das paradas. São Paulo, por exemplo, elege uma diretoria de uma Associação, em um esforço democrático de gerir e organizar a parada;
  2. 4) Por fim, vamos falar da polêmica em torno da presença do cantor Igor Kannário. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o cantor atrai uma legião de pessoas que provocam muitas brigas e arrastões. Além disso, as músicas cantadas pelo cantor podem ser consideradas machistas, misóginas e homofóbicas. Como um cantor e trio com esse perfil estão em uma parada gay? Os organizadores da parada disseram que não sabiam que o cantor estaria em um trio. Ao invés de atenuar as suas responsabilidades, essa resposta apenas deixa o quadro ainda mais tenebroso. Como não sabiam? Se não sabiam com antecedência, por que não impediram o trio de sair ainda no Campo Grande? Qualquer pessoa que chegava na concentração da parada via que o trio, assinado com o nome do cantor, se preparava para sair! O curioso é que todos os fãs do cantor sabiam que ele sairia na parada, pois em sua conta no twitter ele já anunciava, na quinta-feira, dia 5 de setembro, que sairia com trio na parada. Só quem não sabia era o GGB?

Várias pessoas postaram em suas redes sociais as suas indignações sobre a última parada. Para finalizar o nosso texto, escolhemos duas delas, publicadas no Facebook, nas quais as artistas transformistas Bia Mathieu e Dion Santtyago demonstram sua indignação em relação ao que expomos acima.

Bia Mathieu

“Eu, como artista da cena LGBT, cidadã e Gay estou indignada com a bagunça que se tornou a nossa Parada. Há anos eu frequento o evento e sei como brilhamos na festa, como somos reconhecidas, abraçadas pela sociedade que se faz presente na manifestação. Sinceramente eu queria uma resposta do Grupo Gay Bahia Ggb pois foi uma mídia em cima de Daniela Mercury como rainha, que desempenhou sim um excelente papel assumindo a sua homossexualidade, mas a ideia é lutar pelos nossos direitos, aproveitar a imprensa e mostrar que somos cidadãos iguais a todos que tem direitos e deveres. Ver crianças nos abraçando, pedindo fotos é lindo de mais, porém a bagunça esse ano não permitiu a beleza tão esperada por todos ali. Kd a polícia? Por diversas vezes eu via brigas durando minutos e nada de polícia. A mídia hoje ao invés de falar sobre a diversidade, voltou a atenção para a bagunça que se tornou o arrastão, pq isso não foi uma parada gay. Nunca soube de relatos de tiros na parada, esse ano há mais ou menos cem metros de onde eu estava, pude ouvir no mínimo 6 tiros. Um adolescente foi atingido, e o tumulto tomou conta deixando todos indignados. Ai quando vemos fotografias, tudo muito bonitinho e as placas do GGB, mostrando atividade? Sinceramente eu não vejo atuação desse grupo e deixo claro o meu repúdio. Não sou de rodeios, nem falar por trás… Sinceramente, espero um posicionamento plausível. Muitos questionam a presença de Igor Kanário. Tudo bem que ele não é um artista que lute pela causa, nem tenha influência alguma no nosso meio, mas estava ali desempenhando o seu papel como artista. Pra estar ali ele foi contratado por alguém? Ai não entendo pq Âncora Do MarujoCabaret ChirroutteMelancia Blue que são casas onde o povo nos encontra, não recebem sequer um convite e ou apoio para botar um trio na rua. Não entendo pq não convocam um trio com vários transformistas em apresentações simultâneas. Não entendo tb pq não convidam outras grandes artistas que fazem parte da nossa cena como Marcia Short, Márcia Freire, Ludmilah Anjos…. Quem estava envolvido no evento pode ver alguns eventos estavam na programação e por descumprimento da instituição, não saíram do papel. Enfim, espero que os próximos 365 dias sejam de reflexão e trabalho de verdade para o GGB, e que se espelhem nas grandes capitais, para sim termos uma PARADA GAY DIGNA DOS SERES DIGNOS QUE NÓS SOMOS… Muito triste com tudo isso, gostaria de hoje poder ter orgulho do Grupo Gay do meu Estado.” (Bia Mathieu, postagem publicada no Facebook).

Dion Santtyago

“Venho agradecer em meu nome e em nome de toda a minha Equipe, aos meus amigos, fãs e participantes que nos prestigiaram durante todo o percusso, mesmo com todos os contratempos que infelizmente aconteceram este ano, por conta do Trio que estava na nossa frente sob o comando do cantor Igor Canário, de onde pude observar tamanha cenas de violência entre os foliões que o acompanhavam. Fato esse que descaracterizou totalmente o real sentido da nossa Parada Gay. Fica aqui o registro de minha tristeza pelo lamentável ocorrido e uma grande felicidade por observar o quanto sou querida, pois não foram centenas e sim milhares que acompanharam o nosso Trio do início ao fim. Obrigada a Marcelo Cerqueira pelo carinho e respeito, Obrigada ao GGB, nas pessoas do Cristiano Santos, Otavio Reis e Dennys Gomes por todo o carinho.” (Dion Santtyago, postagem publicada no Facebook)

* Integrantes do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS)

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

No último sábado, assisti a uma peça teatral, em Buenos Aires, chamada El principio de Arquímedes. A trama (interpretada por três atores e uma atriz – excelentes – foto) trata sobre o que acontece em uma escola de natação quando um professor dá um abraço e um beijo em um menino para acalmá-lo em função do seu medo de se jogar na piscina. Os pais, por acaso, veem a cena e começam a suspeitar, ou melhor, a acusar, o professor de estar assediando/molestando sexualmente a criança. Pressionada, a dona da escola passa a questionar o funcionário e, a partir daí, qualquer sinal é interpretado como uma prova de que ele fez algo errado, inclusive o fato de não ter namorada.

 

Saí do teatro com uma louca vontade de escrever sobre o tema, sinal de que a obra, escrita pelo espanhol Josep Maria Miró, realmente me provocou e fez pensar. Na verdade, o tema já me acompanha há muito tempo, pois na época em que fui professor de jornalismo, na Faculdade Social da Bahia, realizamos uma grande reportagem, em Salvador, sobre abuso e exploração sexual de meninos, projeto (Asas feridas), com o qual recebi, na época, o título de Jornalista Amigo da Criança, outorgado pela Associação Nacional dos Direitos da Infância (ANDI).

A questão central da peça é: que sociedade é essa em que um adulto, caso manifestar algum afeto em alguma criança, corre o risco de ser sumariamente condenado e/ou qualificado como pedófilo, em especial se ambos forem do sexo masculino? O que essa reação diz sobre o nosso tempo, em especial sobre a sexualidade da atualidade?

Não passa pela minha intenção, e nem da peça, fazer com que os pais deixem de cuidar dos seus filhos para que eles sofram algum tipo de violência, de cunho sexual ou não. A questão que o espetáculo traz, e que eu gostaria de compartilhar, é outra: vivemos em um tempo de pânico sexual, o que já foi estudado por várias pessoas, que se manifesta de inúmeras formas. Essa é uma delas, que nesse caso se associa com discursos preconceituosos que associam a homossexualidade com a pedofilia, relação que não tem nenhum fundamento, pois a pedofilia se manifesta também em pessoas heterossexuais e, é importante dizer, não se constitui em uma orientação sexual em si como a hétero ou a homossexualidade.

Como define a pesquisadora Maria da Graça Blacene Lisboa, em recente dissertação sobre o tema no campo do Direito, “a psiquiatria define Pedofilia como uma parafilia em que a preferência sexual predominante do indivíduo é por crianças. O foco parafílico na pedofilia envolve atividade sexual com uma criança pré-púbere (13 anos ou menos), sendo que o indivíduo com pedofilia deve ter 16 anos ou mais e ser pelo menos 5 anos mais velho que a criança”. Como bem detalha Lisboa, o Código Penal não criminaliza a pedofilia em si, mas a sua prática.

Curiosamente, também neste último sábado, horas antes do espetáculo, comprei o livro Homofobia, una historia, de Byrne Fone. Não deu tempo de ler as suas 640 páginas, mas já percebi que o pesquisador americano faz o que várias outros já fizeram, ou seja, conta a história das práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo ao longo dos tempos, desde o período grego-romano “quando há amplas evidências para mostrar que a conduta homossexual entre homens, assim como entre mulheres era comum e aprovada – dentro de claros limites convencionais” (p. 23). Destaca ele, acertadamente, que existiam esses limites já naquela sociedade. Péssimos leitores da História da sexualidade, de Michael Foucault, costumam citá-lo para dizer que naquele tempo tudo era permitido, o que não é verdade e nem está nos escritos do pesquisador francês (mas isso é tema pra outro texto). O que os gregos faziam, segundo Byrne, não era sexo com crianças, “uma prática que provocava tanto horror como a consideramos hoje” (p.38). Os mais adultos só poderiam ter sexo com os mais jovens depois que eles estivessem na puberdade. A decisão, que varia de lugar para lugar, é a partir de que idade o sexo consensual está permitido (no Brasil, é a partir dos 14 anos).

