Políticas do CUS

Domingo, 14 Setembro 2014 00:50

Três flertes poéticos para uma política da diferença sexual e de gênero na arte

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Tiago Sant'Ana – mestrando em Cultura e Sociedade e integrante do CUS

Antes de tudo, convido-xs para serem voyeurs do meu flerte com o universo poético de três artistas da Bahia. Pessoas que parecem invocar em seus trabalhos um grito subversivo e provocador. Que reiteram uma política da diferença, não-assimilacionista, sem bom mocismos e com a aspereza de pessoas que “estranham”.

Inicialmente, meu olhar ainda fugidio percorre o corpo performático de Virgínia de Medeiros, a atmosfera profana de Marcondes Dourado e os traços perversos e cuidadosos de Ana Verana. Embrenho-me na ideia de diferença e alteridade. Abandono categorias que pregam um modo de conduta para pessoas LGBTs, renego a compra de migalhas de cidadania através do pink money e abdico da vinculação com políticas que tentam normatizar corpos através de discursos biológicos e médicos.

Os trabalhos dxs artistas me movem para outro campo. Trazem a reflexão do quanto a arte também pode ser uma poderosa ferramenta de conhecimento e de revelação de contextos históricos e políticos aos quais estamos envoltxs. Mais que isso, a arte estetiza uma série de questões complexas discutidas em extensos textos acadêmicos, mas que nem sempre possuem eficácia e alcances para além dos muros da universidade. As poéticas pelas quais passeio nos indicam para estratégias de resistência e se revelam como um campo de experimentação que não apenas representa subjetividades, mas também as constrói. Uma alternativa real às políticas mais institucionalizadas de gênero e sexualidade.

Desço algumas escadas. Ouço sons de correntes tintilando. A cena que encontro é uma mulher dentro de um pequeno porão no subsolo de uma galeria. No ínfimo espaço, máscaras e acessórios disponíveis para uma intensa e longa sessão sadomasoquista. Vejo-a por meio de um pequeno orifício em uma madeira preta. Tal qual vocês, neste momento sou um voyeur. Ela leva um plug anal que descamba para um rabo de raposa. Seus trajes são pequenas peças de couro negro, que, em vez de esconder seios e sexo, os revelam.

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Um repertório de posições sadomasoquistas é posto em cena, apontando para o quanto o poder disciplinador é ora reforçado ora subvertido nessa prática. Uma máscara também de couro mantém a boca da performer aberta, sendo inevitável a saliva escorrer pelo chão do espaço – coberto com um plástico específico também usado em sessões de BDSM. Seu corpo parece estar num transe. Induzido por desejo de subversão. Um desejo que não cabe em caixinhas. Um desejo que ultrapassa as ideias (baunilhas) de limpeza e moral cristã. Despeço-me do “Jardim das torturas” de Virgínia de Medeiros. E sigo para o encontro de outro ambiente.

Em um beco escuro, com cheiro de mijo misturado com cerveja escorrida de latinhas piriguete, se descortinam imagens videográficas do vídeo “Ogodô ano 2000”, que capturam profanidades na Quarta-feira de Cinzas do carnaval de Salvador. Os frames fisgados por Marcondes Dourado deslizam na tela descortinando corpos que carregam consigo uma série de discursos que dão sentido à existência subversiva de gays e pessoas trans*. Olhos purpurinados, seios bombados e bocas aveludadas se esgueiram em meio a camadas eletrônicas pretas. Sorrisos e respirações ofegantes parodiam gêneros binários e normatizados.

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Fechativas e perversas ocupam as ruas trazendo a cena um espaço de visibilidade próprio. O artista abjeta e deseja aquelas subjetividades voluptuosas que lança olhar. No meio da multidão de diferenças, me perco nas pernas negras e sujas pelo chorume carnavalesco formado por lama e gozo. Tenho certeza, com “Ogodô”, que somos nós a alegria da cidade.

Em outro episódio reencontro Marcondes Dourado numa grande avenida da orla de Salvador. Dessa vez dentro do carro com Isabele, uma profissional do sexo. O programa pago não envolvia sexo, mas uma situação de encontro mediado pela alteridade. A travesti fala sobre vida e morte. É interrompida pelo celular que toca estridente. “Olha que trouxa! Liga para um anúncio de boneca e ainda pergunta se faz vagina?! Se ele for para o motel ele vai ver o vaginal na cara dele bem grande”.

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Presencio o momento que Dourado saca o livro “O erotismo”, de George Bataille, e propõe que a pessoa que está na sua frente o leia. Enquanto as palavras que tratam de desejo, morte e subversão saem de sua boca, imagens do carnaval de Salvador voltam a entrar em cena. Corpos que estão no trânsito voltam à tona. Isabele dentro do carro retorna à cena. “Erotismo é você ultrapassar as barreiras da moral, da disciplina”. A heterossexualidade também é posta em questão por ela. Com um olhar sedutor Isabele se despede de mim e depois de mais cenas momescas, num fade-out lento, “O erotismo”, de Marcondes Dourado, dissolve sob minha mirada agora atenta.

Dirijo-me para uma área isolada. Encontro um plantel de seres ambíguos, incapazes de serem fixados dentro de categorias de gênero. Seus cílios são marcantes e seus corpos esqueléticos. Essas figuras sempre se apresentam com acessórios do universo sadomasoquista, uma relação de desejo não-normativo.

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Desejos que são postos à invisibilidade até mesmo pela comunidade LGBT. Alguns corpos estão vestidos com couro e látex, materiais comumente associados às práticas sexuais que tem no couro e na dominação seu principal foco de desejo. Todas essas imagens são apresentadas para mim em forma de aquarela. Um universo encantador e pulsante construído por Ana Verana.

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Despeço-me de todas essas intensas experiências com a mente inquieta e o corpo fervendo. Desejo experimentar tudo. A diferença me fascina e me embebe. Política já não se apresenta a partir de formatos tão enfadonhos e que reitera modelos vindos mesmo de áreas de conhecimento que normatiza corpos e subjetividades desviantes. E se ainda classifico essa primeira investida como um flerte é porque transas futuras poderão emergir deliciosamente em outros encontros, ocasiões e atmosferas. 

 

 

Site da artista Virgínia de Medeiros

 

Ogodô ano 2000 - Marcondes Dourado

 


Erotismo - Marcondes Dourado
 
Site da artista Ana Verana

 

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Ler 1740 vezes Última modificação em Domingo, 14 Setembro 2014 01:28

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