Políticas do CUS

Domingo, 06 Setembro 2015 21:31

Tensão entre ativismo e universidade entra no foco de debate no Desfazendo Gênero

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Encontro reuniu Susy Shock, Indianara Siqueira e Berenice Bento

Click: Andrea Magnoni

 

A tensão entre o ativismo e a universidade ficou nítida em uma das mesas redondas mais dinâmicas do II Seminário Internacional Desfazendo Gênero. Na sexta-feira, 04, um auditório lotado aguardava o encontro entre a performer e poeta argentina Susy Shock, a ativista Indianara Siqueira e a pesquisadora Berenice Bento, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O debate foi mediado por Gilmaro Nogueira, membro do Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS). 

Batizada de “Questões trans, violências e poesias”, a mesa redonda se tornou um amplo espaço de debate. Diante de um auditório lotado, com pessoas sentadas nos corredores e até no palco, Susy leu dois de seus poemas e, em seguida, reivindicou o direito de não ser homem nem mulher.

Susy foi além: bradou pelo seu direito de poder beijar quem quisesse onde quisesse. “Que outros seja o normal”, afirmou. Na primeira fila da plateia, a filósofa Judith Butler acompanhava o evento, algo que ampliava o furor do público.

 Butler sorri com a provocação: “A Butler faz a teoria, mas a gente destrói o gênero é na prática”

Click: Andrea Magnoni

 

A noite foi ainda melhor diante dos contrapontos promovidos pela ativista Indianara Siqueira e a pesquisadora Berenice Bento. Juntas, as duas mostraram que nem só a universidade produz conhecimento e que há um longo caminho a ser percorrido para o ativismo e a academia caminharem em harmonia.

Ativista do Transrevolução e da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro, Indianara tratou de aproveitar a presença de Judith Butler e disparou: “A Butler faz a teoria, mas a gente destrói o gênero é na prática”. Ovacionada pelo público, seguiu tecendo críticas à universidade. Entre os pontos citados estão a divisão opressora por sexo nos banheiros e a hegemonia do discurso e do protagonismo do homem cis branco.

Já a socióloga e professora Berenice Bento, em tom mais acadêmico, apresentou ao público o resultado parcial de uma pesquisa que coordena: “Transfeminicídio: violência de gênero e o gênero da violência”. Ela explicou o surgimento do conceito de feminicídio após as mortes de mulheres em Ciudad Juarez, no Mexico, e propôs uma comparação com as mortes de mulheres trans no Brasil.

Berenice tratou da hierarquização de violências e punições entre as mulheres trans e não trans, mostrando como aquelas são ainda menos protegidas: “O feminino que as mulheres trans performam é um feminino abjeto”, disse.

Susy Shock leu dois poemas autorais e reivindicou o direito de não ser homem nem mulher
Click: Andrea Magnoni

A fala de Berenice foi suficiente para parte das pessoas trans alertarem que não se sentiam inseridas no estudo. Algumas pontuaram a ausência dos recortes de classe e raça. A professora agradeceu as intervenções e assinalou a importância de ampliar o debate.

A pedido da plateia, Indianara continuou a fala contando como em sua vivência recolhe os dados de assassinatos, a partir de telefonemas e conversas com as amigas. Por fim, Indianara assinalou que suas maiores professoras ao longo da vida foram "ela mesma, as amigas putas e as ruas". E como conselho final, bradou contra o espaço fechado na universidade: “Saiam daqui! Vão pra putaria!”.

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Ler 4481 vezes Última modificação em Domingo, 06 Setembro 2015 22:10

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