Mas voltando ao tema central da peça e sua principal pergunta, o que quero destacar aqui é que se a pedofilia não é algo novo, o mesmo não se pode dizer deste pânico que a envolve, a ponto de que qualquer manifestação de afeto de um adulto por uma criança pode ser, sumariamente, considerada algo ligado à pedofilia. Isso tudo gera muita confusão, pois mesmo no caso de um adulto ter cometido um abuso sexual em uma criança, isso não quer dizer que essa pessoa seja, automaticamente, uma pedófila. Sugiro a leitura do site da Fundação Abrinq, que explica as diferenças entre pedofilia, abuso e exploração sexual, muitas vezes tidos como “tudo a mesma coisa”, inclusive pela mídia.
Se por um lado a vigilância dos pais sobre os filhos é um importante mecanismo para que abusos sexuais não aconteçam, por outro lado o pânico gerado por qualquer manifestação de afeto de um adulto por uma criança pode gerar muita injustiça, condenações sumárias sem provas, vidas arruinadas, dor onde poderia preponderar a tranquilidade. No Brasil, o conhecido caso da Escola Base deve servir de alerta para sempre (não sabe do que se trata?, leia aqui).

E o interessante é verificar o que aciona a desconfiança dos pais. Se por acaso o beijo fosse dado por uma professora em um menino ou em uma menina a desconfiança teria ocorrido? Que repertório temos à nossa disposição que cria determinadas reações, opiniões, suspeitas e condenações? Como esse repertório varia de acordo com o tempo e quem tem o poder de modificá-lo, transformá-lo? Se entrarmos a fundo nessas questões, verificaremos como nossos sentimentos são gestados a partir desse repertório, em boa medida hoje midiático e, como bem enfatiza a peça teatral, mediado também pelas redes sociais, em especial facebook. Uma simples curtida em uma foto, adicionar ou excluir um aluno de sua rede, pode ser interpretado como prova e isso pode custar a vida de alguém.

Mais sobre a peça, leia aqui.

Beijinhos porteños.

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

Instigado por um texto inicial do ativista Vinícius Alves, resolvi acessar o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para verificar quais são as propostas dos/as presidenciáveis para combater a homo-lesbo-transfobia no Brasil. O resultado da leitura dos planos de governo é desanimador, ou melhor, é de chorar! Até os partidos tidos como mais “radicais” estão propondo muito, muito pouco.

Qualquer um pode fazer o mesmo levantamento, basta clicar aqui. Os planos de governo apresentados são versões iniciais que podem ser modificadas, mas já nos dão uma pista sobre o que veremos pela frente, independente de quem ganhar a eleição. Mas por que estamos nesse quadro tão complicado em relação às políticas sexuais em nosso país? Vou apontar algumas possíveis respostas após relatar o que cada presidenciável está propondo.

No plano da presidenta Dilma que está no site do TSE apenas consta o seguinte em relação às pessoas LGBT: “Ainda no elenco de desafios institucionais, a luta pelos direitos humanos se mantém, sempre, como prioridade, até que não existam mais brasileiros tratados de forma vil ou degradante, ou discriminados por raça, cor, credo, sexo ou opção sexual.”. Sim, você leu “opção sexual”, que neste momento nos remete não a uma plena liberdade de escolha, mas exatamente àquela fatídica frase pronunciada por ela quando da suspensão do chamado “kit anti-homofobia”, material didático que seria distribuído nas escolas do Brasil dentro do Programa Escola Sem Homofobia.

Naquela época, Dilma disse que seu governo não faria “propaganda de opções sexuais”, o que na verdade ela nem cumpre, pois os materiais didáticos em uso fazem propaganda da heterossexualidade desde que existem. Em uma nova versão disponível no site da própria candidatura de Dilma, a palavra “opção” já foi substituída por “orientação” e também foi incluída a identidade de gênero (veja aqui), mas no plano dela esse não é o único problema, pois não há nenhuma proposta concreta para além da frase genérica, o que já foi denunciado pelo próprio Setorial Nacional LGBT do PT, que cobra uma série de compromissos da candidatura (veja a nota completa aqui).

O plano de Aécio Neves, candidato do PSDB, atualmente segundo colocado nas intenções de voto, é o que mais trata sobre questões LGBT, e seu texto parece ter sido inspirado no Programa Brasil Sem Homofobia, criado no primeiro governo de Lula, do PT. O PSDB, ao estar no comando do país, como sabemos, não realizou nada do que agora propõe. Mas ainda que fale mais do combate à homofobia e de questões LGBT, sempre junto de outros marcadores sociais de diferenças, não firma nenhum compromisso explícito, como um programa de respeito às diferenças sexuais e de gênero nas escolas, o que faz, de alguma maneira, o candidato do PSB.

Eduardo Campos incluiu um parágrafo no item educação que aponta para o fato de que a Educação Básica deve ser realizada pensando na respeito à diversidade brasileira, considerando as pessoas LGBT. Afora isso, coisas genéricas como promover políticas que combatam às várias discriminações, de gênero e orientação sexual inclusas. Em outro parágrafo, o plano fala em “opções sexuais”, o que mostra também o nível de cuidado em que tal plano foi feito, sem sequer uma boa revisão e/ou sintonia com a mais recente produção acadêmica sobre o tema. E é bom lembrar, estamos falando de planos para o Brasil! Campos, que tem como vice Marina Silva, conhecida por suas posições contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, também não se compromete com nenhuma agenda específica defendida há anos pelo movimento LGBT do país.

Luciana Genro, do PSOL, partido que mais tem defendido as pautas LGBT, também é tímida em seu plano de governo. Diz apenas que o combate à homofobia será um tema importante em seu governo e que “ataques homofóbicos têm sido cada vez mais frequentes e a luta por direitos, como o casamento civil igualitário, ganha força principalmente junto à juventude.” Ou seja, para o partido que defende o socialismo e a liberdade, a única ação explícita a ser citada é o casamento, a instituição heteronormativa por excelência (sobre minha posição sobre o tema, leia aqui). No entanto, é o único programa que abertamente defende a legalização do aborto e que se compromete a lutar contra os retrocessos conservadores no país.

Nos outros dois partidos mais à esquerda, o quadro é igualmente desolador. No plano de Zé Maria, do PSTU, não há menção a LGBT, sexualidade, homofobia, gênero. No de Mauro Iasi, do PCB, há um parágrafo que constata que as discriminações aumentam no mundo e no Brasil e por fim arremata: “contra o racismo, o machismo, a homofobia, a xenofobia e todas as formas de preconceito”. E como fazer isso? Por lá não saberemos quais serão as linhas condutoras.

Eduardo Jorge, do PV, diz que o partido apoia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por casais do mesmo sexo e defende a criminalização da homofobia. Eis as três pautas prioritárias de movimento LGBT de quase 40 anos, que já realizou com o governo duas conferências nacionais(!?)

Nada, nenhuma linha, em nenhum dos planos, sobre os constantes assassinatos registrados em nosso país, em especial em relação às travestis. Isso diz muito sobre o estado em que estamos.

Por fim, para completar o circo de horrores, Pastor Everaldo, do Partido Social Cristão, como era de se esperar do partido ao qual faz parte o deputado Feliciano, prega o “fim do uso do aparelho estatal para a promoção de atos que não coadunam com a tradição da sociedade brasileira” e o “combate à prática do aborto”. Eymael, do Partido Social Democrata Cristão, não fala em LGBT, mas em “resgate dos valores éticos da família, objetivo da Social Democracia Cristã”. Levy Fidelix, do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro, não faz menção a LGBT, sexualidade, homofobia, gênero.

