Por que tantas letrinhas?

Por que tantas letrinhas?

junho 27, 2018 0 Por admin

Leandro Colling – professor da UFBA e coordenador do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS)

Hoje é dia 28 de junho, data marcante para a construção do que hoje chamamos de movimento LGBT (sobre o tema saiba mais aqui). Mas essa sigla, usada pelo movimento brasileiro, dá conta da diversidade sexual e de gênero que existe em nossa sociedade? É muito comum eu ouvir reclamações, em geral das pessoas mais velhas, sobre a quantidade de letras adicionadas na sigla. Essas reclamações já existiram com mais intensidade e hoje acho que são minoritárias, mas ainda ruidosas. Essas pessoas, em geral homens homossexuais (isso não é mero acaso), se pudessem, manteriam apenas a expressão homossexual ou gay. Em Salvador, por exemplo, até bem pouco tempo, a parada se chamava Parada Gay. Hoje se chama parada LGBT, mas essas quatro letrinhas estão longe de contemplar a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero que as pessoas possuem.

Ou seja, a resposta para a pergunta do título é simples: existem tantas letrinhas, e elas não param se ser criadas e recriadas, porque existem pessoas que se identificam com outras identidades. Só quem deseja estancar o fluxo identitário (como se isso fosse possível) e pensa que apenas a sua identidade importa é que se incomoda exageradamente com a ampliação das letrinhas. Ora, é impossível congelar as identidades, impedir que novas identidades sejam criadas, queiram as pessoas ou não.

Por exemplo: no início da década de 90, quando eu começava a circular pelos ambientes de sociabilidade homossexual de Porto Alegre, nós nos identificávamos como entendidos e entendidas. Eu lembro de ter ficado fascinado quando soube que eu era um entendido! Uma pessoa, depois que eu cheguei esbaforido e fascinado pela primeira vez em uma boate, chamada Enigma, perguntou: – você é entendido? Eu disse: – oi, o que é isso? A bixa respondeu: – entendido é quem entende quem é homossexual ou não, quem percebe só pelo olhar. Lembro que, naquela época, eu e meus colegas rejeitávamos a palavra gay, nos parecia algo distante, importada dos Estados Unidos e nós (risos) éramos as últimas pessoas que questionavam o imperialismo americano!!!

O hoje movimento LGBT, no seu início, no final da década de 70, se autodenominava de Movimento Homossexual Brasileiro. Na época também existia uma crítica ao uso da palavra gay, que alguns militantes, igualmente críticos da americanização, logo traduziram como guei, na tentativa de tornar a palavra mais próxima da língua portuguesa. Como se essa língua fosse realmente nossa e não uma imposição colonial tão ou mais perversa que a língua inglesa.

As pessoas lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, aos poucos, passaram a exigir as suas letras na sigla porque argumentam, com razão, que nem todas elas se sentem contempladas com a identidade gay. Cada uma dessas identidades reivindica as especificidades de suas vivências e pautas políticas porque as suas vidas são distintas da vida dos gays. E a complexidade dessas letrinhas não acaba aí porque também existe uma imensa diversidade identitária entre as pessoas que poderiam ser enquadradas como LGBT. Alguns homens homossexuais, nos quais me incluo, criticam o que significa ser gay hoje no mundo. De uma forma geral, em alguns contextos, ser gay não se reduz ao fato de um homem ter práticas sexuais uma pessoa do mesmo sexo. Ser gay é uma identidade que está associada com determinados símbolos e atributos que determinadas pessoas homossexuais podem não querer ou reivindicar para si. É nesse sentido que algumas pessoas preferem se autodenominar com palavras como bee, bixa, viado, na tentativa de ressignificar insultos. Ser viado, em termos identitários e políticos, não é o mesmo que ser gay.

Além disso, a quantidade de letrinhas aumenta por uma série de outros fatores. Vou tratar a seguir de apenas um: a constante criação de outras formas de identificação, impulsionadas por novos ativismos e estudos acadêmicos do campo da diversidade sexual e de gênero. Por exemplo: até bem pouco tempo não tínhamos um movimento de homens transexuais organizado. Essas pessoas criaram outras identidades, que se traduzem em outras palavras, como transhomem ou homem trans. Em termos políticos, essas duas palavras não são sinônimas, pois uma enfatiza, em primeiro lugar, o aspecto trans e outra a identidade masculina “homem”.

O movimento transfeminista (dentro e fora da academia) também foi responsável pela criação de outra palavra que vem gerando muita polêmica: a de cisgênero, pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento. As pessoas trans (em alguns contextos também chamadas de transgêneras, outro termo ou identidade que causa muita polêmica no Brasil) são aquelas que diferem das pessoas cisgêneras porque elas (as trans) não se identificam com a identidade de gênero designada no nascimento (ou melhor, imposta).

Outra grande colaboração advinda das pessoas trans e de determinados estudos da sexualidade e gênero foi a compreensão sobre a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. As pessoas trans podem ser homossexuais, bissexuais ou heterossexuais e ter a sua identidade vinculada com apenas com a sigla L ou G também invisibilizou e ainda invisibiliza essa compreensão.

Na medida em que surgem novos ativismos, estudos e combinações, outras identidades passam a reivindicar o seu ingresso nas letrinhas. As pessoas intersexo, que só agora começam a se organizar no Brasil, por exemplo, em outros países, já tiveram a letra I incorporada na sigla. Pessoas intersexo nascem com uma ambiguidade sexual, que pode se manifestar de forma bem diversa. Outro movimento embrionário é o de assexuais, pessoas que não sentem necessidade de praticar sexo. E ainda não falei de pessoas que se identificam como pansexuais, não-binárias, gênero fluido e um longo etc.

Para terminar, gostaria de tratar rapidamente de outra letra que passou a aparecer na sigla. Trata-se da letra Q, de queer. Eu, particularmente, por ser uma das pessoas que divulgou e ajudou a desenvolver os estudos queer no Brasil, inicialmente me espantei com a transformação do queer em uma identidade. Para mim, o queer nunca aspirou a se transformar numa identidade. Queer, além de um insulto, sempre esteve ligado ao estranho, a algo difícil de definir, ao trânsito, ao devir. Mas se as pessoas querem se auto definir como queer, quem sou eu para tentar impedir?