Políticas do CUS

Imagem: Janaina Calaça

 

O integrante do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade, Matheus Santos, foi vítima de homofobia ao ser agredido na última segunda, na Lapa, no Rio de Janeiro.

Matheus, que é um dos fundadores do grupo, escreveu um texto sobre o que aconteceu (leia abaixo) e atualmente realiza seu curso de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Ele foi barbaramente espancado e xingado porque estava beijando um outro rapaz. É mais uma vítima dessa crescente violência que assola todas as pessoas que externalizam as suas diferenças, sejam elas sexuais, de gênero, religiosas etc. O CUS está indignado e presta todo o apoio possível ao Matheus", disse Leandro Colling, coordenador do grupo.

Os coordenadores do programa de pós-graduação onde Matheus estuda, também lançaram uma nota nas redes sociais. "Viemos nos solidarizar com nosso aluno de doutorado Matheus Santos que, no último domingo, foi criminosamente agredido por motivo de homofobia. Sabemos que em nossos tempos as violências são muitas mas não podemos nos calar diante de qualquer forma de discriminação. Deixamos em nome de nossos professores, funcionários e estudantes aqui nosso forte abraço a ele e desejando que este fato lamentável seja mais uma razão para nos mobililzar por uma sociedade mais justa que inclua a criminalização da homofobia", disseram os professores Denilson Lopes e Paulo Vaz, da coordenação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ.

Eis o texto de Matheus na íntegra:

"Ontem fui espancado. Atacado pelo ódio. Alvo da mais pura inveja do meu desejo. Estava na Rua do Ouvidor, no festival Amanhecer contra a redução da maioridade penal. Era por volta de uma da manhã. Conheci um garoto e nos beijávamos em uma rua próxima quando fomos violentamente agredidos por dois homens que nos deram socos e chutes enquanto nos hostilizavam verbalmente, denunciando nossa "afronta" por estarmos ali, existindo e vivendo nossos afetos. Ele conseguiu correr, eu fui jogado no chão e achei que fosse morrer frente à raiva desmedida dos meu agressores. Gritei com toda minha força pedidos de ajuda; ninguém. Desviei como pude, me defendi até onde deu, consegui sair aos tropeços. Corri com a roupa destroçada em meio às pessoas até encontrar o garoto assustado, com o olho inchado e também em choque. Nos abraçamos e nos percebemos felizes por estarmos vivos. Foi um momento bonito em meio a tanta desgraça. Apesar de tê-lo conhecido minutos antes, soube ali que estávamos profundamente ligados pelo nosso desejo desviante, e que nosso afeto anormal vem acompanhado da experiência da injúria, pela qual somos marcados e que, creio, pode nos unir como coletivo monstruoso -e perigoso.


Enquanto apanhava, eu temia por minha vida, mas não só. Senti que cada chute tentava por abaixo uma rede que vai muito além de mim. Cada soco ou palavra de ódio se dirigia a um grande coletivo do qual faço parte. E, em certa medida, eu já havia experienciado aquilo por outras vias; através da arte, da literatura, dos relatos policiais mas, principalmente, através da vivência de amigxs. Da minha própria vivência na Babilônia; não cheguei aqui à toa, toda bixa sabe do que estou falando, ou deveria saber. Maycon, Kleper, Pedro, Nicole, Van, Nicolas, Roberta e muitxs, muitxs outrxs... Eu era muitxs naquele momento. Sou muitxs agora.

Afasto-me de toda culpa; corro em direção à liberdade e me vejo extremamente desejoso, para o azar deles. Não darei nenhum passo atrás. Não morri ontem, mas um jovem de 14 anos sim. À pauladas & pedradas. Quero mais do que nunca estar em manada. Virar bomba relógio. Tic Tac Boom. Auto-defesa é pra ontem, amigxs. A guerra civil está aí e é atravessada por diversas forças: O que aquela dupla fazia num evento contra a redução da maioridade penal? Qual a intersecção entre viadagem e etarismo? Viadagem, etarismo e classe? Viadagem, etarismo, classe e raça & encarceramento?

Não abandonarei a cidade, continuarei produzindo com ela os nossos desejos mais perversos.

Nunca saímos da barbárie/cultura e diante dela só nos resta a radicalização.

Em tempo: dispenso conselhos sobre B.O., ainda que os mais bem intencionados."

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Publicado em Notícias

Adriano Bastos Gentil - Doutorando no Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade da UFBA e integrante do CUS

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Eu estava sentado, outro dia, na varanda do apartamento de minha mãe, bem no meio de uma bagunça terrível, já que ela tinha inventado de fazer uma reforma. Os móveis todos fora do lugar. Colocados, quase jogados no sofá, estavam todos os álbuns da minha família. Comecei, pelos mais recentes, a folhear e matar as saudades de pessoas que não via já há algum tempo... minha vó materna, que faleceu em 2008, amigos da minha família e amigos de infância. O almoço já estava para ser servido quando comecei a passar as páginas de uns álbuns mais antigos, de quando eu era bebê.