RAZÕES DESTE QUADRO

E por que estamos nesse quadro tão complicado? Tenho pensado sobre isso há anos e já escrevi textos sobre o tema aqui no blog (veja aqui e aqui) e também artigos acadêmicos, a exemplo do que pode ser acessado aqui. Além disso, estou, desde setembro de 2013, realizando minha pesquisa de campo sobre o movimento LGBT de Portugal, Argentina, Chile, Equador e Espanha. É preciso muito fôlego, tempo e espaço para responder a questão, mas vou aqui apontar apenas algumas questões que não devem ser esquecidas por quem deseja enfrentá-la:

- o desenvolvimento de políticas sexuais (nas quais incluo direitos sexuais, reprodutivos e de gênero) está paralisado ou em retrocesso em vários países, não apenas no Brasil. Dos países que estou pesquisando, apenas o Chile vive um clima de mais otimismo com o novo mandato de Michele Bachelet e as duas pautas prioritárias são o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a aprovação de uma lei de identidade de gênero. Se pensarmos em outros países, como a França e vários outros países europeus, por exemplo, veremos que estamos assistindo uma manutenção e/ou reforço/retorno de concepções muito conservadoras sobre questões de sexualidade e gênero. O Brasil não está e nunca esteve imune a isso. Na história dos países que estou a pesquisar, no entanto, quando avanços legais foram conquistados pelas pessoas LGBT, essas mesmas resistências conservadoras se articularam, mas os governos, partidos e ativistas foram hábeis o suficiente para desenvolver estratégias para vencer os fundamentalistas. Já no Brasil, o que temos visto, nos últimos anos, é o governo federal praticamente refém destas forças conservadoras, em especial as de cunho religioso pentecostal.

Os constantes retrocessos, dos quais o Escola sem Homofobia é apenas um deles, a eleição de Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos, etc e etc, criaram um cenário favorável para a volta de discursos e práticas ultra-conservadoras em várias áreas, que impactam, pelo que vimos nos planos de governo ora apresentados, inclusive em partidos tidos como mais progressistas em relação às sexualidades. Ou seja, até os partidos que combatem essas forças conservadoras foram tímidos e generalistas em suas propostas para a população LGBT;

- os planos de governo também revelam a pouca sintonia dos partidos com o movimento social LGBT (setores dos seus partidos inclusive, como é o caso do PT), que já possui uma longa história e um acúmulo de discussões sobre as suas prioridades, que em muito ultrapassam o casamento ou criminalização da homofobia (aliás, existem propostas distintas em relação ao último tema, pois sequer há uma unanimidade entre a militância). Falo, por exemplo, do projeto de lei de identidade de gênero, já apresentado por Jean Wyllys (PSOL) e Érica Kokay (PT), ou do projeto para regulamentar a prostituição, também de Jean. Apesar de terem apresentado essas propostas, a articulação de forças para a aprovação dessas leis não foi um tema incorporado aos planos dos partidos. Isso sem contar em políticas para educação, cultura e comunicação para a diversidade, saúde integral às pessoas LGBT etc e tal. Praticamente nada disso está em qualquer programa;

- por outro lado, esses planos, em especial se eles permanecerem como estão, revelam novamente a necessidade dos movimentos sociais LGBT repensarem a forma como vêm atuando. Sabemos que a ampla maioria do movimento institucionalizado é ligada, de alguma forma, ao PT, mas sequer isso tem a capacidade de impactar no plano de governo do seu partido. O que está faltando? Uma postura mais crítica e independente? Penso que sim, sem dúvida.

Além disso, fazemos parte de um movimento que realiza paradas cada vez maiores (nossa máxima expressão!) e mais tragadas por uma lógica de mercado, e que ainda é incapaz de costurar alianças fortes com outros grupos subalternizados (negrxs, religiões de matriz africana, mulheres, por exemplo). Boa parte de movimento LGBT ainda é sequer feminista, aliás, em muitas vezes, é anti-feminista, mesmo tendo pautas iguais, como o direito ao corpo, por exemplo. Como sabemos, parte desta falta de interseccionalidade também é gerada pelos outros movimentos, basta ver a tensão entre transfeminismo e feminino agora em voga no Brasil

Outra autocrítica que devemos fazer é desde universidade, que ainda fica fechada em seus muros e não consegue estabelecer estratégias para que as pessoas em geral, o movimento e os partidos compreendam as dinâmicas da sexualidade. Boa parte da sociedade e ativistas, por exemplo, ainda explica a sexualidade pela lógica da naturalização, normalização ou doença, o que é, como disse em minha fala no último congresso da ABEH, realizado na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), um fracasso de nossa parte.

Se não enfrentarmos essas e outras questões, infelizmente passaremos mais quatro anos contabilizando violências contra as pessoas LGBT, mortes inclusive. Só em 2012 foram notificadas 9 mil violações de direitos humanos pelo Disque 100, criado pelo próprio Governo Federal dirigido pelo PT! Quantas mais serão precisas?

Triste, isso é muito triste, mas termino com a esperança de que nossa pressão ainda possa mudar os planos de governo. A reação do setorial LGBT do PT foi um passo, mas falta muito.

Leia os planos de governo disponíveis no site do TSE.

Dilma – PT

Aécio Neves – PSDB

Eduardo Campos – PSB

Luciana Genro – PSOL

Zé Maria – PSTU

Mauro Iasi – PCB

Eduardo Jorge – PV

Pastor Everaldo – Partido Social Cristão

Eymael – Partido Social Democrata Cristão

Levy Fidelix – Partido Renovador Trabalhista Brasileiro

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

Nas andanças por alguns países, para a realização de minha pesquisa de pós-doutorado, uma das tantas coisas que chamou a minha atenção foi o fato de ver que a imprensa de alguns países, como Argentina e Espanha, incorporaram a expressão “violência de gênero” quando tratam sobre casos em que homens matam mulheres, em geral suas esposas. Nos últimos dias, na Espanha, foram noticiados dois crimes deste tipo, ambos tidos por vários meios de comunicação como “violência de gênero”.

Esta forma de cobrir os crimes difere muito do que estamos acostumados a ver no Brasil. Eu poderia dar vários exemplos, mas vou ficar apenas em um deles, que também me chamou atenção por um outro motivo, como explicarei a seguir. Em julho, um enfermeiro de Salvador matou a sua companheira com golpes de faca depois dela ter revelado a ele que estava grávida de outro homem. O caso foi noticiado como “uma triste história”, mais um assassinato, motivada por o que se considerou como “traição”, sem a imprensa perceber a explícita motivação machista do ato.

 

Não sou daqueles ativistas que pensam que qualquer crime cometido contra uma mulher, ou homossexual, é motivado necessariamente por machismo ou homofobia. A violência, cada vez mais crescente no Brasil, também atinge mulheres, LGBTs e outras ditas “minorias”. No entanto, alguns casos são explicitamente motivados por violência de gênero e/ou homofobia. O caso citado acima nos mostra que a violência de gênero pode ser gerada pela tal “traição”, outra ideia que precisa ser muito bem problematizada e desconstruída caso queiramos que estes crimes deixem de acontecer.

Enquanto muitos (eu arriscaria dizer a maioria) dos casais possuem, em algum momento das suas vidas, uma relação afetivo-sexual com outra pessoa e, apesar disso, defendem publicamente e de forma hipócrita que são “fiéis”, essa mulher baiana, grávida, agiu com sinceridade e foi brutalmente assassinada. Ela preferiu a verdade, rejeitou a hipocrisia de muitas outras pessoas, notadamente homens, e teve sua vida interrompida. E o que mais este caso nos diz?

O caso nos diz várias coisas, vou elencar apenas duas que, via de regra, são menos percebidas quando se fala em “traição”: 1) as pessoas, mais significativamente os homens, no alto do seu machismo, consideram as mulheres como suas propriedades. A outra pessoa que compõe o casal não é vista como um ser humano que tem os seus desejos próprios, mas os seus desejos devem, obrigatoriamente, ser canalizados apenas e exclusivamente para o/a outro/a; 2) na ideia de “traição”, além do outro ou outra ser propriedade, existe uma ligação automática entre amor e sexo. Ou seja, se eu amo uma pessoa, eu não posso, em hipótese alguma, em algum momento, desejar sexualmente outra pessoa. Se consumar algum ato sexual fora do casamento ou, em alguns casos, apenas imaginar, automaticamente pensamos que esta pessoa não ama mais aquela com quem mantem uma relação.

Como é possível perceber, as duas coisas estão completamente entrelaçadas e fazem parte de ideias completamente internalizadas e naturalizadas pelas pessoas. O que quero dizer com isso: as pessoas acham que só existe esta forma de amar e de se relacionar com alguém, como se a humanidade, em sua história antiga ou recente, não possua também outras formas de amar e de manter vínculos afetivo-sexuais. Uma mera pesquisa na internet bastaria para verificarmos que determinadas sociedades não criminalizam a poligamia.

Quero concluir falando de outro caso, que também chamou minha atenção nestas andanças. Em Portugal, como em outros vários países, existem os chamados movimentos poliamorosos (no Brasil, além de Poliamor também temos a Rede de Relações Livres), que reúnem pessoas que são simpáticas ou praticantes de relações nas quais existem mais de duas pessoas envolvidas. Pois esse movimento, no caso português, tem sido atacado por determinados setores do país, inclusive por parte do movimento LGBT, que não quer ver essas pautas vinculadas com as suas bandeiras. O pesquisador Miguel Vale de Almeida, muito conhecido no campo das sexualidades e gêneros do Brasil, diz que não critica a poliamoria em si, mas é um dos que entendem que a ligação de pautas do poliamor com o movimento LGBT torna mais difícil a aprovação de marcos legais que favorecem as pessoas LGBT (leia texto aqui), como se não houvessem relações poliamorosas também entre LGBTs. Daniel Cardoso, um dos principais ativistas do poliamor de Portugal acaba de publicar um texto acadêmico, em inglês, em resposta a Almeida (leia aqui)

Além deste rechaço de parte do movimento LGBT, outro dia o médico português Manuel Damas teria proferido, em um programa de rádio do país, declarações que inclusive incitavam à auto-mutilação ou suicídio das pessoas poliamorosas, tidas por ele como doentes e criminosas. Ao ler a carta aberta do PolyPortugal contra o médico (subscrita por outra parte do movimento LGBT que apoia a causa), que circulou nas redes sociais e pode ser lida na íntegra aqui, fiquei cá a pensar sobre as relações entre as pautas poliamorosas e assassinato da jovem baiana e reafirmei algo que já pensava: o ideal de monogamia que temos em nossa sociedade também mata. Não estou defendendo que todas as pessoas sejam obrigadas a ser poligâmicas. Quem estiver feliz com apenas um parceiro/a, continue na sua felicidade. Estou propondo que as pessoas sejam menos hipócritas e quem desejar montar outras formas de relação não seja considerado doente ou criminoso.

Portanto, pensar nas causas das múltiplas violências de gênero implica em, também, repensar nossos conceitos de amor, sexo, traição, fidelidade, casamento, monogamia etc etc.  Isso sem falar na necessidade de entendermos que a violência de gênero não se restringe aos crimes que homens cometem contra as mulheres.  Nela também devem ser incorporadas todas as violências sofridas pelas pessoas que não se conformam com as normas de gênero criadas em nossa sociedade e mantidas à base de muita violência. E esses casos não são considerados “violência de gênero” pela imprensa da Argentina e Espanha e nem por boa parte do movimento feminista destes países, do Brasil idem. Mas esse é um tema para outro texto.

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

No dia em que o mundo comemorou os 106 anos de nascimento de Simone de Beauvoir, a feminista mais conhecida do mundo, recebi, logo cedo, uma mensagem de Carla de Freitas, integrante de nosso grupo de pesquisa que estuda o universo trans, sugerindo que o CUS se manifestasse sobre um ato de transfobia que ocorreu no Shopping Barra, em Salvador.

Vinte e uma pessoas que trabalham no Shopping, em sua maioria mulheres, fizeram um abaixo assinado para impedir que uma travesti, funcionária de uma lanchonete do mesmo centro de compras, continue usando o banheiro feminino. Lançamos a nota (que pode ser lida aqui), mas eu gostaria de aproveitar esse caso para pensar mais um pouco sobre gênero feminino (tema central na obra de Beauvoir), sexualidade, o que os banheiros públicos fazem conosco e as normas que nos regem nesse campo.

 

Vou começar com uma frase que o jornalista Ricardo Ishmael, da TV Bahia, postou em sua rede social. Ele teria ouvido um jovem, de cerca de 19 anos, bradando: “banheiro feminino não é lugar de travesti”. Mas qual é mesmo o lugar que reservamos para as travestis? Qualquer pessoa minimamente informada sabe a resposta. Preferimos ter as pessoas travestis nos piores lugares e elas sequer cabem nos nossos banheiros, sejam elas masculinos ou femininos. E por quê?

A travesti em questão é uma exceção à regra porque conseguiu entrar no tal mercado formal de trabalho. Mas, como esse caso nos mostra, sua batalha deve ser diária, pois sequer tem a tranquilidade de usar o banheiro feminino, gênero com o qual ela se identifica.

Mas por que sempre ocorre esse pânico sexual quando alguma pessoa trans resolve usar o banheiro? Lembram do caso Laerte (veja aqui)?.As respostas podem ser várias e bem mais extensas do que vou escrever aqui neste texto. Vou desenvolver apenas uma delas.

A divisão dos banheiros entre masculino e feminino é uma das formas com as quais a sociedade tenta manter o controle sobre os nossos gêneros e também sobre as nossas sexualidades (basta estudar como os banheiros públicos foram criados na história). A sociedade tenta, violentamente, mas nem sempre consegue. Esta divisão é feita dentro de um esquema absolutamente e absurdamente dicotômico e baseado na genitália da pessoa. A identidade de gênero, ou como a pessoa performa o seu gênero (como se comporta, gesticula e se veste, por exemplo) pouco importa nessa imbecil, autoritária e, repito, violenta divisão.

Para solucionar o problema, algumas pessoas sugerem a criação de um terceiro banheiro, exclusivo para as pessoas travestis. Ou seja, para combater uma exclusão, cria-se outra exclusão, um local identificado, obviamente, como dos restos de nossa sociedade. Ao invés disso, diversas pessoas ligadas aos estudos mais recentes do campo das sexualidades e dos gêneros, aos quais me filio, têm proposto algo muito mais radical (no sentido de ir na raiz do problema): acabar com a divisão de gênero nos banheiros públicos.

Por que não dividimos os banheiros por gêneros em nossas casas, ou até na maioria dos aviões, por exemplo, e fazemos isso no espaço público?

Quando alguém propõe isso, os preconceituosos de plantão (os piores são aqueles que justamente começam as suas frases assim: “olha, eu não sou preconceituoso, mas…”) gritam. As mulheres, que entendem por mulheres apenas quem tem vagina, dizem que temem ser estupradas pelos homens (claro, todos como uns tarados incapazes de controle, não é?) ou alegam que os mijões não sabem fazer xixi sem molhar metade do banheiro (todos eles uns porcos que não podem ser educados para acertar a pontaria ou que sejam, inclusive, orientados a mijar sentados também. Ou a masculinidade deles é tão frágil que sucumbirá ao ato de mijar sentado?).

As duas alegações não se sustentam e só demonstram, mais uma vez, como as pessoas insistem em encontrar razões para justificar os seus tremendos preconceitos, que nascem exatamente nesta rigidez das normas sobre as sexualidades e os gêneros.

Normas que Simone de Beauvoir muito bem estudou e denunciou, mas que ainda não alcançavam, de modo direto, a realidade das pessoas trans, apesar dela ter ficado conhecida com a célebre frase “não se nasce mulher, torna-se”. Dentro deste universo trans, existem pessoas que, independente da genitália que possuem, se identificam como mulheres, ou seja, tal qual as mulheres com vagina, também se tornaram mulheres ao longo da vida.

Ou seja, há muitas formas de ser mulher, tendo vagina ou não, e a sociedade precisa respeitar a forma como cada pessoa se identifica. Por isso, muitas outras simones precisam existir.

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

Como já informei aqui no blog, estou, desde 1º de outubro, em Portugal para realizar parte de minha pesquisa de pós-doutorado, vinculado ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Minha pesquisa pretende mapear e analisar as políticas LGBT em Portugal, Espanha, Argentina, Chile e Equador.

A análise crítica será realizada a partir dos ativismos e pensamentos queer locais, em diálogo com a produção acadêmica ligada aos estudos queer em geral. Em todos os países, vou ler a produção acadêmica da área e depois entrevistarei ativistas e/ou pesquisadorxs. A coleta de material em Portugal está quase chegando ao fim e em breve apresentarei os primeiros resultados desse esforço em textos acadêmicos e congressos de nossa área, que prometo traduzir também em textos da linguagem aqui do nosso blog.

Capa do livro "Trans Iberic Love", de Raquel Freire

Fiz toda essa introdução apenas para dizer que, em função dessa pesquisa, me deparei com o livro Trans iberic love, de Raquel Freire, editado pela Divina Comédia Editores. E é sobre esse livro que quero escrever hoje.

Encontrei pela primeira vez o livro numa livraria de Coimbra, mas não comprei. Tive a certeza de que deveria lê-lo quando participei de uma atividade das Panteras Rosas, um coletivo que tenho estudado e acompanhado aqui em Portugal e que é sintonizado com o ativismo queer. Era noite de sexta-feira, dia 25 de outubro passado, e as Panteras estavam promovendo um jantar beneficente para marcar o mês da luta pela despatologização das identidades trans.