Vendo as fotos de minha mãe e meu pai babando sobre seu primogênito percebi como eu fui assassinado antes mesmo de nascer. Explico. Eu nunca pude ser exatamente eu. Claro que, enquanto recém-nascido, eu nem tinha o domínio da fala e consequentemente tudo que eu queria era na base do grito, do choro, do barulho. Minha vida inteira foi assim. Lembro-me das roupas que não gostava e era obrigado a usar, tinha um conjuntinho amarelo de camisa e bermuda que eu odiava e toda vez que eu era obrigado a usar, chorava, esperneava, mas acabava saindo com aquele maldito conjunto. Saia porque não tinha autonomia.

Nesse processo de ver as fotos muitas coisas passaram na minha cabeça. Uma delas foi o poema “Versus Íntimos”, de Augusto dos Anjos, na verdade um verso que sempre me chamou muito a atenção... “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Eu percebi que aquela mão era a de minha mãe. Ela sempre disse que me amava, mas eu agora me pergunto... amava mesmo?

Fiquei mudo no almoço e na minha cabeça comecei a revisitar situações que vivemos e diálogos que travamos ou que foram silenciados por ela. Percebi que quem ela ama, na verdade, não sou eu, mas a ideia de um filho que ela não teve. Um filho heterossexual, que lhe desse uma nora, netos (isso eu sempre poderei dar) e assuntos heterofamiliares para que ela possa conversar com suas amigas. Digo isso sem medo de estar sendo leviano. Lembro-me que da época em quem estava na faculdade, eu e minha mãe conversamos um dia sobre o poder da mídia e de como ela entra nas casas das pessoas sem pudor, e minha mãe foi categórica ao colocar um argumento sobre a novela “A Próxima Vítima” de que a mídia estava sendo imoral ao mostrar dois gays. Disse que o que ela chamava de imoral poderia ser moral pra muitas pessoas, e então ela disse que eu defendia muito os gays e concluiu perguntando se eu era gay. Eu respirei fundo e respondi a ela com outra pergunta: se eu fosse gay iria mudar alguma coisa na nossa relação? Eu estava prestes a dar a ela uma resposta que nem ela mesma sabia se estava pronta pra ouvir, e ela me respondeu na lata: “sua avó está viajando amanhã pra Ilhéus”. Eu joguei o jogo dela pra não destruir seu sonho de ter uma família padrão, onde não tem espaço para um “anormal”. Sim! Digo anormal porque, nas próprias palavras dela, ser gay não é normal.

Pensei também nas diversas vezes em que eu, depois de der feito meu outing (essa é outra história) tentei colocar nas nossas conversas o tema sexualidade e tudo que encontrei nesses momentos foram palavras do tipo: “você só fala nisso?”, “não tem outro assunto?” e às vezes encontro um silêncio massacrante e frio de quem, além de não conhecer seu filho, faz questão de deixar ele morrer. Trágico? Não, pra mim não. Pra mim é triste. Queria uma mãe que entendesse, defendesse e fosse pra luta comigo, pelo direito do exercício da cidadania e da produção de outras subjetividades. Mas o que encontro, como disse, é silêncio ou recriminação por eu ser quem sou, ou por querer falar de mim.

Minha mãe me mata todo dia. Ela me asfixia, da mesma forma como João Antônio Donat foi asfixiado em Inhumas, na Região Metropolitana de Goiânia. Ela quebra lâmpadas fluorescentes no meu rosto todo dia. Ela me esfaqueia. Ela atira em mim. Ela desfigura meu rosto como que num ato desesperado de me negar uma identidade. Ela corta meu pinto e enfia na minha boca como quem tenta calar minha voz. Não adianta. Eu sou gay. Eu sou a margem e sou feliz assim. Eu sou tudo que ela não queria e continua sem querer que eu seja. Eu sou a mácula na família dela. No auge de minha adolescência, minha mãe me matou (como sempre me mata) quando disse que preferia ter um filho morto a um filho viado.

Nas eleições desse ano, 2014, minha mãe votou em quem tinha o apoio dos fundamentalistas, e eu me solidarizei com uma menor que foi espancada e ferida a facão pelo presidente da Câmara de Vereadores de Firmino Alves, num crime de ódio, num crime de lesbofobia, e, dessa vez, antes de minha mãe me matar de novo, eu vou recitar pra minha querida assassina outros versos de Augusto dos Anjos porque, enquanto ela me mata, meu corpo vira poética:  "Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa".

 

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Publicado em Notícias

tristeza

Pesquisa divulgada em Nova Iorque, em 18/04/2011, indica que o número de jovens homossexuais que se suicidam é cinco vezes maior que o número de jovens heterossexuais. É um grande sinal de alerta para se pensar em políticas públicas que promovam melhorias nas condições de vida de um grupo vulnerável socialmente.     

Diante deste grave problema social, é importante pensarmos como a psicologia pode colaborar para mudar essa situação. Primeiro é preciso deixar claro que a homossexualidade não é uma doença ou transtorno mental que motive o suicídio ou qualquer outra violência contra si mesmo. É importante ressaltar que, desde 1999, o Conselho Federal de Psicologia proíbe qualquer ação de psicólogos que possam colaborar com uma representação da homossexualidade como doença ou anormalidade, bem como realizar terapias para mudança de identidade sexual. Se você ouviu, presenciou ou sabe de algum psicólogo que, na prática profissional, considera a homossexualidade como transtorno e propõe cura, denuncie ao Conselho Federal de Psicologia.

 

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Publicado em Gilmaro Nogueira

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