O jantar, chamado Vamos comer Transcesinhas?, merece uma tradução para o Brasil. O cardápio consistia nas chamadas francesinhas, um prato criado na cidade do Porto, em Portugal. As Panteras resignificavam assim o conhecido prato, que na verdade já nasceu também de uma mistura e trânsitos (veja mais sobre o tema aqui, no site do restaurante onde provei uma ótima francesinha ao visitar o Porto).

Neste jantar, pela primeira vez encontrei fora do ambiente online o ativista Sérgio Vitorino, um conhecido ativista local que integra as Panteras. Sérgio parecia feliz pelo evento ter reunido mais de cem pessoas para comer, beber, assistir uns filmes e conversar sobre a despatologização das identidades trans. Um zine específico sobre o tema foi lançado e pode ser lido no blog do grupo (clique aqui). Na mão, Sérgio tinha vários exemplares de Trans Iberic Love.

- Sérgio, que tal esse livro? – perguntei eu.

- É da Raquel, aquela ali, uma pantera – apontou ele para um pequeno grupo que conversava com Raquel que, naquele momento, ouvia atentamente uma pessoa. – Esse livro conta um pouco também da nossa história – acrescentou Sérgio.

No outro dia fui em uma livraria de Lisboa comprar o livro e o devorei. Na contracapa, o texto diz que “Trans Iberic Love é a história de duas pessoas do século XXI que se apaixonam perdidamente uma pela outra e pela revolução que protagonizam, do movimento Queer dos anos 2000 ao dos Indignados em 2011”. Aí descobri que Raquel é escritora, cineasta (veja um dos seus filmes aqui) e nasceu no Porto, assim como Maria, uma das personagens do livro, que se apaixona por José, um transhomem de Barcelona que vira um ativista pelos direitos das pessoas trans e da luta pela despatologização das suas identidades.

O livro estranha (queeriza) também as formas de escrever um romance. Os textos se dividem como se fossem escritos por cada uma das personagens e o formato e a linguagem lembram os textos que escrevemos em nossos e-mails e redes sociais. Em alguns trechos, o tom poético de Raquel se desenvolve mais do que em outros, mas eu não quero avaliar aqui a qualidade literária da obra, nem tenho cacife para tal.

Quero apenas festejar como o livro colabora para entendermos um pouco mais de uma parte do universo trans, de suas lutas, dores e delícias. De como um livro, com linguagem acessível para um grande público (obra está sendo vendida em todas as livrarias de Lisboa), e várias referências à música popular brasileira, a exemplo de Caetano Veloso e Elis Regina, consegue traduzir e tratar de questões complexas e, em especial, sensibilizar as pessoas que o leem sobre temas que temos tratado em todos os textos aqui no blog, em especial sobre heterossexualidade compulsória, heteronormatividade, performatividade de gênero, transfobia, disciplina e controle sobre os nossos corpos.

Assim como fez meu colega Djalma Thürler em O diário de Genet, no teatro baiano, Raquel usa explicitamente referências bibliográficas dos estudos queer para fazer a sua literatura e, neste momento, escreve o roteiro de um filme baseado em seu livro. Vou esperar.

Veja o vídeo de divulgação do livro em: Trans Iberic Love

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

Na semana passada, a imprensa e as redes sociais estiveram novamente abarrotadas de mensagens sobre a excessiva influência da religião na política brasileira. Temos tratado deste tema em vários textos aqui no blog, alertando, inclusive, como esses casos se configuram em explícitos atentados contra o Estado laico, um dos pilares da democracia. E tudo isso ocorre, é sempre bom lembrar, com a anuência de pessoas que, hoje no poder, ontem muito lutaram para a democracia em nosso país.

Sociólogo Boaventura de Souza Santos

Mas hoje quero voltar a tratar desse tema não para dar mais ibope para os fundamentalistas religiosos, mas para tratar de um livro muito interessante que trata sobre o assunto e acabou de ser lançado no Brasil. Estou me referindo a mais uma obra do conhecido sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, com o título Se deus fosse um ativista dos direitos humanos (São Paulo: Cortez, 2013).

Neste livro, Boaventura, de uma forma bem didática e com linguagem de fácil acesso para um público bem amplo, faz um estudo sociológico sobre a religião e o seu atual peso na política de vários países, em especial na luta contra os diretos humanos de determinados segmentos, a exemplo das mulheres e LGBTs.

A obra, obviamente, defende o Estado laico, mas o sociólogo faz isso não através da defesa de que todas as pessoas abandonem as suas religiões e se tornem atéias. Ao invés disso, Boaventura, que entende o quanto a religião, em determinados contextos, é parte constitutiva da subjetividade das pessoas, chama a atenção para o fato de que Deus pode ser um ativista dos direitos humanos. E como ele faz isso?

Inicialmente, o sociólogo trata de questões mais conceituais e explica que utilizará os termos “fundamentalismos” e “fundamentalista” para se “referir a teologias – cristãs e islâmicas – de acordo com as quais a revelação é concebida como princípio estruturante de organização da sociedade em todas as suas dimensões. Em ambos os casos, a revelação está normalmente ligada ao escrituralismo, o que significa que a organização da vida social e política deve seguir a interpretação literal dos livros sagrados sempre que eles existirem. Segundo as teologias fundamentalistas, a revelação é o discurso divino eterno, incriado e, como tal, a interpretação humana não pode ser mais do que uma redução sacrílega” (Santos, 2013, p. 38-39).

Ele divide as teologias entre pluralistas e fundamentalistas. As primeiras aceitam uma autonomia entre a revelação divina e a organização política da sociedade, gerenciando a tensão entre essas duas coisas de modo a encontrar um equilíbrio entre ambas. Apontam para uma concepção humanista da religião, que entende que a revelação foi dada em um contexto e que agora estamos em outro. As segundas não fazem isso. Para elas, a revelação é eterna e “acontextual e, portanto, contem em si mesma todas as possíveis necessidades históricas” (p.40).

Em relação a intervenção política dessas teologias, Santos as divide entre tradicionalistas e progressistas. As tradicionalistas naturalizam as desigualdades sociais, defendem as regulações sociais e políticas do passado para resolver questões do presente, usam dados teológicos para que a política tenha a estabilidade e imunidade que a religião possui. Já as progressistas desnaturalizam as desigualdades sociais e combatem o sistema capitalista inclusive (como a Teologia da Libertação, que foi perseguida no Brasil pelo papado de João Paulo II e outros), se abrem para uma perspectiva ecumênica e inter-religiosa, dialogam com uma perspectiva intercultural e por vezes feminista e insistem no movimento sociológico gerado por Jesus.

Ao longo do livro, Santos vai tentando encontrar o potencial dessas teologias pluralistas progressistas como defensoras dos direitos humanos e, na conclusão, diz:

“Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos é, obviamente, uma pergunta metafórica que só pode ser respondida metaforicamente. Na lógica desse livro, se Deus fosse um ativista dos direitos humanos, Ele ou Ela estaria definitivamente em busca de uma concepção não-hegemônica dos direitos humanos e de uma prática coerente com ela. Ao fazê-lo, mais tarde ou mais cedo este Deus confrontaria o Deus invocado pelos opressores e não encontraria nenhuma afinidade com Este ou Esta. Por outras palavras, Ele ou Ela chegariam à conclusão de que o Deus dos subalternos não pode deixar de ser um Deus subalterno” (p. 142)

Termino com a pergunta: os/as seus/suas Deuses/Deusas, caso os/as tenha, estão do lado e/ou são subalternos/as ou produzem subalternidades?

SANTOS, Boaventura de Sousa. Se deus fosse um ativista dos direitos humanos. São Paulo: Cortez, 2013.

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

De 21 de dezembro de 2011 até hoje, ocupo uma vaga no Conselho de Cultura do Estado da Bahia. Fui indicado para representar os pesquisadores do campo da cultura em nosso Estado e também pela minha atuação como pesquisador e militante em prol da plena cidadania de pessoas LGBT.

Por causa disso, tenho agora a infeliz tarefa de denunciar a homofobia presente nos posicionamentos de um dos conselheiros que, como se não bastasse, acaba de me acusar de “fascista”. Minha proposta neste texto é a de revelar esse caso, até então restrito apenas entre as lista de e-mails do Conselho, mas também a de analisar um pouco o discurso desse senhor, chamado Araken Passos Vaz Galvão Sampaio.

Sessão extra do Conselho de Cultura que discutiu ações e políticas LGBT na área de cultura

A proposta não é a de convencê-lo, pois ele já se mostrou impermeável a esta e outras diferenças, mas a de aproveitar a ocasião para dialogar com quem talvez pense parecido ou não tem opinião formada sobre o tema. E, por fim, desejo perguntar: alguém com as posições como a desse senhor merece ser conselheiro de cultura da Bahia? Você aceita um conselheiro homofóbico?
O senhor Araken, no último dia 31 de agosto, encaminhou um e-mail para a lista do Conselho manifestando o seu repúdio ao que ele considerou como um “censura” do governo do Estado a um livro de sua autoria que seria publicado com verbas públicas pela Secretaria de Cultura (Secult). Araken pedia uma manifestação do conselho, talvez na esperança de que os conselheiros/as o apoiassem. Na mensagem ele reproduz o trecho que acertadamente foi considerado homofóbico pela Secult.

Depois de falar do que considera ser um lobby judaico (outro trecho bem discutível), ele diz: “O mesmo sucede em relação ao lobby gay – um dos mais fortes no mundo atual – que acaba por provar, por a mais b, que o cidadão é homofóbico por qualquer razão que não coincida com a posição deles. Querem lhe impor que a condição homossexual é uma opção individual – condição básica de toda a democracia – e não imperfeição genética, relacionada com alguns genes mal formados. De nada adianta a pessoa argumentar que, sendo um problema genético, ninguém deve ser discriminado por tê-lo, da mesma forma que não se devem discriminar os portadores da síndrome de Down ou os daltônicos, por exemplo. Mas eles não aceitam a fatalidade genética, fincam pé na opção erótica”.

Logo depois alguns conselheiros se manifestaram e Araken começou acusar de fascismo quem não concorda com suas posições. Foi aí que eu enviei um mail para a lista, em resposta ao conselheiro Araken, dizendo o seguinte: “O texto (do livro dele) tem conteúdo homofóbico sim. Gays não tem “genes mal formados”. Me diga um estudo reconhecido cientificamente que comprova tal “conclusão”. Por que os gays teriam “genes mal formados” e os heterossexuais então teriam o que? Genes bem formados? Quem aqui flerta com ideias fascistas? O que os estudos de várias áreas e perspectivas concluem é que as nossas sexualidades são fruto de complexos processos de identificação, inclusive a heterossexualidade (…) Em tempo: eu não faço lobby. Eu luto pela plena cidadania de pessoas LGBT”.

A minha mensagem motivou a emissão de textos de apoio de alguns poucos conselheiros (são 20 titulares e 20 suplentes), a exemplo de Nelson Maca, Marcus Uzel, Claudio Manoel Duarte, Mary Castro, Paulo Henrique Alcântara, Heleusa Câmara e inclusive do presidente do Conselho, Márcio Caires. Araken continuou mantendo a sua posição, mesmo eu cobrando os tais estudos que geraram as suas conclusões.

Na última sexta-feira, dia 27 de setembro, eis que Araken novamente manda uma mensagem para a lista, com assunto pejorativo “Está pelada a coruja”, com links de textos que, na opinião dele, responderiam a minha solicitação inicial. Para minha surpresa, um dos textos é assinado por um pesquisador que recorre ao Espiritismo e outros compõem aquelas sessões de perguntas e respostas do Yahoo. Alguns desses textos recorrem genericamente a estudos desenvolvidos por alguns geneticistas, dos quais já tratei em texto anterior no qual tentei descontruir as “verdades” que algumas pessoas tiram de tais experimentos (leia aqui).

Nem mesmo os estudos dos geneticistas chegam a tamanho grau de homofobia que pode ser visto no texto do conselheiro Araken. Nunca li algum estudo dessa área que tenha defendido que os gays são como são por causa de alguma “imperfeição genética”. No máximo, esses estudos tentam, e não conseguem, comprovar que os gays podem possuir algumas características genéticas diferentes, o que não é o mesmo que dizer que eles possuem “imperfeições” pois, a rigor, todos temos algumas características genéticas diferentes, sejamos LGBT ou não. No entanto, ainda assim, essas pesquisas são experimentais e não reconhecidas como respostas conclusivas sobre as nossas orientações sexuais. Os próprios autores dessas pesquisas dizem isso, basta ler os artigos desses pesquisadores, como fiz no texto citado acima.

Mas esses meandros nem chegaram a ser discutidos em nossa lista no Conselho de Cultura. Em resposta à segunda mensagem de Araken, eu disse: “Os links repassados são ridículos para responder a minha primeira questão em relação ao seu texto homofóbico”. Poucos minutos depois, Araken retrucou: “Sem comentário. Não mantenho polêmica com fascistas”. Em função disso, anunciei que vou processá-lo judicialmente, pois não irei ficar calado com tamanha injúria e difamação. E solicitei que o Conselho avalie se o conselheiro não feriu o regimento interno.

De uma forma resumida, foi isso o que aconteceu. Agora gostaria de analisar um pouco mais o discurso homofóbico deste senhor. Ainda que ele diga, em algumas mensagens, que “não discrimina ninguém” (imaginem se o fizesse!), na sua firme posição de que os gays possuem defeitos genéticos (sem acionar nenhum estudo que chegue a tal conclusão), o conselheiro Araken recorre à tese da patologização da homossexualidade (o que foi descartado pela medicina na década de 1980) e também rejeita completamente a ideia de que os gays possuam uma opção sexual.

A maioria dos estudos que eu conheço prefere o conceito de “orientação sexual” e não “opção sexual”. Ou seja, o conselheiro revela que desconhece completamente essa discussão.

Particularmente, eu não considero produtivo, ou condizente com a realidade, qualquer um dos dois termos. Orientação sexual dá a entender, mesmo sem querer, que, no caso dos gays, algumas pessoas podem ter deliberadamente interferido, orientado, a sexualidade da pessoa. Já o termo “opção” dá a entender, por seu lado, que hoje podemos optar por uma forma de viver as nossas sexualidades e amanhã por outra forma. Ainda que poucas pessoas possam viver de tal maneira, sabemos, via dezenas de reconhecidos estudos acadêmicos, que a maioria das pessoas não transita desta forma rápida em suas sexualidades. O trânsito existe, mas varia de intensidade de pessoa para pessoa e isso não quer dizer que seja motivado por decisões racionais. Como temos desenvolvido em vários textos aqui no blog, a rigor temos apenas uma opção no campo das sexualidades, e ela é compulsória e se chama heterossexualidade (leia sobre o tema aquiaqui e aqui).

Enfim, digo tudo isso porque o caso do conselheiro demonstra, mais uma vez, como as pessoas possuem opiniões rígidas sobre o campo das sexualidades e as sedimentam sem nenhum conhecimento para além do senso comum, que às vezes obviamente nos diz e ensina coisas muito interessantes, mas em outros revela sua total superficialidade e preconceitos.

No entanto, mais do que o seu texto homofóbico, o que me preocupou e motivou a escrita deste texto é como o autor reagiu às contra-argumentações realizadas por mim e por outros conselheiros. Em suma, somos fascistas porque questionamos as suas verdades sobre as sexualidades. Ou seja, esse é o ambiente da luta pelos direitos humanos no Brasil. Quem contra-ataca as posições conservadoras, patologizantes, que inferiorizam as pessoas LGBT à custa da normalidade heterossexual, são consideradas fascistas.

E aí eu pergunto: essa é uma postura condizente com o que se espera de um conselheiro de cultura? Aliás, esperamos de um conselheiro de cultura posições sobre genética ou sobre cultura? Envie a sua opinião diretamente para o conselho. O e-mail é O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

De minha parte, não terei como acompanhar presencialmente o andar desta discussão nas reuniões do Conselho. Escrevo este texto em trânsito, pois inicio hoje o meu pós-doutoramento na Universidade de Coimbra, em Portugal (leia mais aqui). Pelo período de um ano, pesquisarei determinados coletivos e grupos que utilizam, entre outras coisas, produtos culturais para combater a homofobia. Já o produto realizado pelo conselheiro Araken, sem dúvida, jamais poderia entrar em meu campo de pesquisa.

Para finalizar, destaco que esse texto diz respeito apenas ao posicionamento de um conselheiro que, penso eu, não expressa a opinião da maioria. Inclusive o Conselho realizou uma ótima sessão extra para discutir com o movimento social, artistas e pesquisadores como o Estado poderia realizar ações e políticas LGBT na área da cultura (leia sobre aqui e aqui). A sessão foi realizada dia 30 de julho, da qual saiu uma série de indicações para a Secult que, a propósito, ainda não respondeu se vai acatá-las. Araken não compareceu à sessão.

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

Hoje, dia 29 de agosto, comemoramos o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. De todas as letrinhas da sigla LGBT, traduzida pelo movimento social brasileiro como Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (excluindo e invisibilizando outras “minorias” como as pessoas intersexos e transgêneras), as lésbicas são as que possuem menos visibilidade e por isso precisam desse dia.

Flores RarasEnquanto a sexualidade e a vida de gays e pessoas trans é constantemente citada, comentada e inclusive estudada, e a bissexualidade é muitas vezes caracterizada como uma coisa “moderna”, as lésbicas ainda carecem de maior visibilidade e ações específicas que possam produzir maior respeito para elas.

O movimento social LGBT, em sua primeira conferência nacional, realizada em 2008, trocou a ordem da sigla, que era GLBT, como uma tentativa de visibilizar as lésbicas, mas de um modo geral isso não surtiu muito efeito porque a ação parou por aí. A parada de Salvador, que será realizada no dia 8 de setembro, por exemplo, continua sendo chamada de Parada Gay, o que reduz todas as identidades à identidade gay.

Eu poderia refletir aqui sobre o porquê dessa maior invisibilidade das lésbicas em relação às outras identidades, mas prefiro continuar pensando sobre o tema falando das minhas impressões sobre o filme Flores Raras, que está em cartaz e trata da história de amor entre Elisabeth Bishop (poeta americana vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956) e Lota de Macedo Soares (arquiteta carioca responsável pela construção do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro).

Fui assistir à pré-estreia do filme em Salvador, com a presença do diretor Bruno Barreto e da atriz Glória Pires. Barreto falou um pouco e revelou logo uma pista sobre o incômodo que eu sentiria ao ver o filme. Disse ele: “há tempos eu queria filmar uma história de amor. E o que vocês vão ver é uma história de amor, que por acaso aconteceu entre duas mulheres, mas isso não é o mais importante”. A frase horrorosa do diretor talvez explique porque o filme não tenha me emocionado e também explique a invisibilidade das lésbicas de um modo geral.

Barreto, lamento te informar, mas não é menos importante o fato de Lota e Bishop terem sido lésbicas. Pelo contrário, por serem lésbicas é que elas viveram da forma como viveram. E toda essa ambiência, toda essa carga subjetiva, teu filme não consegue produzir. Talvez por isso eu não tenha derramado uma única lágrima ao final do filme (vou contar o final, quem não viu, pode interromper a leitura aqui).

Como é possível a gente não se emocionar com o suicídio de Lota? Por que o filme trata muito mais sobre a subjetividade de Bishop (americana e bem feminina) e muito menos de Lota (brasileira e bem masculinizada, aliás, que era muito mais máscula do que consegue produzir a atuação de Glória Pires)? Será que Lota ganhou esse tratamento justamente porque rompeu subverteu mais as normas do que é ser uma mulher, uma goby? (para saber mais sobre isso clique aqui).

Não creio que apenas o interesse mercadológico da obra, quase todo ele falado em inglês com o evidente propósito de conquistar o público americano, responda por completo à minha pergunta. Pensando pelas lentes das subjetividades, que cada vez mais me interessam, arriscaria dizer que o filme não conseguiu me sensibilizar porque, para o seu diretor, o fato delas serem lésbicas, e repare que para a época em questão elas já assumiam uma identidade lésbica!, isso não foi considerado como algo importante.

É isso: as lésbicas são invisibilizadas porque elas não são consideradas importantes. Se você quer ler algo sobre a história dessas duas mulheres incríveis, onde a lesbianidade delas é considerada muito importante, leia o livro que baseou o filme,Floras raras e banalíssimas, de Carmem L. Oliveira, e o excelente livro Invenções de si em histórias de amorLota Macedo Soares e Elizabeth Bishop, de Nadia Nogueira (Rio de Janeiro, Apicuri, 2008), a quem dedico este texto, com saudade daquela primeira cervejinha que tomamos nos bares da Augusta, quando nos conhecemos, em 2008, em um congresso da ABEH.

Beijos também para todas as minhas amigas lésbicas (Liu, Liza, Ceição e Mai), que compartilham suas vidas comigo.

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19 Setembro 2014 By In Leandro Colling 0 Comentário

Os últimos dias têm sido muito estimulantes para quem pensa sobre sexualidades no Brasil. Vários acontecimentos mereceriam reflexões profundas. Por exemplo: a performance de um grupo de ativistas na Marcha das Vadias do Rio de Janeiro e a posterior repercussão do ato; o caso da “traição” do cantor Tony Salles, casado com Sheilla Carvalho, que está confinada em um reality show; a divulgação e posterior anulação de uma nova versão da portaria, do Ministério da Saúde, que regulamenta o processo transexualizador pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Não pretendo, e nem tenho tempo agora, para refletir com cuidado sobre cada um desses casos, mas vou dar os meus pitacos rápidos para provocar pelo menos algumas questões.

Sobre a performance na Marcha das Vadias no Rio de Janeiro (não sabe do que se trata? Leia aqui http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/07/marcha-das-vadias-reune-mil-nas-praias-do-rio-e-vira-hit-em-rede-social.html?noAudience=true): a pesquisadora e ativista Tatiana Lionço já escreveu um texto muito interessante que contempla boa parte do que eu gostaria de escrever sobre o tema. Leiam o texto dela aqui http://gentetransviada.wordpress.com/2013/07/31/sobre-vadias-violencia-catolicismo-e-imagens-sacras-quebrando-lacan-explica/

Sem entrar em uma discussão diretamente lacaniana, já contemplada por Tatiana Lionço, penso que posso contribuir com o debate proposto por ela. Muitas pessoas, inclusive ativistas pró-LGBT, fizeram duras críticas à performance do grupo que, caso você não saiba, usou crucifixos e imagens de santas católicas como consolos e depois quebrou tudo. Algumas pessoas associaram o ato com invasões de fundamentalistas religiosos a terreiros de Candomblé; outras lembraram que o Código Penal proíbe o “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”; outras consideraram o ato agressivo demais, que não colaboraria para angariar mais simpatizantes, inclusive católicos, em prol das causas pelo reconhecimento e respeito à diversidade sexual e de gênero.

No entanto, o modo como as críticas à performance dos ativistas foram feitas expõe muito sobre como pensamos sobre as sexualidades e a sua relação com o catolicismo. A primeira questão que eu faço é: por que uma performance como essa foi pensada e executada em plena vinda do Papa ao Brasil? Seriam os idealizadores do ato uns lunáticos, uns malucos, uns imbecis que não teriam motivos para fazer tal manifestação? Ou seja: quem motivou, afinal, tal performance? A gênese da performance está em quem a executou ou está na trágica, nefasta e sangrenta história do catolicismo, amplamente documentada e estudada (leia aqui um pequeno texto de Luiz Mott sobre o tema http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/por-que-os-homossexuais-foram-perseguidos-pela-inquisicao-no-brasil), em relação às pessoas que não se enquadram no modelo seguido e exigido pela Igreja Católica?

Como ficar impassível frente à cobertura que a grande mídia fez sobre a vinda do papa, com o perfeito aval e complacência de nossas autoridades de nosso pseudo Estado Laico, sendo absolutamente conivente com os gravíssimos problemas da Igreja, a exemplo das inúmeras denúncias de pedofilia e demais escândalos sexuais em seu interior? Como aguentar essa cobertura quando comparada com essa história (antiga e atual) de terror? Alguém conhece a história de vida das pessoas que fizeram a performance? Alguém as ouviu ontem ou hoje? Deveriam elas mandar um ofício, um abaixo assinado para a Rede Globo e para Dilma? Essa deveria ser a forma correta de fazer política? É essa política que dá resultados?

Se enfrentarmos essas questões, penso que poderemos entender melhor a performance daquele grupo na Marcha das Vadias. Podemos até pensar que outras estratégias poderiam ser criadas, mas é impossível entender essa ação descolada de um contexto mais amplo.

Ainda sobre esse tema, tenho outras questões: a performance na Marcha das Vadias é a mesma coisa que a invasão de fundamentalistas em terreiros de Candomblé? Penso que existem imensas diferenças entre essas duas ações: uma está reagindo, ao seu modo, contra uma opressão. Outra está querendo, ao seu modo, oprimir e destruir o diferente para alcançar a hegemonia, para que todos professem a mesma fé.

A performance na Marcha das Vadias foi executada porque, no fundo, foi provocada pela própria história da Igreja. O quebra-quebra nos terreiros não foi motivado pelos terreiros, eu nunca vi uma pessoa do Candomblé querendo convencer uma outra pessoa a entrar na religião dos orixás! Eu nunca vi uma pessoa do povo de santo defendendo aos brados que todas as pessoas devem ser do Candomblé. Eu nunca vi uma pessoa do axé demonizando o deus de uma outra religião. E isso tem relação com a forma com que a pessoa ingressa no Candomblé e com toda uma outra perspectiva teológica e filosófica que o envolve, algo bem difícil de nossas mentes colonizadas e ocidentalizadas entenderem. Mas existem ótimos estudos sobre o tema, é só estudar. Leia Reginaldo Prandi, Pierre Verger e Roger Bastide, entre centenas de outros. Para começar, leia aqui uma entrevista com Prandi, seguida de relatos de intolerância (http://ceticismo.net/2009/02/04/a-intolerancia-contra-o-candomble-a-raiz-do-racismo-no-brasil/)

Para terminar, fico com outras questões sobre os demais temas citados na introdução deste texto: o que é mesmo traição? Estar casado/a e fazer sexo com outra pessoa que não o/a seu/sua parceiro/a é traição? Isso sempre foi pensado dessa forma? Todos devem pensar da mesma forma? A monogamia é uma obrigação ou uma opção?

E sobre o processo transexualizador (tá por fora, leiahttp://www1.folha.uol.Foto: Tasso Marcelo/ AFP Photocom.br/equilibrioesaude/2013/07/1319710-governo-publica-e-suspende-portaria-sobre-mudanca-de-sexo-em-menos-de-24h.shtml)? Com que idade uma pessoa pode começar a fazer o processo e “mudar de sexo”? Por que o Estado regula, com unhas e dentes, determinadas transformações corporais e não regula outras? Por que determinados hormônios são livres, qualquer um compra em qualquer lugar, e outros são tão controlados? Por que o processo heterosexualizador é incentivado em todos os lugares e financiado pelo SUS sem a necessidade de que os beneficiados sejam considerados doentes (universalidade do pré-Natal, por exemplo) e o mesmo não ocorre com as pessoas beneficiadas com o processo transexualizador? Temas e perguntinhas para os próximos textos.

Beijinhos e bom final de semana, com mais perguntas bem vadias. E aproveite pra vadiar um pouquinho.

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Depois de ser provocado por colegas, resolvi entrar na discussão sobre o “embate” entre o pastor Silas Malafaia e o geneticista Eli Vieira. Desta vez, tudo teve início por causa de uma entrevista de Malafaia à Marília Gabriela, na qual ele defendeu que não existe um componente genético para determinar a homossexualidade e que, por isso, a orientação sexual homossexual seria um comportamento. Esse “raciocínio” é usado pelo pastor para justificar a sua homofobia pois, para ele, se se trata de um comportamento, ele pode e deve ser modificado e/ou curado.

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Hoje vou pedir licença para fazer um preâmbulo antes de entrar diretamente no objetivo do meu texto, que é o de responder a pergunta do título. Também sugiro que, para ter mais facilidade de seguir o meu raciocínio, se tiverem um tempinho, leiam os meus três textos já postados anteriormente, de preferência nesta ordem: O ânus é um órgão sexual?As políticas do cu e o combate ao vírus HIV no Brasil e Gozando através dos tríceps e bíceps.

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Finalmente vou cumprir a promessa e continuar a sequência de textos que trataram sobre como determinadas partes dos nossos corpos são priorizadas ou negadas como órgãos sexuais legítimos, desejáveis e saudáveis. Meu objetivo, ao rebater o discurso médico hegemônico (que é também do senso comum), que retirou do ânus qualquer possibilidade dele ser um órgão sexual e erógeno como o pênis, a vagina, a boca, os seios, não era apenas o de valorizar o cu, mas de pensar como essa interdição também afeta outras partes de nossos corpos. Por exemplo: existem várias pessoas que adoram pés. Para elas, os pés, por vezes especialmente os mal cheirosos, são fundamentais partes do corpo para a prática sexual.


O que pretendo demonstrar hoje é que, para muitos homens heterossexuais ou não, o próprio pênis deixou de ser o órgão sexual mais importante. Ainda vivemos em uma sociedade falocêntrica, mas isso não quer dizer que sempre o falo será simbolizado pelo pênis em si, como nos lembram vários importantes psicanalistas. O falo é símbolo de poder, mas esse poder que simboliza a masculinidade pode estar concretizado em outras partes do corpo. Na atualidade, para muitos homens, por exemplo, ter um peitoral grande e definido, barriga tanquinho, bíceps e tríceps bem marcados é, talvez, mais importante do que ter um pênis ereto e grande.

Isso porque, para conseguir construir esses corpos definidos e malhados, muitos desses homens tomam drogas que os tornam praticamente brochas. Mesmo sabendo disso, eles continuam tomando as chamadas “bombas”. O que pode estar se passando na cabeça desses caras? Uma hipótese: para muitos desses homens, o mais importante não é o ato sexual “tradicional”. Não é através dele que eles alcançam o gozo. O mais importante, nesses casos, é a exibição dos seus corpos, a produção de conversas, elogios e autoelogios e, também, um tipo de sexo narcísico na frente dos espelhos.

Qualquer pessoa que frequenta ou já frequentou acadêmicas de ginástica (ou seriam elas novos campos forçados, como disse uma vez o pesquisador americano David Halperin?) sabe do que estou falando. Observem as fotos que esses rapazes postam nas redes sociais e facilmente vocês poderão identificar o que estou falando. Não estou supondo que todos os meninos que malham e adoram se olhar no espelho sejam assim, mas é bem plausível que, em uma sociedade que valoriza tanto determinados modelos de aparências corporais, isso possa acontecer com alguma parcela desses homens.

Na internet, os locais de encontros sexuais são outros bons locais para investigar essas questões. Conheço mais os sites e aplicativos dirigidos ao público gay, não sei se o mesmo ocorre nos heterossexuais. É impressionante como existe uma certa prioridade sobre quais partes do corpo devem ser mostradas para atrair mais a atenção de possíveis parceiros. O que mais chama a atenção é que raros mostram o rosto. Isso é compreensível porque vivemos em uma sociedade homofóbica e muitas pessoas ainda temem ser identificadas como gays, em especial como gays caçadores (leia-se promíscuos).

Ainda assim, vale registrar que nesses locais temos, em sua maioria, o que alguns internautas nomearam de um grande número de perfis de “mulas sem cabeça”. Que impacto isso pode causar para as relações no ambiente off-line? Uma gradual desvalorização do rosto? Não sei, talvez.

Na falta do rosto, as pessoas, em geral, fazem o possível para hipervalorizar determinadas partes dos seus corpos. E daí novamente os peitos definidos, bem marcados, os bíceps, tríceps e barriga tanquinho ganham a preferência. Quem tem, exibe, quem não tem faz o possível para encenar que tem, mas quase todos desejam as mesmas partes dos corpos alheios. Ou seja, ainda que poucos gays consigam ter um corpo sarado e definido, produzido com ou sem “bombas”, a ampla maioria os deseja.

O que quero dizer com tudo isso? Talvez muitas pessoas estejam retirando do pênis, da vagina e da bunda também, a centralidade que esses órgãos possuem na prática sexual. Ou seja, essas pessoas gozam através dos seus bíceps e tríceps. Meu desejo é que um dia as pessoas se deem conta de que gozam e podem gozar muito mais com a totalidade dos seus corpos. Assim talvez tenhamos uma sociedade que vigie menos os nossos corpos e pare de determinar quais são os órgãos sexuais que somos obrigados a usar para sermos considerados saudáveis e normais.

Mas ainda não terminei de desenvolver o que prometi em textos passados. Ainda falta falar de bundas, de como o brasileiro adora bunda e, apesar disso, continua sendo excessivamente falocêntrico e homofóbico.

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No meu texto anterior, prometi continuar falando sobre como outras partes dos nossos corpos, além do pênis, vagina, seios e boca, deixam de ou passam a se transformar em órgãos sexuais ultravalorizados ou desqualificados, a depender do período em que vivemos.

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Hoje vou retomar o assunto do texto O ânus é um órgão sexual?, que postei aqui no blog no dia 7 de novembro passado. Primeiro vou tratar da formação de profissionais do campo da saúde e depois pretendo demonstrar o quanto a nossa política de combate ao vírus HIV é guiada por uma lógica falocêntrica.

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Vou deixar o próximo texto sobre as políticas anais, ou do cu, para a próxima semana, mesmo estando animado em função da repercussão do post publicado na semana passada.

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